Gestão Escolar
15 de setembro de 2026
Formação Docente Continuada como Promotora da Educação Cidadã e Antirracista
Heloisa Baptista Nery; Marcos Cesar Rodrigues de Miranda
DOI: 10.22167/2675-6528-202602226
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A persistência do racismo estrutural na sociedade brasileira e seus impactos no contexto escolar evidenciaram a necessidade de práticas pedagógicas comprometidas com a equidade e a justiça social. Analisou-se como a formação continuada em serviço contribuiu para o fortalecimento de práticas pedagógicas cidadãs e antirracistas, por meio do diálogo entre currículo, materiais didáticos e planejamento docente, à luz do racismo estrutural e da pedagogia decolonial. Realizou-se uma pesquisa de abordagem qualitativa, exploratória e descritiva, que utilizou a análise documental do referencial curricular, de um capítulo do material didático de História do 5º ano, do roteiro formativo do Programa DiVerso em Prosa e do Plano de Trabalho Docente. Os resultados evidenciaram que a formação continuada, quando articulada ao cotidiano escolar, favoreceu a reflexão crítica e a ressignificação da prática pedagógica, contribuindo para a incorporação de temáticas relacionadas à diversidade, à justiça social e às desigualdades raciais no planejamento docente. Observou-se coerência entre os documentos analisados, indicando a articulação entre currículo prescrito e currículo em ação, bem como o papel mediador da gestão pedagógica na efetivação desse processo. Concluiu-se que a formação continuada em serviço, quando desenvolvida de forma intencional e contextualizada, constituiu uma estratégia relevante para a promoção de práticas educativas comprometidas com a equidade.
Palavras-chave: currículo em ação; decolonialidade; gestão pedagógica; práticas educativas; racismo estrutural.
1. Introdução
A sociedade brasileira, historicamente marcada pela escravização, aboliu essa prática em 13 de maio de 1888, sendo o último país da América a fazê-lo. Contudo, essa abolição não foi acompanhada por políticas públicas inclusivas ou reparatórias, o que permitiu a perpetuação de desigualdades. O racismo estrutural, conforme abordado por Almeida (2019), manifesta-se na normalização e reprodução de padrões discriminatórios em diversas esferas sociais, incluindo o ambiente escolar.
A escola, que deveria ser um espaço de acolhimento e transformação, frequentemente reflete e reproduz essas estruturas raciais. Somente em janeiro de 2003, a Lei nº 10.639 (Brasil, 2003) tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana na educação básica. Apesar da legislação, persiste uma carência de conhecimentos e de formação adequada por parte dos professores para abordar a temática de forma eficaz, combater o racismo e valorizar a identidade e a cultura negra.
Essa lacuna na formação inicial dos docentes, que muitas vezes não os prepara para lidar com a complexidade das relações étnico-raciais, exige um investimento em formação continuada. Ferreira (2012) destaca que os professores, influenciados por suas próprias vivências, podem inadvertidamente transmitir mensagens que reforçam preconceitos. A formação continuada, definida por Libâneo (2015) como um processo de desenvolvimento permanente dos saberes docentes e de reflexão crítica sobre a prática pedagógica, torna-se essencial para a ressignificação dessas práticas.
Nesse contexto, a pedagogia decolonial emerge como um referencial teórico crucial, buscando romper com a lógica eurocêntrica e valorizar saberes historicamente marginalizados, promovendo a inclusão de diferentes epistemologias no espaço escolar (Oliveira; Candau, 2010; Mignolo, 2005). Ela contribui para a construção de uma educação antirracista, democrática e emancipadora, ou seja, cidadã. A educação cidadã, por sua vez, está intrinsecamente ligada à função social da escola de promover a formação integral do estudante, desenvolvendo autonomia intelectual e consciência crítica (Libâneo, 2015). Formar para a cidadania implica reconhecer a diversidade e promover práticas pedagógicas que articulem direitos humanos e justiça social.
