O tradutor “fiel”

Coluna

Educação

Tradução

10 de abril de 2025

O tradutor “fiel”

Dependência do contexto e da situação tornam a fidelidade da tradução uma causa perdida

A fidelidade do tradutor é e sempre será uma causa perdida e sem reparação. Apesar de essa frase soar bruta, ela exprime a mais pura realidade. Nenhum tradutor que se preze — profissional e financeiramente — irá fazer uma tradução palavra por palavra e ao pé da letra, pois a tradução é dependente do contexto e da situação do texto-fonte (original) e do texto-alvo (traduzido). Com isso, cria-se a necessidade da localização e da adaptação cultural como estratégias tradutórias, sem as quais o resultado pode ser a perda das nuances culturais e linguísticas, prejudicando a compreensão por parte do público-alvo e a propagação do conteúdo.

É comum ouvir que qualquer pessoa bilingue pode atuar como tradutor. Além de essa sugestão desvalidar anos de estudo e prática de um profissional da área, a realidade não poderia estar mais longe disso, porque saber um idioma não faz da pessoa um tradutor, e sim um detentor de conhecimento.

Traduzir exige um aglomerado de habilidades e conhecimentos específicos que vão além do domínio dos dois idiomas. O papel do tradutor é avaliar a necessidade de compreensão e acessibilidade do público-alvo, e seguir os conhecimentos da língua, que não se limitam aos fatores linguísticos — compreensão cultural e técnica e habilidades de escrita e/ou fala —, levando também em consideração pontos como localização, adaptação de personagens, fatores humorísticos, naturalidade de diálogos e fatores culturais. Sendo que esses últimos, muitas das vezes, não se substituem igualmente entre o original e o traduzido.

O problema principal permanece sob o fato de que, na linguagem, tudo é culturalmente produzido, inclusive ela mesma. Para Nord (1997), o tradutor atua como uma ponte de comunicação entre a cultura-fonte e a cultura-alvo, transferindo essa comunicação a partir do seu conhecimento prévio e sendo responsável por definir qual é o escopo. A interpretação, por sua vez, depende fortemente da experiência pessoal e conhecimento de mundo do tradutor.

Como exemplo, podemos pegar o reality show “Chegou a Honey Boo Boo”, da rede TLC, que traz a realidade de uma família do interior da Georgia, nos Estados Unidos. Na versão dublada, Francisco Brêtas, responsável pela tradução e dublagem de um dos personagens principais, optou por se orientar pelo sotaque caipira mineiro para a adaptação da obra. Quando questionado sobre a escolha, o dublador afirmou que a própria produção do reality queria manter a essência caipira da família e que, para que isso ocorresse, ele optou pelo apoio daquilo que já domina desde a infância: ser mineiro.

A tradução muitas vezes é um desafio, pois é necessário considerar as especificidades de cada língua e o processo de tradução, principalmente quando tratamos da delicadeza da área audiovisual. É necessário, também, considerar as circunstâncias em que o texto-alvo foi criado, que podem diferir das do texto-fonte. Por isso, o profissional da tradução há de priorizar o “para que” frente ao “como”, fazendo o objetivo prevalecer sobre como ele é alcançado.

Para Bezerra (2012), os processos de recodificação interlingual não podem ser explicados se forem isolados de todo o conjunto de relações entre língua-fonte e língua-alvo. É necessário avaliar a singularidade dos múltiplos modos de linguagem e cultura. A tradução há de se basear em fatores extralinguísticos, simbolizando uma transição no paradigma do processo tradutório.

Abrasileirar vs americanizar

É importante entender que a tradução e as relações interculturais funcionam de maneira dinâmica, a partir da premissa de que dois elementos não mantêm a mesma relação durante um período de tempo considerável. Nesse enredo, a tradução e dublagem do Brasil se destacam positivamente no contexto mundial, por priorizar o método de “abrasileirar” as obras, aproximando o público brasileiro da obra original de forma suave e natural.

