Neurociência E Aprendizagem Na Educação
16 de setembro de 2026
Dupla Excepcionalidade e Inclusão: Desafios e Estratégias Pedagógicas para o Desenvolvimento Integral do Aluno
Mercia Liane de Oliveira; Jacqueline Meireles Ronconi
DOI: 10.22167/2675-6528-202602284
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A dupla excepcionalidade, caracterizada pela coexistência de altas habilidades/superdotação (AH/SD) com deficiências, transtornos ou síndromes, representa um desafio complexo para a inclusão escolar. A identificação e o atendimento a esses estudantes permanecem limitados, resultando em práticas pedagógicas insuficientes para o desenvolvimento de suas potencialidades. O estudo objetivou examinar a percepção de pais e responsáveis sobre o suporte educacional oferecido, identificando desafios e oportunidades de aprimoramento na gestão escolar. A metodologia adotou natureza exploratória e descritiva, utilizando levantamento de campo (survey) e pesquisa documental. Os dados foram coletados via questionário on-line e submetidos à análise quantitativa e de conteúdo. Os resultados revelaram que as escolas, em sua maioria, não participaram ativamente da identificação da dupla excepcionalidade, aceitando diagnósticos apresentados pelas famílias. Constatou-se que a comunicação entre família e escola foi frequentemente insuficiente, dificultando a construção de estratégias pedagógicas adequadas e a implementação de planos educacionais individualizados eficazes. Os achados contribuem para a compreensão da efetividade das políticas de inclusão sob a ótica familiar, apontando caminhos para práticas que assegurem tanto a valorização do potencial quanto o suporte às necessidades específicas dos alunos duplamente excepcionais.
Palavras-chave: Altas habilidades; Apoio familiar; Mascaramento; Práticas pedagógicas; Transtornos de aprendizagem.
1. Introdução
Indivíduos duplamente excepcionais (2E) são caracterizados pela coexistência de altas habilidades ou superdotação (AH/SD) e, simultaneamente, pela presença de algum transtorno ou deficiência (Dunne et al., 2025). Essa condição complexa pode gerar um mascaramento, onde a alta habilidade oculta a dificuldade ou, inversamente, a dificuldade se sobressai, obscurecendo o potencial do indivíduo, dificultando a percepção imediata de ambas as características (Pereira, Rangni e Nakano, 2023). Esses indivíduos apresentam potencial elevado de desempenho em áreas como habilidades acadêmicas, capacidade intelectual geral, criatividade, liderança ou nas artes, mas também evidenciam uma ou mais deficiências (Reis et al., 2014).
A compreensão da dupla excepcionalidade evoluiu desde as décadas de 1940 a 1960, com observações iniciais de Hans Asperger (1944) e estudos posteriores sobre a coexistência de inteligência elevada e dificuldades de aprendizagem (Reis et al., 2014). A concepção de superdotação também se expandiu de uma abordagem centrada no QI para uma perspectiva mais abrangente (Renzulli, citado em Reis et al., 2014), permitindo reconhecer o potencial de alunos 2E em diversas áreas, mesmo quando suas deficiências afetam o desempenho acadêmico convencional (Reis et al., 2014).
O perfil dos alunos 2E é complexo, combinando alta capacidade com necessidades educacionais especiais, gerando grande variabilidade intraindividual (Rizzo; Pinnelli; Minnaert, 2025). Cognitivamente, o raciocínio abstrato elevado pode coexistir com dificuldades em memória de trabalho ou velocidade de processamento. Academicamente, há um desempenho descontínuo, com uma lacuna entre a compreensão conceitual e a produção escrita. Socioemocionalmente, a sensibilidade elevada e a vulnerabilidade a sintomas como ansiedade e baixa autoestima são comuns, resultantes da percepção da discrepância entre potencial e performance, levando a fadiga e afastamento social (Rizzo; Pinnelli; Minnaert, 2025).
No Brasil, a definição de dupla excepcionalidade foi adaptada à realidade nacional, com Roama-Alves e Nakano (2015) e Vilarinho-Rezende et al. (2016) demonstrando a compatibilidade entre altas habilidades/superdotação e déficits psicológicos, comportamentais e neurológicos. Fusaro (2023) consolidou essa perspectiva, destacando a associação da superdotação com transtornos específicos como transtorno de aprendizagem (TA), transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtorno do espectro autista (TEA).