A educação antirracista, conforme Munanga (2005), implica a revisão de conteúdos, narrativas históricas e materiais didáticos, valorizando a história e os saberes afro-brasileiros e africanos. Assim, a formação continuada pode ser um instrumento poderoso para capacitar professores a enfrentar as desigualdades raciais na escola e na sociedade, promovendo o respeito às múltiplas identidades e a justiça social. Diante da persistência do racismo estrutural e da necessidade de práticas pedagógicas comprometidas com a equidade, este trabalho justifica-se pela urgência em compreender como a formação continuada pode fortalecer a educação cidadã e antirracista. O objetivo geral é analisar como a formação continuada em serviço contribui para o fortalecimento de práticas pedagógicas cidadãs e antirracistas, por meio do diálogo entre currículo, materiais didáticos e planejamento docente, à luz do racismo estrutural e da pedagogia decolonial.
2. Material e Métodos
Este trabalho configura-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa (Bogdan; Biklen, 1994), de caráter exploratório e descritivo (Gil, 2008), com o objetivo de compreender as relações entre currículo, materiais didáticos e formação docente na construção de práticas pedagógicas cidadãs e antirracistas.
Como procedimento de coleta de dados, adotou-se a análise documental, constituindo-se como corpus da pesquisa quatro documentos pedagógicos e institucionais, selecionados por sua relevância para o contexto educacional investigado e articulação com o objeto de estudo.
Os documentos analisados foram: (1) o Referencial Curricular do Ensino Fundamental (SESI-SP, 2024), documento normativo que orienta a organização do ensino, alinhado às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular [BNCC]; (2) o capítulo 1, intitulado “Caminhos da Cidadania”, do livro didático de História do 5º ano da coleção Movimento do Aprender (SESI-SP, 2026), com unidades temáticas e atividades; (3) o material formativo do programa DiVerso em Prosa (SESI-SP, 2024), composto por textos teóricos, reflexões, atividades formativas e materiais audiovisuais, com ênfase em diversidade, inclusão e relações étnico-raciais; e (4) o plano de trabalho docente [PTD] do componente curricular de História, referente ao mês de fevereiro de 2026, com objetivos de aprendizagem, conteúdos, metodologias e avaliação.
O recorte temporal da pesquisa abrange o período de 2024 a 2026, contemplando documentos vigentes e em uso no contexto escolar analisado. Tal delimitação justifica-se pela intenção de examinar materiais contemporâneos e propostas formativas institucionais, como o programa DiVerso em Prosa, no contexto das discussões sobre educação antirracista e revisão curricular.
A escolha dos documentos fundamenta-se na possibilidade de analisar, de forma articulada, diferentes dimensões do processo educativo: o currículo prescrito (referencial curricular), o currículo em ação mediado pelo material didático, a formação continuada de professores (material do programa) e o planejamento pedagógico [PTD]. Essa articulação permite compreender como essas instâncias se relacionam na construção de práticas educativas comprometidas com a cidadania e a equidade racial.
Os documentos analisados são de uma rede educacional estadual de São Paulo, com 142 unidades escolares, mais de 4 mil docentes e 97 mil estudantes, que oferece diversos níveis de ensino e possui diretrizes curriculares e de formação docente próprias.
A opção pelo livro didático de História do 5º ano justifica-se por ser o último ano dos anos iniciais do Ensino Fundamental, etapa em que os estudantes já consolidaram noções básicas de temporalidade e organização social, possibilitando uma abordagem mais aprofundada de conteúdos relacionados à formação do Estado e da sociedade brasileira, bem como a problematização de narrativas históricas e relações sociais.
No âmbito da formação docente, em 2023, a rede implementou o programa de formação continuada DiVerso em Prosa, visando promover discussões sobre diversidade, inclusão e sensibilidade, utilizando literatura, arte e reflexão crítica. Em 2024, o programa foi ampliado, reforçando seu caráter interdisciplinar e atuação junto a docentes, gestores e estudantes.
Nesse contexto, a pesquisa analisou especificamente o documento “Roteiro de Atividades do Programa DiVerso em Prosa”, com a temática “Raça, educação e sociedade”, que orientou uma formação continuada em serviço com duração de três dias, realizada no início de 2024. A escolha desse material justifica-se por sua centralidade na abordagem das relações étnico-raciais no âmbito da formação docente institucional.