Uma tradução “bem-feita” ressoa e repercute com o público, perpetuando-se de diferentes maneiras. Abaixo trago alguns exemplos dentro de filmes e livros em que a tradução atuou de maneira assertiva na conquista do público-alvo e na propagação da obra no Brasil, impactando o produtor financeiramente, e a audiência, afetivamente.

O primeiro é o filme “Shrek 2”: em uma das cenas, o personagem Burro está passando por um arbusto relativamente grande ao lado de seu companheiro, Shrek. No original, Burro se expressa dizendo “There’s a bush that shaped like Shirley Bassey” (tem esse arbusto que é igual à Shirley Bassey). O erro de concordância gramatical no inglês é proposital e traz uma naturalidade para a fala do personagem, e a menção à cantora Shiley Bassey imprime um tom humorístico na cena.

O tradutor tinha a opção de manter o nome da cantora na versão em português, principalmente em razão de ela ter ganhado evidência na indústria musical na segunda metade do século XX — dando voz às trilhas sonoras da franquia James Bond. Porém, para aproximar o público brasileiro da obra, a tradução foi finalizada como “E esse arbusto aqui que é a cara da Fafá de Belém”, o que fez com que o fator humorístico fosse aplicado com maestria. Por isso, a cena se mantém icônica e é constantemente relembrada, mesmo depois de 20 anos desde a estreia do filme.

O segundo exemplo é alocado dentro do contexto financeiro, onde a tradução superou o impacto da obra original e foi adotada como a “melhor versão” pelo público lusófono – evento raro dentro da comunidade literária brasileira. Em 2014, segundo uma notícia publicada por Marcelo Hessel (crítico e jornalista) no portal Omelete, o Brasil arrecadou cerca de US$ 41,5 milhões logo após a estreia do filme “Amanhecer – Parte 2” (da saga adolescente de livros e filmes “Crepúsculo”), que foi visto por mais de 1 milhão de espectadores no dia de lançamento.

Esses números se originaram a partir do consumo prévio dos livros traduzidos, que, segundo as opiniões dos participantes das discussões em plataformas on-line como Reddit, transmitiram uma profundidade maior aos personagens e localizaram a linguagem de acordo com a idade correspondente de cada um, apesar de a obra ser “americanizada” em todos os aspectos: costumes, cidades e nomes. Esse sucesso posicionou o Brasil como o terceiro mercado do filme no mundo apenas duas semanas após sua estreia nas telonas.

Ao contrário do que parece, a maioria das mudanças feitas na tradução costumam ser tão suaves que o expectador não tem tempo de assimilar que está consumindo uma tradução.

O terceiro e último exemplo é retirado da obra mencionada no início do texto, o reality show “Chegou a Honey Boo Boo”, da emissora TLC, televisionado em 2012. A obra conta com diversas estratégias de tradução que não cabem aqui, mas há uma cena em que o tradutor foi perspicaz ao fazer a escolha final. A família está comprando abóboras para a chegada do Halloween quando a personagem principal, Alana, avista uma abóbora grande e pede à sua mãe para comprá-la. A mãe, June, preocupada com o possível valor, exclama: “That pumpkin probably costs fifty dollars” (aquela abóbora provavelmente custa 50 dólares).

A fala não requeria, necessariamente, um processo de localização muito específico, pois o show cita constantemente a rotina e os costumes das famílias no interior da Georgia, mas o tradutor optou por adaptar o original para “Deve custar 50 pila”. A simples troca de “dólares” para “pila” trouxe uma nova avaliação à cena em tela, o que posicionou o público como pertencente, mesmo sem a presença da palavra “reais” na tradução.

Globalização e itens culturais

Segundo Aixelá (1996), a assimetria cultural entre duas comunidades linguísticas reflete-se inevitavelmente nos discursos de seus membros. Quando analisada em perspectiva, diante de uma ampla gama de elementos culturais capazes de desafiar ou questionar as concepções de vida de um grupo, a tradução desempenha um papel fundamental ao oferecer ao público-alvo diversas estratégias de mediação. Essas estratégias variam desde a conservação, que mantém a alteridade ao reproduzir os sinais culturais presentes no texto de origem, até a naturalização, que adapta esses sinais à cultura de chegada, tornando o outro uma representação cultural familiar. A escolha entre essas abordagens, em conjunto com outros fatores, evidencia tanto o grau de tolerância do público-alvo quanto a sua disposição para a solidariedade intercultural.