Apesar da evolução conceitual, a subnotificação de estudantes 2E persiste, exacerbada pelo efeito de mascaramento, onde habilidades e dificuldades se ocultam mutuamente (Jolly; Barnard-Brak, 2024; Reis et al., 2014; Ogeda, Pedro e Martins, 2025). Este fenômeno resulta em subdiagnóstico e falta de compreensão, prejudicando o ambiente escolar. As escolas frequentemente não reconhecem as particularidades desses alunos, levando a diagnósticos tardios ou equivocados e à ausência de suporte adequado para o desenvolvimento pleno de suas potencialidades (da Silva et al., 2025; Ogeda, Pedro e Martins, 2025). Embora a legislação brasileira, como a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), assegure o direito ao desenvolvimento integral, a fragmentação dos serviços e a falta de uma abordagem integrada para a complexidade dos alunos 2E ainda representam obstáculos significativos, tornando muitos jovens invisíveis ou com apoio inadequado.
Diante deste cenário de desafios na identificação e no suporte educacional para estudantes com dupla excepcionalidade, e considerando a lacuna entre o arcabouço legal e a prática pedagógica efetiva, esta pesquisa se justifica pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre a percepção de pais e responsáveis acerca do apoio escolar oferecido. O presente estudo tem como objetivo examinar, por meio de levantamento de campo (survey) e análise documental, a percepção de pais e responsáveis de crianças e adolescentes com dupla excepcionalidade acerca do apoio escolar, identificando desafios e oportunidades para aprimorar as práticas de gestão educacional voltadas a esse público.
2. Material e Métodos
Trata-se de uma pesquisa de delineamento exploratório e descritivo, com abordagem mista (qualitativa e quantitativa), realizada de forma não presencial, por meio de ferramentas digitais. O estudo não envolve intervenção e tem caráter observacional.
Participantes e recrutamento
Os participantes foram pais, mães ou cuidadores de crianças e adolescentes com dupla excepcionalidade, selecionados por vivenciarem diretamente os desafios e estratégias de inclusão escolar. A amostra não probabilística, por conveniência, incluiu 37 participantes com idade mínima de 18 anos, residentes no Brasil, com acesso à internet e que manifestaram concordância com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) online. Foram excluídas 18 respostas provenientes de indivíduos que não se enquadravam no perfil definido (pais ou cuidadores de crianças e adolescentes 2E).
O recrutamento foi realizado de forma aberta e não direcionada, por divulgação pública em redes sociais, grupos de apoio e comunidades virtuais sobre dupla excepcionalidade, altas habilidades/superdotação e inclusão educacional. Não houve contato pessoal ou acesso a dados de identificação.
Instrumento e procedimentos de coleta de dados
Os dados foram coletados por meio de um questionário online, elaborado especificamente para esta pesquisa e aplicado via Google Forms: https://forms.gle/NYtyZRNXoub3qESn6 (Apêndice 1). O instrumento continha três seções: (a) dados sociodemográficos do responsável e da criança/adolescente; (b) percepção sobre o apoio e as práticas escolares; e (c) desafios enfrentados e sugestões para o aprimoramento da inclusão educacional.
A participação foi voluntária, anônima e não remunerada, com aceite eletrônico do TCLE online. Nenhuma informação pessoal identificável (nome, e-mail, telefone, endereço IP ou instituição de vínculo) foi coletada. O preenchimento do questionário, estimado em 10 a 15 minutos, podia ser realizado em qualquer local e horário, por computador, tablet ou smartphone.
Os dados foram primários, obtidos exclusivamente das respostas dos participantes, sem uso de prontuários, registros escolares ou outras fontes secundárias.
Procedimentos de análise dos dados
A análise dos dados quantitativos foi realizada por estatística descritiva (totalização de respostas, frequências e percentuais) utilizando o software Microsoft Excel®. As respostas abertas foram submetidas a uma abordagem qualitativa interpretativa, com leitura atenta dos relatos e identificação de temas recorrentes, agrupados em categorias temáticas conforme sua frequência e importância.
Aspectos éticos
A pesquisa seguiu os princípios éticos das Resoluções do Conselho Nacional de Saúde n° 466/2012 e n° 510/2016. O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do PECEGE (CAAE: 95004125.0.0000.9927) (Anexo 1).