A análise desses documentos foi articulada ao plano de trabalho docente [PTD] de História elaborado por uma professora pedagoga da rede, com dez anos de experiência, selecionado como caso empírico. A escolha desse caso justifica-se pela possibilidade de examinar, de forma situada, como uma docente experiente interpreta e mobiliza os documentos curriculares, didáticos e formativos em seu planejamento, evidenciando aproximações, tensões e limites entre o currículo prescrito, a formação continuada e a prática pedagógica.
A pesquisa possui limitações, concentrando-se em um recorte específico de documentos e um único caso de planejamento docente, o que impede generalizações para outros contextos educacionais. Por ser análise documental, o estudo foca nas intencionalidades e orientações presentes nos materiais, sem abranger a complexidade das práticas pedagógicas efetivamente desenvolvidas em sala de aula.
Por tratar-se de uma pesquisa documental, desenvolvida a partir da análise de documentos institucionais e materiais pedagógicos, o estudo enquadra-se nas disposições do art. 1º, inciso VI, da Resolução CNS n° 510/2016, sendo dispensada a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.
3. Resultados e Discussão
A análise documental realizada evidenciou uma articulação consistente entre a formação continuada, o currículo prescrito e a prática docente planejada, indicando que o Programa DiVerso em Prosa atua como elemento mediador na incorporação de princípios da educação antirracista no cotidiano escolar. Os dados analisados permitiram compreender que a formação em serviço, quando estruturada de modo intencional, contínuo e alinhado às diretrizes curriculares, possui potencial efetivo de impactar o planejamento pedagógico e, consequentemente, as práticas educativas.
1 – DiVerso em Prosa – Formação continuada em serviço
O Programa DiVerso em Prosa, desenvolvido por uma rede privada de escolas do Estado de São Paulo, configura-se como uma proposta de formação continuada em serviço voltada à promoção da diversidade, da inclusão e da educação cidadã. Instituído inicialmente no âmbito da Supervisão de Currículo e ampliado, a partir de 2024, em parceria com a Supervisão de Saúde e Inclusão Escolar, o programa articula dimensões pedagógicas, sociais e culturais, com ênfase na construção de práticas educativas críticas e antirracistas.
A compreensão do alcance formativo do programa fundamenta-se em conceitos como racismo estrutural (Almeida, 2019), que explica as desigualdades raciais enraizadas nas estruturas sociais e reproduzidas na escola; pedagogia decolonial (Oliveira; Candau, 2010; Mignolo, 2005), que problematiza narrativas eurocêntricas e valoriza saberes marginalizados; e educação cidadã (Libâneo, 2015), que forma sujeitos críticos capazes de intervir na realidade social e enfrentar desigualdades.
O programa DiVerso em Prosa ocorre em serviço, durante o horário de trabalho dos profissionais da educação, caracterizando-se como formação institucional. As ações formativas são realizadas tanto de forma presencial, nas unidades escolares, quanto por meio de materiais digitais, como folhetos, textos orientadores e conteúdos enviados por e-mail, além de encontros formativos e rodas de conversa. Essa organização alinha-se à perspectiva de Libâneo (2015), que defende a formação em serviço articulada ao cotidiano escolar, favorecendo processos reflexivos sobre a prática pedagógica.
A elaboração e condução das ações são realizadas por equipes técnicas da rede, envolvendo supervisores, formadores e especialistas, o que indica que a formação é uma política institucional contínua, não um curso único, ampliando seu potencial de impacto no currículo e na prática pedagógica. A certificação institucional pode ser concedida conforme a participação e critérios da rede, sem benefícios financeiros diretos, pois a formação integra as atribuições profissionais dos educadores.
A análise do documento “Roteiro de Atividades – DiVerso em Prosa: Diversidade e o Compromisso Social da Educação”, elaborado em 2024, evidencia a centralidade da temática “raça, educação e sociedade”. O material adota uma perspectiva crítica e interseccional, fundamentada em autoras e autores como Patricia Hill Collins, Kimberlé Crenshaw, Carla Akotirene, Bell Hooks, Judith Butler e Paulo Freire, tratando a raça como eixo estruturante das relações sociais e educacionais, marcado por heranças do colonialismo, racismo estrutural e epistemicídio (Quijano, 2005; Mignolo, 2005).