Há também, dentro do contexto de globalização e adoção da língua inglesa como o novo esperanto, uma grande tendência de americanizar a narrativa, principalmente nas séries, para facilitar a comercialização nos Estados Unidos. Esse processo de “americanização” de textos e sinais culturais prejudicou mundialmente a propagação das obras de raízes culturais.

No enredo do processo tradutório de textos de séries e filmes, a estrangeirização tende a ser mais presente, enquanto para textos literários, a domesticação da tradução tem mais liberdade de ser explorada, por não depender necessariamente de áreas mais arbitrárias de cada sistema linguístico, como ruas, figuras histórias ou nomes de lugares — a expressão “arbitrárias”, nesse caso, significa que não há uma relação lógica ou natural entre a palavra e o objeto que ela representa. A presença de trechos que exigem explicação devido a diferenças interculturais leva o tradutor a precisar expandir sua visão.

Estratégias

Para Gambier (2009), as estratégias de tradução dependem da cultura, da língua e de como elas podem ser adaptadas nas obras traduzidas. O autor define a tradução como um “complexo ato linguístico-cultural de comunicação, recontextualizando a mensagem dentro de outro contexto” e, frente aos diversos itens culturais específicos (CSIs) que precisam ser tratados, é comum tradutores utilizarem estratégias diferentes dentro do mesmo texto. O tradutor pode também, segundo a teoria funcionalista, resolver os desafios tradutórios se baseando na função do texto-alvo, não havendo mais a necessidade de retornar ao texto-fonte com muita frequência.

Não há, necessariamente, uma maneira correta ou errada de realizar uma tradução. Apesar da existência de diversas estratégias e formas de percorrer o processo tradutório, a recodificação cultural fica disponibilizada a partir do próprio conhecimento de mundo do tradutor e de sua visão (às vezes a do seu cliente também).

A atuação do tradutor, portanto, vai além da simples transposição linguística, configurando-se como um exercício constante de mediação cultural e de tomada de decisão estratégica. Em um cenário de crescente globalização, no qual as trocas culturais ocorrem de maneira acelerada e dinâmica, a formação profissional do tradutor se torna essencial para que ele possa lidar com a complexidade dos discursos e a diversidade dos elementos culturais presentes nos textos.

A competência tradutória não se restringe ao domínio das línguas de partida e chegada, mas envolve também uma compreensão profunda das nuances culturais, dos efeitos pragmáticos do discurso e das expectativas do público-alvo. Assim, para que o tradutor possa exercer seu papel como ponte entre culturas de forma eficaz e ética, é necessário um olhar atento às transformações socioculturais que moldam as relações globais.

A tradução segue sendo uma obra viva que, no mundo contemporâneo, há de deixar de ser conhecida como um simples processo resultante da globalização para passar a ser encarada como seu ponto inicial.

Este conteúdo foi produzido por:

Isabela Talita Segredo

LinkedIn

Gerente de projetos e tradutora na Skylar, onde desempenha sua função em demandas relacionadas à frente Skylar Business. Trabalhou como professora de língua inglesa por quatro anos antes de migrar para o campo da tradução e legendagem. Seu foco de pesquisa e interesse está na Tradução Audiovisual, com especial destaque para a dublagem e a transposição cultural em aspectos extralinguísticos.

Quem publicou esta coluna

Skylar

"Startup" de tecnologia e legendagem que faz parte das iniciativas do Pecege, utiliza inteligência artificial e técnicas linguísticas para fazer legendagem em tempo real. Atuante nas áreas de educação, eventos, agronegócio, tecnologia, saúde, entretenimento e esportes, entre outras. Acesse o site!