3. Resultados e Discussão
O instrumento de pesquisa foi disponibilizado para respostas no período de 18 de março a 6 de abril de 2026, resultando em 37 respostas. Após a exclusão de 18 respostas que não se alinhavam ao perfil de pais ou cuidadores de crianças e adolescentes com dupla excepcionalidade (2E), 19 respostas foram incluídas e analisadas.
1. Dados do Cuidador e da Criança/Adolescente
A distribuição geográfica dos respondentes indicou uma maior concentração no estado de Pernambuco, embora houvesse participação de moradores de outras unidades da federação, demonstrando a capilaridade do instrumento de pesquisa.
Figura 1. Distribuição geográfica dos respondentes por unidade da federação.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
Em relação ao grau de parentesco, 17 respostas foram de mães, uma de pai e uma de avó. Este achado corrobora estudos como o de Hricová et al. (2020), que apontam para a maior propensão de mães em participar de pesquisas sobre desenvolvimento e educação infantil. Quanto à faixa etária das crianças e adolescentes 2E, 42,1% estavam entre 6 e 10 anos, correspondendo, aproximadamente, ao ensino fundamental 1.
Figura 2. Distribuição da faixa etária de crianças e adolescentes com dupla excepcionalidade.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
2. Percepção sobre o Ambiente Escolar
A maioria dos estudantes 2E na amostra (68,4%) frequentava escola particular.
Figura 3. Tipo de instituição de ensino frequentada pelos estudantes com dupla excepcionalidade.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
Os diagnósticos associados às altas habilidades/superdotação (AH/SD) apresentaram diversas combinações: sete crianças/adolescentes tinham AH/SD com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), seis com TDAH e Transtorno do Espectro Autista (TEA), três com TEA, um com AH/SD, TDAH e outro, e um com AH/SD, TDAH, TEA e outro.
Figura 4. Distribuição dos diagnósticos associados às altas habilidades/superdotação.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
A participação da escola no processo de identificação da dupla excepcionalidade foi limitada, com apenas 10,5% dos casos em que a escola teve um papel ativo. Embora a maioria das escolas tenha aceitado o diagnóstico apresentado pelas famílias, a baixa participação ativa sugere que a eficácia escolar na identificação é comprometida pela falta de formação docente e pela persistência de estereótipos (Alsamani et al., 2026). Esse cenário de passividade institucional frequentemente exige que a família assuma o protagonismo na identificação, muitas vezes por vias externas à escola (Khan et al., 2025).
Figura 5. Participação da escola no processo de identificação da dupla excepcionalidade.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
As estratégias pedagógicas mais frequentemente oferecidas pelas escolas aos estudantes 2E foram a flexibilização de tempo e tarefas (57,9%), seguida pelo acesso ao Atendimento Educacional Especializado (AEE) (52,6%). A Tabela 1 detalha as estratégias pedagógicas ofertadas.
Tabela 1. Estratégias pedagógicas ofertadas aos estudantes com dupla excepcionalidade.
| Estratégia Pedagógica | Frequência Absoluta (f) | Frequência Percentual (%) |
|---|---|---|
| Flexibilização de tempo/tarefas | 11 | 57,9% |
| Atendimento Educacional Especializado (AEE) | 10 | 52,6% |
| Adaptação do ambiente físico | 7 | 36,8% |
| Plano de Ensino Individualizado (PEI/PDI) | 6 | 31,6% |
| Adaptação curricular (conteúdo) | 4 | 21,1% |
| Professor de apoio / Acompanhante | 4 | 21,1% |
| Aceleração de estudos / Avanço escolar | 3 | 15,8% |
| Nenhuma das opções acima foi oferecida | 3 | 15,8% |
Fonte: Dados originais da pesquisa.
Apesar de 52,6% dos alunos terem acesso ao AEE, a baixa ocorrência de adaptações curriculares e acelerações de estudos sugere que o AEE tende a focar mais nas dificuldades do que no desenvolvimento das potencialidades. Apenas seis estudantes receberam um Plano Educacional Individualizado (PEI ou PDI), o que é relevante, pois a legislação brasileira o considera fundamental para o suporte a alunos com deficiências, transtornos e altas habilidades/superdotação. Cerca de 16% dos alunos não receberam nenhum apoio pedagógico da escola, indicando lacunas significativas.