No primeiro dia da formação, a análise do projeto artístico Humanae, de Angélica Dass, utiliza a arte para problematizar categorias raciais, tensionando a naturalização da raça como dado biológico e aproximando-se da compreensão de raça como construção social. A utilização de dados estatísticos e discussões históricas sobre a formação da sociedade brasileira explicita a presença do conceito de racismo estrutural, deslocando a compreensão do racismo de uma dimensão individual para uma estrutural.
No segundo dia, a discussão se aprofunda por meio da interseccionalidade, articulando raça, gênero e classe na compreensão das desigualdades sociais (Candau; Oliveira, 2010). A análise comparativa entre obras de arte clássicas e releituras de artistas negras evidencia processos históricos de invisibilização, ampliando o repertório docente e problematizando representações hegemônicas no currículo escolar. Esse movimento dialoga com a pedagogia decolonial, questionando narrativas eurocêntricas e valorizando outras epistemologias (Almeida, 2019).
No terceiro dia, a formação transita da reflexão teórica para a prática pedagógica, propondo a valorização das produções estudantis e o desenvolvimento de ações nas unidades escolares, buscando impactar diretamente o planejamento docente. Conforme Libâneo (2015), a formação se efetiva ao produzir mudanças na prática, o que, no caso analisado, se manifesta na orientação explícita para a incorporação das temáticas discutidas no cotidiano escolar. Do ponto de vista metodológico, o roteiro adota uma abordagem dialógica, com rodas de conversa, análise de imagens, leitura de textos e produção coletiva de reflexões, em consonância com a perspectiva freireana (Freire, 1996).
A gestão pedagógica desempenha um papel central na efetivação do DiVerso em Prosa, exigindo intencionalidade, organização e acompanhamento sistemático. Cabe ao coordenador pedagógico planejar momentos formativos que contemplem acolhimento, problematização teórica, atividades coletivas e sistematização das aprendizagens, garantindo o engajamento docente e a transposição para a prática.
2 – Articulação entre o DiVerso em Prosa, o Referencial Curricular e o capítulo “Os caminhos da cidadania”
A análise documental do Roteiro de Atividades do Programa DiVerso em Prosa evidencia forte convergência teórico-metodológica com os princípios do Referencial Curricular da rede e com os objetivos formativos do Capítulo 1 do livro de História “Os caminhos da cidadania”, especialmente na abordagem das relações étnico-raciais, da diversidade e da formação para a cidadania crítica. Essa convergência se manifesta nas propostas concretas dos documentos, que mobilizam conceitos, atividades e estratégias metodológicas semelhantes, indicando uma articulação intencional entre formação docente, currículo e material didático.
O Referencial Curricular compreende o currículo como uma construção histórica e coletiva, orientada pela formação integral e valorização das diferenças culturais, sociais e étnico-raciais (Candau, 2008). Ele estabelece a promoção da equidade e do respeito à diversidade como princípios da prática pedagógica, observável em habilidades que orientam o reconhecimento de apagamentos históricos e desigualdades sociais (EF.05.HIS.7.53 e EF.05.HIS.6.56). Essa perspectiva de currículo comprometido com a problematização das relações de poder encontra correspondência direta no DiVerso em Prosa, que assume a diversidade racial como eixo estruturante da formação docente e da ação educativa, abordando explicitamente o racismo estrutural, a branquitude e as desigualdades raciais.
O Referencial Curricular, disponível em ambiente digital institucional, organiza-se em cinco eixos: fundamentos e princípios educacionais, organização curricular, competências e habilidades, orientações metodológicas e avaliação da aprendizagem. Essa estrutura reforça a necessidade de formação continuada para sua efetiva implementação. No campo da História, o Referencial orienta o desenvolvimento de competências e habilidades que visam à compreensão da cidadania como construção histórica, marcada por disputas e exclusões, alinhando-se às propostas do DiVerso em Prosa de reflexão sobre racismo estrutural, branquitude, interseccionalidade e violências simbólicas (Munanga, 2005).