Você também pode gostar

Mba Executivo Em Liderança E Gestão

04 de novembro de 2026

Financiamento Sustentável no Agronegócio: o Desafio de Escalar o CRA CRF no Cerrado

O presente Business Case analisou a oportunidade de expansão de operações de financiamento sustentável no agronegócio por meio de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) vinculados ao modelo Responsible Commodities Facility (RCF). O objetivo consistiu em avaliar como o CRA RCF poderia superar limitações operacionais, integrando monitoramento satelital, auditorias externas, critérios técnicos de elegibilidade e métricas verificáveis, preservando a viabilidade econômica do financiamento. Para isso, mapearam-se os fatores causais que limitavam a expansão do programa, utilizando um diagrama de Ishikawa. Avaliaram-se três alternativas estratégicas, e uma matriz de decisão indicou a mais aderente. A metodologia de avaliação baseou-se na coleta periódica de dados operacionais, financeiros e socioambientais, comparando-os com uma linha de base existente. A análise identificou que a escalabilidade do programa era restringida por desafios de governança de dados, monitoramento territorial e processos de elegibilidade. Como resultado, recomendou-se a implementação de um framework operacional integrado, focado na padronização de critérios socioambientais, integração de bases geoespaciais, monitoramento contínuo e aprimoramento do reporte de impacto. A solução proposta demonstrou ser a alternativa mais adequada para promover o crescimento sustentável do programa, com expectativa de ampliar o volume financiado, reduzir custos operacionais, expandir a área monitorada sob critérios de produção livre de conversão e fortalecer a credibilidade institucional, contribuindo para um mercado financeiro agrícola mais sustentável.

Palavras-chave: Agronegócio; Cerrado; CRA RCF; ESG; Financiamento sustentável.

Mba Executivo Em Liderança E Gestão

04 de novembro de 2026

Gestão de Ativos de Aterramento e SPDA: Estruturação de Modelo Aplicado à Mineração

Uma mina de cobre em Marabá (PA) operava sem um processo formal de gestão para os sistemas de aterramento e SPDA, o que gerou um passivo de não conformidades e ameaçou a certificação ISO 14001, essencial para a receita. O trabalho objetivou estruturar um modelo formal de gestão para esses ativos, capaz de atacar as causas reais do problema. Para isso, aplicou-se o Diagrama de Ishikawa para identificar as causas estruturais das não conformidades, distribuindo-as em categorias como métodos e materiais. Em seguida, utilizou-se a Matriz GUT para priorizar as causas mais críticas, como a ausência de procedimento de gestão e de plano de inspeção. Cinco alternativas de solução foram avaliadas por uma matriz de decisão multicritério e um estudo de viabilidade. A alternativa de gestão interna estruturada e faseada até 2030 (Alternativa 5) foi a recomendada, obtendo a maior pontuação (122 pontos), com o modelo híbrido servindo de apoio pontual para expertise externa em fases críticas. O plano de implementação previu cinco fases até 2030, incluindo mapeamento e saneamento documental, adequação técnica prioritária, consolidação e expansão do modelo, e maturidade. A meta principal foi alcançar 100% das edificações mapeadas e adequadas, e eliminar apontamentos em auditorias ISO 14001. Concluiu-se que o modelo proposto transformou a gestão reativa em um processo proativo, com responsabilidades definidas e indicadores de desempenho, garantindo a conformidade normativa, a previsibilidade técnica e a continuidade operacional da planta.

Palavras-chave: Aterramento; Gestão de ativos; ISO 14001; Mineração; SPDA.

Mba Executivo Em Liderança E Gestão

04 de novembro de 2026

Viabilidade Econômica da Comercialização de Co2 Liquefeito em Biorrefinarias de Etanol de Milho no Brasil