Esses resultados reforçam a invisibilização do aluno com dupla excepcionalidade (Alsamani et al., 2026) e a prevalência de práticas pedagógicas focadas na deficiência em detrimento do talento. Intervenções como a ampliação do tempo para provas podem amenizar dificuldades, mas não são adequadas para fomentar o alto potencial (Rizzo, Pinnelli e Minnaert, 2025). Algumas estratégias classificadas como “outras”, como permitir que o estudante desenhe após concluir atividades, são vistas como flexibilização, mas muitas vezes funcionam como controle de sala de aula, sem promover melhorias no aprendizado e desenvolvimento intelectual do aluno 2E.
Em relação ao PEI/PDI, apenas quatro respondentes declararam participação na elaboração do instrumento, mesmo que parcial (duas respostas). A legislação brasileira (LDB, Lei Brasileira da Inclusão e o Decreto nº 12.686/2025) formaliza a necessidade da participação familiar na coelaboração das adaptações pedagógicas.
Figura 6. Percepção dos responsáveis sobre o nível de participação na elaboração do PEI/PDI.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
A percepção dos pais e cuidadores sobre o conhecimento do corpo docente acerca da dupla excepcionalidade é preocupante: 11 respondentes acreditam que a escola tem pouco ou nenhum entendimento. Seis acreditam que a escola possui algum conhecimento. Este dado, combinado com a comunicação escola-família, onde apenas quatro famílias reportam dificuldades, sugere que a falta de conhecimento pode não ser explicitamente comunicada, mas afeta o suporte.
Figura 7. Percepção dos responsáveis sobre o nível de conhecimento da escola acerca da dupla excepcionalidade.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
Figura 8. Percepção das famílias sobre a comunicação com a escola.

Fonte: Dados originais da pesquisa.
3. Desafios e Sugestões
Os respondentes registraram os principais desafios na mediação da relação entre seus filhos e as escolas, bem como sugestões para aprimoramento. A Tabela 2 sintetiza esses desafios e sugestões.
Tabela 2. Categorias temáticas dos desafios e sugestões relatados por pais e cuidadores.
| Categoria Temática | Desafios (Relatos dos Respondentes) | Sugestões (Expectativas dos Respondentes) |
|---|---|---|
| Apoio e Mediação | “A escola anterior não oferecia nem permitia que a família oferecesse acompanhamento individualizado. Embora houvesse um auxiliar pedagógico na turma, as atenções eram divididas com outros adolescentes. Devido aos desafios do ambiente escolar, meu filho ocasionalmente se desregulava emocionalmente, às vezes chegando a agredir colegas…” | “Os órgãos responsáveis pelo acompanhamento das escolas particulares PRECISAM convidar os pais das crianças atípicas para ouvir. As ações e a legislação NÃO é cumprida! É mascarada!” |
| PEI e Metodologia | “Ausência de um plano de ensino individualizado (PEI) que o motivasse, explorando suas habilidades e potencial. Nenhuma das escolas ofereceu um PEI adequado. Ele termina a tarefa antes de todos e fica ocioso. Elaboração do PEI, ajuste na metodologia de aprendizagem. Não consegue no tradicional.” | “Passei por duas escolas e nenhuma delas fez o PEΙ, mesmo com indicação médica. Existe escuta, mas não existe preparo da escola para o superdotado que tem dupla excepcionalidade.” |
| Mitos e Estereótipos | “Achar que por ser AH/SD não teria dificuldades, desconsiderando o TDAH, porque segundo eles, tem remédio para isso. O mito que a criança com AH/SD tem que tirar ’10’ em tudo envolve até os que deveriam ser especializados. Questão quando ela errou as questões fáceis e acertou todas as difíceis.” | “É importante que todo profissional da educação saia da graduação ciente do que se trata a superdotação e com experiência em identificação em sala de aula.” |
| Socialização e Clima | “Dificuldade de socialização muito grande, não existe modelo de suporte na escola. Minha filha sofre bullying onde chamam ela de maluca por ser autista e a escola não manda advertências para os pais da criança para resolver ou dar uma solução.” | “Gostaria de solicitar que todas as escolas fosse obrigatórios depoimentos de autistas para toda turma ter consciência e respeito pelo autismo e assim aplica a conscientização do grupo.” |
| Gestão e Legislação | “Eu tive que fazer uma cartilha explicando leis e entreguei na escola. Já solicitei capacitação adequada, mas a diretoria ignora. A diretora já postou um vídeo em sua rede social informando que TDAH é moda. Emitem relatórios vagos e genéricos, não possibilitam acesso da família ao PEI.” | “Desenvolver os profissionais no ambiente escolar para que tenham um olhar mais sensível às diferenças e que saibam criar estratégias para incluir as crianças… E não querer que elas se moldem ao padrão.” |
| Aceleração e Aprofundamento | “Não foi realizada a adaptação curricular. Poderia ser utilizado o mecanismo de aprofundamento. Já deixaram claro na escola que se eu quiser acelerar minha filha, vou ter que ir pra justiça. A avaliação psicológica foi negada.” | “Sinto resistência da escola para buscar conhecimento… Acham que já sabem. Uma escola voltada para crianças com superdotação seria perfeito.” |
Fonte: Dados originais da pesquisa.
