IA e gestão de projetos na saúde

Coluna

Saúde

25 de fevereiro de 2026

IA e gestão de projetos na saúde

Por que a tecnologia sozinha não consegue transformar sistemas

A inteligência artificial vem sendo apresentada como uma das principais promessas para o futuro da saúde. Diagnósticos mais rápidos, automação de processos, decisões mais precisas e redução de custos compõem um discurso cada vez mais presente nas agendas institucionais. No entanto, a experiência prática demonstra que o simples investimento em tecnologia não garante transformação organizacional nem melhoria sustentável do cuidado.

Relatórios recentes apontam que o Brasil possui um cenário promissor para o uso da inteligência artificial em saúde, mas ainda enfrenta limitações relevantes em infraestrutura, qualificação profissional e governança de dados (CETIC.BR, 2024). Na prática, observa-se que muitos projetos são iniciados com grande expectativa e terminam subutilizados, fragmentados ou sem impacto mensurável.

A implementação de soluções em saúde digital tem revelado um padrão recorrente: a priorização da aquisição de tecnologias em detrimento da compreensão da complexidade organizacional e operacional necessária à sua implementação. Esse desalinhamento resulta, com frequência, em sistemas onerosos, baixa adesão por parte das equipes e impactos limitados sobre os processos de trabalho. Isso demonstra que a transformação digital não decorre da adoção isolada de tecnologias, mas do desenvolvimento de projetos estruturados, com governança, método e propósito claramente definidos.

Quando a inovação falha antes de começar

A literatura contemporânea sobre inovação destaca a importância de distinguir entre duas forças que impulsionam a mudança tecnológica — technology-push (oferta tecnológica) e demand-pull (necessidades de mercado) — e como essas forças interagem para orientar a direção da inovação. Hötte (2023), em um estudo recente, aponta que, quando iniciativas se baseiam principalmente em technology-push, elas podem gerar inovações desalinhadas com demandas reais, com implicações para a adoção e sustentabilidade dos projetos.

Iniciativas orientadas exclusivamente pela tecnologia tendem a apresentar fragilidade estratégica, escopo mal definido e baixa integração organizacional (Bento et al., 2022). Sem diagnóstico institucional adequado, os sistemas não se conectam aos fluxos de trabalho, não dialogam com as demandas reais e não são incorporados à rotina. Nesses contextos, a inovação se transforma em experimento isolado, sem continuidade nem geração efetiva de valor.

O papel estratégico da gestão de projetos

A gestão de projetos tradicionalmente contempla o planejamento e o controle de prazos, custos e escopo. No campo da saúde digital, entretanto, seu papel se expande, assumindo função estruturante nos processos de transformação, articulação de atores e sustentação das mudanças organizacionais.

Segundo a Association for Project Management (2022), projetos baseados em IA exigem integração entre competências técnicas, organizacionais e humanas. Isso inclui tradução de demandas clínicas em requisitos técnicos, organização de equipes multidisciplinares, planejamento de capacitação e definição de indicadores de desempenho. Sem esse arranjo, a tecnologia permanece como promessa. Com ele, transforma-se em instrumento de gestão.

Eficiência não é apenas automação

As aplicações iniciais de inteligência artificial na saúde costumam se concentrar na automação de processos administrativos e de apoio à gestão, como agendamento, faturamento, auditoria, triagem de demandas e análise de glosas (recusas de pagamento por parte das operadoras).

Esses usos representam avanços relevantes em eficiência operacional. No entanto, à medida que a IA passou a ser incorporada a processos assistenciais, regulatórios e decisórios — como apoio à decisão clínica, estratificação de risco, vigilância em saúde, gestão de redes de cuidado e governança de dados —, tornou-se evidente que seus benefícios permanecem limitados quando não acompanhados de redesenho organizacional, revisão de fluxos de trabalho e mecanismos adequados de governança.

O ganho real ocorre quando a tecnologia é inserida em projetos que revisam fluxos, integram sistemas e qualificam equipes. Estudos mostram que iniciativas bem-sucedidas combinam inovação tecnológica com mudanças estruturais nos modelos de gestão (Torres et al., 2025). Nesse cenário, a gestão de projetos atua como mediadora entre áreas técnicas, clínicas e administrativas, garantindo coerência institucional.

Apoio à decisão clínica e responsabilidade

Na dimensão assistencial, os sistemas de apoio à decisão vêm se expandindo rapidamente. Análise de imagens, interpretação de exames, monitoramento remoto e predição de riscos já fazem parte da realidade de muitos serviços.

Revisões internacionais indicam que a inteligência artificial pode aumentar a precisão diagnóstica e reduzir o tempo de resposta clínica, desde que acompanhada de validação e supervisão humana (Uridge et al., 2025). No entanto, sua adoção indiscriminada pode gerar novos problemas, como opacidade decisória, viés algorítmico e fragilidade jurídica, por exemplo.

Projetos responsáveis precisam incorporar, desde o início, mecanismos de explicabilidade, auditoria e governança. Estudos sobre Explainable Artificial Intelligence destacam que a transparência algorítmica é condição central para a confiança institucional (Arrieta et al., 2020). Sem esse cuidado, o ganho técnico pode ser acompanhado de perda de credibilidade.

Interoperabilidade: o desafio invisível

Grande parte das dificuldades na implementação da inteligência artificial não está nos algoritmos, mas na infraestrutura. Dados fragmentados, sistemas incompatíveis e ausência de padrões inviabilizam projetos promissores.

Experiências internacionais, como a do Serviço Nacional de Saúde (NHS), da Inglaterra, demonstram que sistemas de saúde com baixa interoperabilidade enfrentam obstáculos estruturais para a adoção de soluções avançadas — especialmente sistemas básicos de TI lentos, fragmentados e pouco amigáveis, que impedem a integração eficaz de soluções avançadas como a IA, porque a infraestrutura de dados essencial ainda não está modernizada nem interoperável (The Guardian, 2024).

No Brasil, esse desafio é amplamente reconhecido nos estudos setoriais do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC/BR,2024). A gestão de projetos assume papel decisivo nesse contexto, articulando acordos intersetoriais, definindo prioridades e organizando etapas de transição.

Ética, LGPD e governança de dados

Ainda é comum tratar privacidade, segurança da informação e conformidade legal como etapas finais. Esse é um equívoco estratégico. A IA opera com dados sensíveis, o que exige observância rigorosa à Lei Geral de Proteção de Dados (Brasil, 2018). Falhas nesse campo não geram apenas sanções jurídicas, mas também comprometem a legitimidade institucional.

Projetos maduros incorporam, desde a concepção, análise de riscos regulatórios, participação jurídica, políticas de proteção de dados e mecanismos de responsabilização. A governança não limita a inovação. Ela a torna sustentável.

Pessoas continuam sendo o fator decisivo

Nenhuma tecnologia se sustenta sem adesão humana. Resistência à mudança, insegurança profissional e baixa literacia digital ainda são obstáculos relevantes. Estudos indicam que muitos projetos fracassam não por limitações técnicas, mas por falhas na gestão da mudança (Salimimoghadam et al. 2025). Ignorar esse aspecto compromete qualquer iniciativa.

Projetos bem-sucedidos investem em comunicação interna, formação continuada, participação dos usuários e escuta ativa das equipes. A transformação digital é, antes de tudo, um processo social.

A experiência acumulada em diferentes contextos permite destacar alguns princípios fundamentais:

  • Definir o problema antes da ferramenta;
  • Trabalhar com pilotos estruturados;
  • Incorporar governança desde o início;
  • Planejar a mudança organizacional;
  • Medir impacto real.

Esses elementos diferenciam projetos duradouros de iniciativas passageiras.

Para além da tecnologia

A inteligência artificial pode contribuir de forma significativa para o fortalecimento do sistema de saúde brasileiro. Contudo, isso exige articulação entre políticas públicas, formação profissional, regulação adequada e modelos de governança.

Relatórios setoriais indicam que a consolidação dessa agenda depende do desenvolvimento institucional e da qualificação dos gestores (CETIC.BR, 2024). Importar soluções sem construir capacidades locais tende a gerar dependência tecnológica e fragilidade operacional. A inteligência artificial tem potencial para ampliar a eficiência, apoiar decisões clínicas e fortalecer a gestão em saúde. Mas ela não opera sozinha.

A diferença entre projetos que geram impacto e aqueles que se tornam obsoletos está na qualidade da sua condução. A tecnologia é o motor. A gestão de projetos é o sistema de direção. Sem planejamento, governança e compromisso institucional, a inovação se dispersa. Quando esses elementos estão presentes, ela se transforma em valor social.

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Quem publicou esta coluna

Beatriz Cristina de Freitas

Doutora pela UNICAMP, é mestre em Ciências da Saúde pela UnB e em Telessaúde e Saúde Digital pela UERJ, com especializações em Gestão de Projetos (USP/ESALQ) e Gestão em Saúde (USP/EERP). Atua como professora e pesquisadora nas áreas de inovação, políticas públicas de saúde, saúde digital e gestão de projetos aplicados à saúde.

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Palavras-chave: Bolsa Família; Mortalidade Infantil; Municípios Brasileiros; Painel de Dados; Política Pública.

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Palavras-chave: CARF; gestão tributária; limitação temporal; lucro real; planejamento tributário.

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Símbolos da Moda Esportiva: Consumo, Identidade e Status entre Consumidores Brasileiros

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Palavras-chave: Consumo inconspícuo; Distinção; Prestígio social; Sportstyle; Wellness.

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Palavras-chave: Capacitação; Competência; Habilidades não técnicas; Segurança de processo; Treinamento.

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Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

Palavras-chave: accountability; adaptação climática; gestão de riscos; governança multinível.

Digital Business

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Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

Palavras-chave: Automação de Marketing; Business Intelligence; Inbound Marketing; Integração de Sistemas; RD Station.

17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

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A administração escolar foi abordada sob a perspectiva da integração entre gestores administrativos e pedagógicos, com foco na participação democrática, capacitação e qualificação dos atores. O objetivo geral consistiu na elaboração de um Guia de Orientações para Orçamento, direcionado à equipe de gestão pedagógica e mediado pela direção administrativa, visando instrumentalizar esses profissionais para a compreensão e participação nos processos financeiros e decisórios da instituição. Para tanto, o estudo desenvolveu-se em uma instituição particular privada, adotando uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, com procedimento metodológico de estudo de caso. A pesquisa mapeou desafios práticos e dificuldades de comunicação entre os setores, analisou referenciais teóricos da gestão escolar e estruturou o instrumento formativo proposto. Os resultados demonstraram que a ausência de integração entre as áreas administrativa e pedagógica pode comprometer a efetividade da gestão escolar, evidenciando a necessidade de processos formativos contínuos que promovam entendimento mútuo, cooperação e construção coletiva de soluções. O Guia proposto fortaleceu a gestão democrática, elevou a qualificação da equipe pedagógica e melhorou os processos decisórios institucionais, destacando o papel formativo e estratégico do diretor administrativo.

Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

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