A busca global pela descarbonização intensificou o interesse no aproveitamento de CO2 biogênico, especialmente de biorrefinarias de etanol de milho, que geram CO2 concentrado e ainda pouco valorizado. Este Business Case avaliou a viabilidade econômico-financeira da produção e comercialização de CO2 liquefeito por meio da implantação de uma unidade de captura, purificação e liquefação em uma biorrefinaria de etanol de milho no Brasil. O estudo considerou uma capacidade nominal de 150 t/dia, analisando o mercado potencial, o investimento necessário, os custos operacionais e os resultados econômicos, utilizando indicadores como Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR) e payback descontado. O projeto exigiu investimento estimado de R$ 93,4 milhões e produziu potencialmente 49.875 t/ano de CO2 liquefeito. Nas premissas adotadas, apresentou VPL de R$ 22,1 milhões, TIR de 19,5% ao ano, payback descontado de 10,5 anos e preço de equilíbrio de R$ 727/t. A análise de mercado indicou dimensão compatível com a produção proposta, mas evidenciou a necessidade de validação regional da demanda e de contratação antecipada de parcela relevante da capacidade. Concluiu-se que o projeto era economicamente viável, com margem de 19,2% antes de o VPL atingir zero, porém sua atratividade dependia da confirmação do preço líquido de venda, do investimento e do consumo de energia. Recomendou-se avançar para validação comercial e engenharia básica, condicionando-se a decisão final de investimento à confirmação dessas variáveis, aproveitando a continuidade operacional das biorrefinarias de milho para transformar o CO2 de fermentação em produto comercial.

Palavras-chave: Biorrefinaria; CO2 liquefeito; Etanol de milho; Viabilidade econômica.

27 de outubro de 2026

Eficácia da política monetária do Banco Central Brasileiro e seus possíveis custos sociais (1999-2024)

A condução da política monetária no Brasil, particularmente sob o regime de metas de inflação, tem sido amplamente debatida em razão de seus possíveis impactos sobre a inflação e a atividade econômica. O estudo objetivou avaliar a eficácia da política monetária brasileira, conduzida pela taxa Selic, no controle da inflação, e investigar seus possíveis custos sociais no período de 1999 a 2024. Para isso, utilizaram-se dados trimestrais de Produto Interno Bruto (PIB), Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), taxa Selic e câmbio, extraídos do Banco Central do Brasil. A metodologia empregou um modelo Vetorial de Correção de Erros (VECM), precedido por testes de estacionariedade e cointegração, e complementado por análises de Função de Resposta ao Impulso e Decomposição da Variância. Os resultados indicaram que a inflação apresentou forte componente inercial, sendo predominantemente explicada por sua própria dinâmica, enquanto os choques na taxa de juros e no câmbio demonstraram impacto estatisticamente limitado sobre o IPCA. Adicionalmente, verificou-se que o PIB não respondeu de forma significativa a variações na Selic, sugerindo baixa sensibilidade da atividade econômica à política monetária no período analisado. Em síntese, concluiu-se que a política monetária demonstrou eficácia limitada no controle da inflação, sem, contudo, gerar custos sociais diretos e significativos sobre o Produto Interno Bruto, que atua como principal motor da geração de emprego.

Palavras-chave: Cointegração; Econometria; Inércia inflacionária; Metas de inflação; Produto Interno Bruto.

27 de outubro de 2026

Eficiência financeira e mitigação de riscos em departamentos jurídicos

A pesquisa investigou como mecanismos de governança e controles internos, aplicados a práticas de “Legal Operations”, podem fortalecer a gestão financeira e a previsibilidade orçamentária de um departamento jurídico em uma empresa multinacional. O estudo objetivou diagnosticar pontos críticos do ciclo orçamentário jurídico, desde a previsão ao pagamento, e identificar melhorias de processos, indicadores e responsabilidades entre os setores jurídico e financeiro. Para tanto, realizou-se uma pesquisa aplicada de natureza qualitativa, configurada como estudo de caso. A coleta de dados incluiu entrevistas com profissionais das áreas jurídica e financeira, análise documental de planilhas de custos (2022-2024) e políticas de compliance, além de mapeamento do fluxo de despesas jurídicas. Os resultados revelaram fragilidades na coordenação interdepartamental, notadamente na definição de centros de custo e na utilização de instrumentos de controle orçamentário. Observaram-se lacunas no acompanhamento de processos e na integração de informações de escritórios externos, além de oportunidades para automação de rotinas e aprimoramento de indicadores gerenciais. A previsibilidade orçamentária mostrou-se impactada por fatores exógenos, como a dinâmica do Poder Judiciário, e endógenos, como a qualidade da informação e a governança do ciclo orçamentário. Concluiu-se que a previsibilidade orçamentária depende da maturidade da governança aplicada aos processos, dados e rotinas operacionais. Propôs-se um modelo de governança e controle para o orçamento jurídico, com foco na padronização de processos, fortalecimento do acompanhamento e melhoria da tomada de decisão, incluindo mapeamento de processos, matriz de riscos e controles, e indicadores de desempenho.