A análise das respostas abertas revelou padrões recorrentes, organizados em eixos temáticos que descrevem a experiência das famílias de estudantes 2E e o distanciamento entre o suporte legal e a prática pedagógica efetiva.
1. O Fenômeno do Mascaramento e as Barreiras Atitudinais
Os depoimentos indicam uma “cegueira institucional” em relação ao perfil 2E, com relatos de equipes escolares questionando a variabilidade intraindividual desses estudantes. Essa visão reducionista, como a gestão escolar que considera o diagnóstico de TDAH uma “moda”, gera estereótipos que impedem o reconhecimento do alto potencial quando coexiste com um transtorno (Alsamani et al., 2026). O “efeito de máscara”, onde dificuldades de aprendizagem ou comportamentais ocultam as altas habilidades, leva à consideração de que estudantes com dificuldades funcionais não são “elegíveis” para programas de enriquecimento até que suas lacunas sejam sanadas (Cody et al., 2022).
2. A Fragilidade dos Instrumentos de Inclusão: PEI e AEE
Embora o Atendimento Educacional Especializado (AEE) e o Plano de Ensino Individualizado (PEI) sejam pilares da educação inclusiva, sua implementação é frequentemente rotineira e superficial. Há relatos de PEIs “vagos e genéricos” ou de direções escolares que ignoram sua elaboração por anos. Essa falha resulta em ociosidade acadêmica, com alunos terminando tarefas antes dos colegas e ficando ociosos, um exemplo da subestimulação do domínio cognitivo (Rizzo, Pinnelli e Minnaert, 2025). As escolas tendem a focar na remediação de dificuldades, como o controle de comportamento, em vez de oferecer enriquecimento curricular para o desenvolvimento do talento.
3. Desenvolvimento Assincrônico e Desregulação Emocional
O aspecto socioemocional é uma área de intenso sofrimento, com relatos de bullying e desregulação emocional que podem escalar para agressividade, indicando um ambiente que não compreende o desenvolvimento assíncrono. A responsabilidade pelo suporte é frequentemente repassada à família, que muitas vezes financia e gerencia externamente o acompanhamento terapêutico individualizado, tornando a inclusão efetiva uma estrutura externa à escola.
4. O Papel da Família como “Advogada” do Aluno 2E
Diante da inação escolar, os cuidadores assumem o papel de formadores e supervisores. A iniciativa de desenvolver uma “cartilha explicando leis” para professores reflete o esforço dos pais na defesa dos direitos de seus filhos. As sugestões dos pais, como a necessidade de formação de profissionais da educação sobre superdotação e a promoção de conscientização nas turmas, demonstram um desejo por maior humanização do processo educativo, buscando uma transformação na sensibilidade pedagógica para incluir as crianças com suas particularidades, sem a exigência de que se moldem a um padrão.
Em síntese, os resultados desta pesquisa indicam que, apesar dos avanços legais, a inclusão de alunos com dupla excepcionalidade nos ambientes escolares ainda enfrenta desafios significativos. A percepção dos pais e cuidadores revela lacunas no suporte educacional, na identificação ativa por parte das escolas e na comunicação efetiva entre família e instituição. A falta de conhecimento e a persistência de estereótipos por parte do corpo docente contribuem para práticas pedagógicas que frequentemente limitam o desenvolvimento pleno desses alunos, focando mais nas dificuldades do que nas potencialidades. Essa realidade ressalta a necessidade de uma transformação de paradigma que promova a integração de políticas e práticas, garantindo que a complexidade dos alunos 2E seja reconhecida e adequadamente atendida.