O material didático adotado pela rede, de caráter institucional, é elaborado em consonância com o referencial curricular e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), favorecendo o alinhamento entre currículo e material. Organizado em cadernos ou apostilas com unidades temáticas, textos, atividades e propostas de projetos, ele inclui orientações ao professor, contribuindo para o planejamento e a padronização das ações docentes. Sua abordagem metodológica é orientada ao desenvolvimento de competências, com ênfase em leitura, interpretação, resolução de problemas, produção escrita e pensamento crítico, articulando-se diretamente com o referencial curricular. A efetivação dessa proposta, contudo, depende da ação docente, reforçando o papel do DiVerso em Prosa na qualificação dessa prática.
O capítulo 1 do livro didático de História do 5º ano, “Os caminhos da cidadania”, propõe a construção do conceito de cidadania a partir de múltiplas experiências históricas, evidenciando a variação dos critérios de participação e exclusão ao longo do tempo. Ao articular cidadania com tolerância religiosa, igualdade, diversidade, respeito às diferenças e direitos humanos, o material didático explicita que a cidadania plena está relacionada ao enfrentamento das desigualdades raciais e sociais, base de uma pedagogia decolonial (Mignolo, 2005). Essa abordagem converge com o DiVerso em Prosa, que enfatiza a necessidade de compreender os marcadores sociais da diferença, especialmente a raça, como condicionantes do acesso aos direitos e do pertencimento social.
O DiVerso em Prosa contribui para a efetivação das orientações didáticas do capítulo ao incentivar práticas pedagógicas baseadas no diálogo, na escuta e na valorização das experiências dos sujeitos, por meio de rodas de conversa, leitura de imagens e análise de produções estudantis. Essa convergência metodológica indica coerência entre formação, currículo e material didático. A formação continuada atua como dispositivo mediador entre o currículo prescrito (Referencial Curricular e material didático) e o currículo em ação (planejamento e prática docente), buscando garantir que os princípios de respeito à diversidade étnico-racial e de combate ao racismo sejam efetivamente incorporados ao planejamento pedagógico.
3 – Formação continuada, currículo prescrito e prática docente planejada
O Plano de Trabalho Docente (PTD) constitui um instrumento sistemático de planejamento pedagógico, com entrega mensal e validação pela equipe gestora. Esse caráter sistemático e institucionalizado reforça sua função organizativa e formativa, servindo como espaço de materialização das orientações curriculares e das aprendizagens da formação continuada.
A análise do PTD, elaborado por uma pedagoga com dez anos de experiência após participar do Programa DiVerso em Prosa, revela uma consistente transposição didática dos princípios discutidos na formação para o currículo em ação. Os pressupostos teóricos relacionados à diversidade, cidadania e relações étnico-raciais, presentes no Referencial Curricular e no Capítulo 1 do livro de História, são incorporados de forma intencional e articulada no planejamento pedagógico. Essa incorporação evidencia o impacto da formação continuada na prática docente, com os conceitos sendo reelaborados e aplicados no planejamento.
O documento segue a metodologia do planejamento reverso (Wiggins e McTighe, 2019), organizado em três estágios: resultados desejados, evidências para avaliação e plano para a aprendizagem. No Estágio 1 (Resultados desejados), o planejamento evidencia uma concepção de cidadania alinhada ao material didático e ao referencial curricular, compreendendo-a como construção histórica coletiva, marcada por lutas sociais e exclusões. Essa compreensão dialoga com o capítulo “Os caminhos da cidadania”, que problematiza a cidadania universal e explicita os processos históricos de exclusão de grupos sociais, especialmente populações negras, indígenas e trabalhadores. Ao explicitar que “muitos grupos foram excluídos da cidadania” e que o respeito às diferenças fortalece os direitos humanos, o planejamento revela a incorporação de uma leitura crítica da história (Candau; Oliveira, 2010), aprofundada na formação do DiVerso em Prosa.
No Estágio 2 (Evidências para avaliação), observa-se a valorização de instrumentos avaliativos formativos e emancipatórios, como debates, rodas de conversa, produções textuais reflexivas e análise de imagens. Esses instrumentos superam práticas avaliativas meramente conteudistas, favorecendo o desenvolvimento de habilidades argumentativas, empáticas e críticas, alinhando-se às discussões do DiVerso em Prosa sobre avaliação, currículo e compromisso ético com a diversidade.