Palavras-chave: Automação; Controles internos; Governança corporativa; Legal Operations; Previsibilidade orçamentária.

27 de outubro de 2026

Comparação de modelos de risco de pré-pagamento em carteiras de crédito pré-fixado

O risco de liquidação antecipada em carteiras de crédito pré-fixadas constituiu um desafio relevante para a Gestão de Ativos e Passivos (ALM) em instituições financeiras, por gerar assimetrias de fluxo de caixa e ineficiências em estratégias de hedge. O trabalho teve como objetivo avaliar comparativamente o desempenho preditivo de modelos econométricos e estatísticos tradicionais frente a algoritmos de aprendizado de máquina na estimativa da Taxa de Mortalidade Mensal (SMM). Para isso, utilizou-se uma base de dados real de operações de crédito originadas entre 2016 e 2025, totalizando aproximadamente 500 milhões de observações. Avaliou-se modelos como CPR Histórico, Regressão Beta, Regressão Quantílica, Regressão Logística, Riscos Proporcionais de Cox e LightGBM, com a performance mensurada pelo Erro Absoluto Médio (MAE) e validada por meio de validação cruzada temporal com janela expandida. Os resultados demonstraram a superioridade das abordagens não lineares, com o modelo LightGBM apresentando a melhor performance no período de teste (jan/2024 a jul/2025), reduzindo o MAE em 34,21% em relação ao benchmark histórico. Adicionalmente, técnicas de interpretabilidade baseadas em valores SHAP e análise de sobrevivência foram empregadas para identificar o spread da taxa de contrato, a taxa de mercado e a idade do título como os principais determinantes econômicos da antecipação. A aplicação do modelo proposto aprimorou a precisão das estimativas de fluxo de caixa e ofereceu evidências favoráveis ao aperfeiçoamento do cálculo da duration efetiva e do dimensionamento do colchão de liquidez institucional, sugerindo que modelos mais flexíveis podem otimizar a gestão de ALM.

Palavras-chave: Aprendizado de máquina; Gestão de ALM; Hedge; Modelagem financeira; Risco de juros.

27 de outubro de 2026

Arquitetura imperativa vs. reativa: impacto na depuração e correção de erros no desenvolvimento mobile iOS

O desenvolvimento de aplicações mobile iOS pode ser conduzido sob arquiteturas imperativa e reativa, impactando diretamente as práticas de depuração e manutenção. Objetivou-se estabelecer o impacto da escolha arquitetural na depuração e correção de erros em aplicações iOS, avaliando a detectabilidade automática de falhas, a rastreabilidade dos relatórios e a utilidade dos logs. Conduziu-se uma pesquisa experimental, na qual se desenvolveram duas aplicações nativas funcionalmente equivalentes com UIKit (imperativa) e SwiftUI/Combine (reativa). Inseriram-se quatro cenários de erro controlados, classificados em crashes explícitos e erros silenciosos. Coletaram-se dados com Firebase Crashlytics e Xcode Debugger em quarenta sessões, e estes foram analisados por estatística descritiva e análise de conteúdo. Os resultados revelaram que, para inconsistências de estado, a arquitetura UIKit gerou crash imediato e relatório automático, enquanto SwiftUI suprimiu o crash e produziu aviso silencioso invisível a ferramentas automáticas. Para desempacotamento forçado, a arquitetura mostrou-se irrelevante. Em cenários silenciosos, nenhuma arquitetura ofereceu observabilidade automática, o que evidenciou limitações das ferramentas. Concluiu-se que a arquitetura reativa, ao abstrair mecanismos de controle de estado, reduziu erros explícitos, mas introduziu falhas silenciosas com menor rastreabilidade. A decisão arquitetural deve considerar as implicações para o monitoramento em produção, exigindo instrumentação manual de logs em projetos SwiftUI/Combine para erros que seriam automaticamente capturados no UIKit.

