O preço de usar IA sem treinamento

Coluna

Inteligência Artificial

02 de setembro de 2026

O preço de usar IA sem treinamento

Adoção da tecnologia já alcança 88% das organizações mundiais, enquanto o número de profissionais punidos por usá-la sem preparo dobrou em sete meses

No primeiro semestre de 2026, ministrei aulas de inteligência artificial com foco em planilhas, dashboards e apresentações, em Barcelona, na Espanha. Entre meus alunos havia advogados e juízes do Il·lustre Col·legi de l’Advocacia de Barcelona, economistas do Col·legi d’Economistes de Catalunya e funcionários administrativos da Acadèmia de les Ciències Mèdiques.

Nos primeiros minutos da primeira aula, um aluno levantou a mão e disse:
– Eu nunca usei IA porque tenho medo e não sei por onde começar.

Essa é a realidade do mercado profissional. A IA entrou nas instituições e nas empresas de forma desordenada. Os funcionários descobriram que havia um “assistente” chamado Copilot, Gemini ou Claude, capaz de automatizar tarefas repetitivas e assumir parte do seu trabalho. Mas como começar sem treinamento? 

O custo do improviso com IA

Alguns alunos exploravam maneiras de interagir com seu novo assistente; faziam perguntas simples, pois não sabiam o que era um prompt. Pediam ajuda para responder e-mails. O problema é que, sem treinamento, casos como os dois que descrevo a seguir deixaram de ser exceção e já aparecem em tribunais de dezenas de países.

Em fevereiro deste ano, a Câmara Criminal do Tribunal Superior de Justiça das Ilhas Canárias, na Espanha, aplicou uma multa de € 420,00 a um advogado por incluir 48 citações falsas de jurisprudência, geradas por IA, em um recurso de apelação. Em abril, o Conselho Geral do Poder Judicial da Espanha aplicou uma multa de € 1.000,00 a um juiz que utilizou o ChatGPT na elaboração de uma sentença.

O juiz foi descoberto porque esqueceu de apagar as consultas ao ChatGPT do texto. Um sinal de despreparo ao utilizar a ferramenta. O ato foi considerado falta grave, tipificada pelo artigo 418.8 da Ley Orgánica del Poder Judicial, devido ao vazamento de dados do processo e dos envolvidos.

Esses não são casos isolados. Damien Charlotin, pesquisador do Hautes Études Commerciales Paris, mantém uma base pública que rastreia decisões judiciais envolvendo conteúdo alucinado por IA. Em janeiro deste ano, o banco registrava 719 casos. Em agosto, já somava mais de 1.900 casos. Em cerca de 650 deles, quem assinou o documento era um advogado. O restante, em boa parte, são pessoas que foram à justiça por conta própria. No Brasil, são 41 casos de decisões fabricadas, citações falsas ou deturpação de julgados reais.

Charlotin adverte que só entram na base de dados os casos em que o tribunal constatou o erro. Sobre o Brasil, ele foi mais específico ao afirmar que os registros brasileiros estão subestimados, porque os dados do Judiciário brasileiro não são tão simples de acessar. O número real é maior.

Os primeiros agentes

Meus alunos não queriam fazer parte desta estatística. Durante as sete horas de treinamento, com aulas divididas em 30% de teoria e 70% de prática, ensinei 60 profissionais a melhorar a sua interação com a IA. Ao final, os que chegaram com medo foram os últimos a sair. Ficaram mais 30 minutos experimentando, testando e criando seus primeiros agentes. Eles tinham muitas dúvidas e, a cada acerto em seus experimentos, sentiam-se mais confiantes com essa nova forma de trabalhar.

Entusiasmo, porém, não é competência. O AI Index 2026, relatório anual do Instituto de IA centrada no humano, da Universidade de Stanford, mede essa distância. A adoção de inteligência artificial nas organizações pesquisadas em todo o mundo chegou a 88%, mas o uso responsável não acompanha o ritmo.

Os incidentes documentados de sistemas de IA que causaram ou quase causaram danos subiram para 362 em 2025, contra 233 no ano anterior. E, em um novo teste de precisão, as taxas de alucinação entre 26 dos principais modelos variaram de 22% a 94%. Ou seja: nenhuma ferramenta dispensa o olhar do profissional.

Eu também precisei me adaptar ao perfil de cada instituição e de cada aluno. O treinamento era quase sob medida. Além disso, a cada mês, as aulas precisavam ser refeitas, porque a IA está evoluindo muito mais rapidamente do que a capacitação. O que eu ensinei em junho já está defasado, e esta é a realidade de quem ensina e de quem aprende sobre inteligência artificial.

A Europa dá um passo atrás

A Europa já tinha percebido o problema. O AI Act, Regulamento (UE) 2024/1689, criou no artigo 4º um dever de literacia em IA: quem fornece e quem utiliza esses sistemas deve garantir formação suficiente às pessoas encarregadas de operá-los.

A regra passou a valer em fevereiro de 2025. Em julho deste ano, porém, a Europa recuou. o Digital Omnibus, Regulamento (UE) 2026/1744, reescreveu esse artigo. Onde se lia “garantir um nível suficiente” de formação, passou a ler-se “adotar medidas para apoiar o desenvolvimento” dela, com a ressalva expressa de que não se exige garantir nível algum a nenhum profissional específico.

A obrigação continua existindo, mas perdeu a exigência de resultado. E é exatamente aí que a decisão sai da lei e volta para as instituições. São elas quem estão decidindo. As mesmas entidades que me chamaram no primeiro semestre pediram continuidade, com a adição de um curso de nível intermediário. Ao mesmo tempo, a EUNCET Business School, em Barcelona, me convidou para dar aula no novo MBA em Gestão de Tecnologia e Inteligência Artificial Aplicada, que começa em outubro.

Penso muito no aluno que abriu a primeira aula dizendo que tinha medo. Ele estava mais preparado que o advogado das Ilhas Canárias, pois sabia que não sabia. É por isso que treinamento não é dominar a ferramenta. Em seis meses, ou menos, ela terá mudado. O crucial é construir a base com critério e melhorar dia a dia. A inteligência artificial não vai eliminar o seu trabalho, mas a falta de critério, sim.

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui

Quem publicou esta coluna

Marcelli D’Andrea

Atua em Business Intelligence e educação executiva em inteligência artificial aplicada, com foco em marketing e consumer insights. Viveu 15 anos em Londres, onde trabalhou na News UK, TikTok e Brandwatch. Em Barcelona, ensina IA aplicada a advogados, juízes e economistas e dá aula no MBA em IA da EUNCET Business School.

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