No Estágio 3 (Plano de aprendizagem), o planejamento integra competências socioemocionais (empatia, consciência social, respeito, ética e tomada de decisão responsável) com os princípios do Referencial Curricular e a abordagem do capítulo de História. As atividades propostas evidenciam a aplicação dos conteúdos da formação continuada, como a introdução do capítulo por meio de roda de conversa sobre convivência social, tolerância religiosa e cuidado coletivo, a partir da análise de um grafite de Eduardo Kobra. Destaca-se a inserção explícita da temática do preconceito contra religiões de matriz africana, por meio de pesquisa orientada e material audiovisual, contextualizando o racismo religioso no Brasil. Essa escolha didática representa um avanço no tratamento tradicional do tema da cidadania, incorporando discussões sobre racismo estrutural e intolerância religiosa.
A abordagem dos direitos das crianças e dos adolescentes, o estudo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a discussão sobre trabalho infantil, desigualdade racial na distribuição de renda e a análise da diferença entre rendimentos de pessoas brancas e pretas revelam uma ampliação crítica do conteúdo do livro didático. O planejamento demonstra que o professor não se limita à reprodução do material, mas o ressignifica à luz das discussões sobre raça, educação e sociedade, conforme incentivado pelo programa formativo. A culminância do capítulo com uma proposta de exercício de cidadania ativa, envolvendo pesquisa de problemas reais, elaboração de propostas de intervenção e simulação de participação política, materializa a articulação entre currículo, formação continuada e prática docente, evidenciando a transposição da formação para a prática.
O cruzamento documental confirma que o planejamento docente pós-formação incorpora de forma consistente os princípios do Referencial Curricular, aprofunda criticamente as propostas do material didático de História e materializa os objetivos da formação continuada do Programa DiVerso em Prosa. Essa articulação confirma a eficácia da formação em serviço como estratégia de promoção da educação cidadã (Freire, 1996) e antirracista no Ensino Fundamental. Do ponto de vista da gestão, o acompanhamento do PTD constitui um dos principais instrumentos para garantir a efetivação do currículo em ação. O coordenador pedagógico exerce papel fundamental ao analisar os planejamentos, utilizando critérios e instrumentos que permitam identificar a presença de elementos como intencionalidade pedagógica, alinhamento às habilidades curriculares e incorporação das temáticas discutidas na formação continuada. Esse acompanhamento envolve também a observação de aulas e a realização de devolutivas formativas individuais, contribuindo para o aprimoramento das práticas pedagógicas e para a consolidação de propostas alinhadas à educação antirracista.
4 – Síntese dos achados
A análise documental realizada evidenciou uma articulação consistente entre formação continuada, currículo prescrito e prática docente planejada, indicando que o Programa DiVerso em Prosa atua como elemento mediador na incorporação de princípios da educação antirracista no cotidiano escolar. Os dados analisados permitem compreender que a formação em serviço, quando estruturada de modo intencional, contínuo e alinhado às diretrizes curriculares, possui potencial efetivo de impactar o planejamento pedagógico e, consequentemente, as práticas educativas.
No âmbito da formação continuada, o DiVerso em Prosa apresenta-se como uma proposta institucional que ultrapassa abordagens pontuais ou superficiais sobre diversidade, assumindo uma perspectiva crítica, interseccional e comprometida com o enfrentamento do racismo estrutural. A centralidade da temática racial no material formativo, aliada ao uso de referenciais teóricos consistentes e à proposição de metodologias dialógicas, favorece a problematização das práticas pedagógicas e a ressignificação do papel da escola na promoção da equidade e da justiça social.
Essa perspectiva encontra correspondência direta no referencial curricular da rede, que concebe o currículo como uma construção histórica e orientada pela formação integral dos sujeitos, incorporando a valorização das diferenças e o reconhecimento das desigualdades sociais como elementos constitutivos do processo educativo. A estrutura curricular baseada em competências e habilidades, bem como as orientações metodológicas e avaliativas, cria condições para que temas como as relações étnico-raciais sejam abordados de forma sistemática e intencional.
No que se refere ao material didático, observa-se coerência com os princípios curriculares ao propor abordagens que articulam cidadania, diversidade e direitos humanos. O capítulo analisado evidencia uma concepção de cidadania histórica, plural e marcada por disputas e exclusões, possibilitando a problematização das desigualdades sociais e raciais.
A análise do Plano de Trabalho Docente permite identificar a materialização desses princípios no currículo em ação. Observa-se que o planejamento incorpora, de forma intencional, os pressupostos discutidos na formação continuada, evidenciando a transposição didática das temáticas relacionadas à diversidade, à cidadania e às relações étnico-raciais. A adoção do planejamento reverso, a valorização de práticas avaliativas formativas e a inclusão de atividades que mobilizam reflexão crítica, empatia e participação social indicam um alinhamento efetivo entre formação, currículo e prática.
Destaca-se, ainda, que a professora não se limitou à reprodução do material didático, mas o ampliou e o ressignificou a partir das discussões promovidas na formação, incorporando temas como racismo religioso, desigualdade racial e protagonismo estudantil. Esse movimento evidencia o papel ativo da docente na construção do currículo em ação, bem como a importância da formação continuada como espaço de desenvolvimento profissional crítico e reflexivo.
Em síntese, os achados desta pesquisa indicam que a articulação entre formação continuada em serviço, referencial curricular e material didático pode favorecer a consolidação de práticas pedagógicas comprometidas com a educação antirracista e cidadã. Tais elementos reforçam a compreensão de que a efetivação de uma educação comprometida com a justiça social depende não apenas de documentos orientadores, mas de processos formativos contínuos, críticos e contextualizados.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar como a formação continuada em serviço contribuiu para o fortalecimento de práticas pedagógicas cidadãs e antirracistas, por meio do diálogo entre currículo, materiais didáticos e planejamento docente, à luz do racismo estrutural e da pedagogia decolonial. Verificou-se que a formação continuada, exemplificada pelo Programa DiVerso em Prosa, atuou como um dispositivo institucional e contínuo, mediando a incorporação de princípios antirracistas no cotidiano escolar. Observou-se que essa formação favoreceu a reflexão crítica e a ressignificação da prática pedagógica, resultando na inclusão intencional de temáticas de diversidade, justiça social e desigualdades raciais no planejamento docente. Identificou-se uma coerência notável entre o referencial curricular, o material didático e o Plano de Trabalho Docente, evidenciando que a professora não se limitou à reprodução de conteúdos, mas os ressignificou criticamente, ampliando a abordagem da cidadania para incluir discussões sobre racismo religioso e desigualdade racial. Essa articulação demonstra a capacidade da formação em serviço de promover uma educação comprometida com a equidade e a justiça social.
Contudo, é importante reconhecer as limitações deste estudo, que se concentrou na análise documental de um recorte específico, envolvendo um conjunto delimitado de materiais e um único caso de planejamento docente. Essa abordagem qualitativa impede a generalização dos resultados para outros contextos educacionais e não abrangeu a complexidade total das práticas pedagógicas efetivamente desenvolvidas em sala de aula. Sugere-se que pesquisas futuras ampliem o escopo investigativo, incluindo outras áreas do conhecimento, diferentes etapas de ensino e múltiplas unidades escolares, a fim de aprofundar a compreensão sobre a relação entre formação continuada e práticas pedagógicas. Recomenda-se, ainda, a investigação dos impactos dessas práticas na aprendizagem dos estudantes, especialmente no que tange ao desenvolvimento de atitudes, valores e competências relacionadas à educação antirracista e à cidadania. A efetividade da formação continuada, portanto, está intrinsecamente ligada à atuação intencional e mediadora da gestão pedagógica, que se mostra crucial para a consolidação de processos formativos contínuos, críticos e contextualizados, capazes de transformar o cotidiano escolar.
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Wiggins, Grant; McTighe, Jay. Planejamento para a Compreensão: Alinhando Currículo, Avaliação e Ensino por Meio da Prática do Planejamento Reverso. Penso Editora, 2019.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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