4. Conclusão
A presente pesquisa objetivou examinar a percepção de pais e responsáveis sobre o suporte educacional oferecido a estudantes com dupla excepcionalidade, identificando desafios e oportunidades para aprimorar a gestão escolar. Verificou-se que as escolas, em sua maioria, não participaram ativamente da identificação da dupla excepcionalidade, aceitando diagnósticos apresentados pelas famílias. Constatou-se que a comunicação entre família e escola foi frequentemente insuficiente, dificultando a construção de estratégias pedagógicas adequadas. Observou-se que as intervenções pedagógicas, como o Plano Educacional Individualizado (PEI) e o Atendimento Educacional Especializado (AEE), muitas vezes se mostraram superficiais ou focadas predominantemente nas dificuldades, em detrimento do desenvolvimento das altas habilidades. A percepção dos responsáveis indicou um conhecimento limitado do corpo docente sobre a dupla excepcionalidade, contribuindo para a persistência do fenômeno de mascaramento e barreiras atitudinais que impedem o reconhecimento integral desses alunos.
Esses achados revelam uma lacuna significativa entre o arcabouço legal e a prática pedagógica efetiva, onde a família frequentemente assume o papel de principal advogada do aluno. A contribuição do estudo reside na compreensão aprofundada da efetividade das políticas de inclusão sob a ótica familiar, apontando para a necessidade urgente de uma transformação de paradigma na educação. Como limitação, o estudo baseou-se na percepção de um número restrito de pais e responsáveis, o que sugere a necessidade de futuras pesquisas com amostras mais amplas e diversificadas. Sugere-se que estudos futuros explorem a implementação de programas de formação continuada para educadores, visando aprimorar a identificação ativa e a elaboração de estratégias pedagógicas integradas que valorizem tanto o potencial quanto as necessidades específicas dos alunos duplamente excepcionais, promovendo um ambiente escolar verdadeiramente inclusivo.
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Cody, R. A. et al. 2022. Teachers’ reported beliefs about giftedness among twice exceptional and culturally, linguistically, and economically diverse populations. Frontiers in Psychology 13: 953059.
Da Silva, M. de F.; Senger, N. E.; Duarte, S. B. da S. 2025. Double exceptionality in the school context: challenges, recognition and possibilities of pedagogical intervention. Seven Editora: 759-770.
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Fusaro, L. H. 2023. Escala de triagem de dupla excepcionalidade: construção e estudos psicométricos. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, SP, Brasil.
Hricová, L.; Bačíková, M.; Štefánková, M.; Orosová, O. 2020. Factors associated with parental non-/participation in child-development research. Človek a spoločnosť 23(1): 17–30.
Jolly, J. L.; Barnard-Brak, L. 2024. Special education status and underidentification of twice-exceptional students: insights from ECLS-K data. Education Sciences 14: 1048.
Khan, A. et al. 2025. Parental advocacy and support for twice-exceptional students: a systematic review of experiences and perspectives. Journal of Advanced Academics 36(2): 145-168.
Ogeda, C. M. M.; Pedro, K. M.; Martins, B. A. 2021. A dupla excepcionalidade superdotação e TDAH: uma revisão da literatura. Revista Teias 22(64): 55–72.
Pereira, J. D. S.; Rangni, R. A.; Nakano, T. C. 2023. Dupla excepcionalidade: definição e evidências da produção científica brasileira. Revista Diálogos e Perspectivas em Educação Especial 10(1): 41–58.
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Rizzo, L.; Pinnelli, S.; Minnaert, A. 2025. Twice-exceptional students: a systematic review to outline the distinctive characteristics through a multidimensional lens. Frontiers in Education.
Roama-Alves, R. J.; Nakano, T. C. 2015. A dupla-excepcionalidade: relações entre altas habilidades/superdotação com a síndrome de Asperger, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e transtornos de aprendizagem. Revista Psicopedagogia 32(99): 346-360.
Vilarinho-Rezende, D.; Fleith, D. S.; Alencar, E. M. L. S. 2016. Desafios no diagnóstico de dupla excepcionalidade: um estudo de caso. Revista de Psicologia (PUCP) 34(1): 61–84.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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