Palavras-chave: Combine; Manutenibilidade; Observabilidade; SwiftUI; UIKit.

27 de outubro de 2026

CRM NA RETENÇÃO DE DADOS PARA ANÁLISE DE POTENCIAL DO CLIENTE NO SETOR B2B SAÚDE

A gestão comercial no setor B2B saúde enfrentou desafios constantes, exigindo visão estratégica e atenção aguçada para a entrega de resultados. Investigou-se como a implantação do sistema CRM (Customer Relationship Management) colaborou para mitigar a perda de informações históricas e potencializar a retenção de clientes frente ao custo de vender. Adotou-se uma abordagem qualitativa-quantitativa, de caráter exploratório-descritivo, e os dados foram coletados por meio de questionário respondido por 42 profissionais da área comercial, inseridos na indústria ou em empresas do segmento saúde. Os resultados revelaram que, embora 71,4% dos entrevistados utilizassem CRM informatizado, a cultura organizacional impôs forte resistência, confirmada por 57,1% dos profissionais que dependiam de métodos manuais, como agendas e planilhas isoladas, para registro e retenção dos dados. Evidenciou-se também uma lacuna na capacitação, visto que 24,4% dos entrevistados raramente ou nunca receberam treinamentos específicos. A pesquisa inferiu que a subnotificação de dados não decorreu apenas da falta de tecnologia ou por falha tecnológica, mas pela existência de uma deficiência na gestão estratégica de pessoas e processos. Reforçou-se a visão da necessidade de uma gestão integrada para gerar inteligência competitiva e previsibilidade nas vendas, e alertou-se para a necessidade de treinamentos e capacitação mais frequentes. A mitigação do custo de vender e a potencialização da retenção de clientes dependem da integração consistente entre capital humano e tecnologia, gerando ativos gerenciais para aumentar a produção comercial e a retenção de dados estratégicos.

Palavras-chave: Capacitação; Estratégia de vendas; Gestão de clientes; Gestão estratégica; Inteligência comercial.

27 de outubro de 2026

Avaliação da aplicação do Scrum na melhoria da eficiência e adaptabilidade em projetos de tecnologia

A crescente complexidade dos projetos de tecnologia exigiu abordagens capazes de equilibrar controle, eficiência e adaptabilidade a mudanças constantes, visto que modelos tradicionais de gerenciamento apresentaram limitações em ambientes dinâmicos. Avaliou-se o gerenciamento de projetos de tecnologia antes da implementação de um método ágil, propôs-se melhorias baseadas em práticas iterativas e reavaliou-se o desempenho pós-implementação, buscando identificar ganhos em eficiência operacional e adaptabilidade ao longo do ciclo de vida do projeto. A pesquisa empregou um estudo de caso descritivo, de abordagem qualitativa, em duas empresas do setor de tecnologia. Coletaram-se dados por meio de formulários estruturados aplicados antes e após a intervenção, complementados por análise documental e observação sistemática ao longo de noventa dias de aplicação da solução. Os resultados evidenciaram melhoria consistente na flexibilidade do planejamento, maior alinhamento com as necessidades do cliente, aumento da previsibilidade das entregas e aprimoramento da produtividade das equipes. Um ganho de produtividade foi o indicador mais expressivo, com 85,7% de concordância total sobre a melhoria do desempenho das equipes após a adoção do *framework*. Concluiu-se que a implementação estruturada do método aprimorou o gerenciamento dos projetos analisados, reforçando a capacidade de resposta a mudanças e promovendo maior geração de valor ao negócio.

Palavras-chave: Adaptação organizacional; Entrega incremental; Gestão ágil; Planejamento iterativo; Produtividade de equipes.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade