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“Projeto do MBA foi uma das melhores escolhas que eu fiz”

Educação

26 de fevereiro de 2026

“Projeto do MBA foi uma das melhores escolhas que eu fiz”

Grande parte das pessoas que decidem cursar um MBA (Master of Business Administration) têm em mente a ideia de aprimorar sua atividade profissional, seja com uma promoção ou mesmo a abertura de um negócio próprio. Mas será que enxergam a possibilidade de transformar um estudo de viabilidade em uma operação sólida e inovadora?

Foi o que aconteceu com Lucas Camolese, diretor administrativo da Cerealista Fazenda Canaã, empresa familiar do interior de São Paulo. Nesta entrevista, ele conta como foi possível converter uma análise acadêmica em decisões estratégicas reais, que resultaram na implantação de uma unidade de beneficiamento de sementes (UBS) de amendoim na propriedade.

Segundo ele, o empreendimento foi todo planejado e dimensionado no TCC (trabalho de conclusão de curso) da especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq, incluindo layout físico, fluxos operacionais, capacidade produtiva, escolha de equipamentos, controle de qualidade e atendimento às exigências do Ministério da Agricultura.

A unidade funciona hoje como um complexo integrado de recebimento, limpeza, secagem, beneficiamento e armazenamento de sementes. O armazém tem capacidade para cerca de 6.250 toneladas de amendoim em casca; o sistema de limpeza, para aproximadamente 25 toneladas por hora, enquanto a secagem pode atingir 100 toneladas por dia. Com isso, a UBS tem capacidade de beneficiamento de 5 toneladas por hora. Toda essa estrutura dá suporte para a atividade de produção de sementes certificadas de amendoim, a qual ajudou a empresa a registrar um crescimento de mais de 350% nos últimos anos. Conheça essa experiência lendo a entrevista abaixo.


Nesta seção, a Revista E&S dá voz a quem fez o aprendizado do MBA USP/Esalq virar resultado
Aqui você vai conhecer histórias reais de ex-alunos que aproveitaram ao máximo a experiência do curso, aplicaram os conhecimentos no mercado e transformaram o que aprenderam em ativos para seus negócios e suas decisões profissionais.

Revista E&S Como foi sua trajetória profissional antes do MBA USP/Esalq?

Lucas Camolese – Eu me formei em relações internacionais pela FAAP em São Paulo. Trabalhei em multinacionais na faculdade e depois de me formar. Em seguida abri uma franquia em um shopping comercial. Em 2017, resolvi vender a loja e comecei a trabalhar aqui na fazenda. Tive uma experiência no corporativo, em multinacional, tive um negócio próprio, e então decidi trabalhar com meu pai, ajudar aqui. Eu trouxe muitos insights do mercado para a fazenda. Como meu pai é formado pela Esalq, decidi fazer o MBA da USP/Esalq. Foi excelente, foi um ambiente em que aprendi muita coisa. Pude também fazer um TCC voltado a uma coisa que eu estava querendo implementar aqui na fazenda: agregar valor no amendoim comercial [bruto, sem beneficiamento], que a gente já comercializava. Nessa mesma época surgiu a parceria com a Embrapa, e fechamos um acordo para desenvolver novas cultivares de amendoim, com melhoramento genético.

Revista E&S Como é a estrutura da Fazenda Canaã?

Lucas Camolese – Ela deixou de ser somente uma fazenda de soja, milho, trigo, sorgo e amendoim para virar uma indústria. E a gente beneficia tanto soja, sorgo, trigo, como também o amendoim. A indústria de amendoim hoje é a nossa principal operação, porque a gente vende a semente, que tem muito valor agregado.

Revista E&S O que era diferente antes de você fazer o MBA?

Lucas Camolese – Quando cheguei [para trabalhar na fazenda], em 2017, não tínhamos silo, não havia nenhuma indústria. A gente implantou o silo para beneficiamento de soja, trigo e sorgo. Em 2020, quando entrei no MBA, a gente já produzia também amendoim comercial. Por isso, decidi adotar como tema do TCC um projeto sobre como agregar valor na produção de amendoim comercial. O MBA me ajudou a formalizar a ideia, o plano de negócio para implementar uma UBS (unidade de beneficiamento de sementes) na operação.

Revista E&S Então você decidiu fazer o MBA para ajudar o seu pai?

Lucas Camolese – Sim, exato. Eu já estava aqui [na fazenda] havia três anos, implementando coisas, organizando, fazendo várias frentes. Em 2020 decidi fazer um MBA em agronegócios, porque queria entender melhor a parte agronômica da atividade; na parte administrativa eu já tinha o background.

Revista E&S Quais eram suas expectativas iniciais sobre o curso? Elas foram atingidas?

Lucas Camolese – Minha expectativa era pegar o máximo de conhecimento possível na agricultura. Atingi o objetivo. Desde o começo eu queria já ir moldando o tema, porque tinha o plano de implementar a UBS. Casou tudo, foi um laboratório de estudo. Fiz o TCC já pensando em realmente implementar aqui dentro. Foi espetacular.

Revista E&S Qual foi o conhecimento que mais te ajudou?

Lucas Camolese – Criei três cenários, o otimista, o pessimista e o padrão, e consegui estudar qual seria a minha margem de preço para ter lucratividade. Eu diria que, talvez, se eu não tivesse feito o TCC, não teria ido a fundo tanto na parte teórica como na prática, e realmente entrado no assunto. Eu não teria talvez a base que eu tive para iniciar a atividade com segurança.

Revista E&S Quais foram os principais desafios técnicos, econômicos e operacionais que você enfrentou nessa fase?

Lucas Camolese – Foi a captação de recursos, porque a gente depende do BNDES, das linhas de crédito. Foi bem difícil, burocrático, mas conseguimos. Também a parte técnica, industrial, porque eu nunca tinha beneficiado; então eu tive que visitar várias indústrias para entender como funcionava, para conseguir chegar na melhor planta de indústria possível. E a parte de recursos humanos também, capacitar o pessoal para trabalhar na indústria, porque não estamos numa região de amendoim, não tem muitos profissionais nesse ramo.

Revista E&S Por que o seu foco foi o amendoim?

Lucas Camolese – Porque eu tinha vários amigos que plantavam. Fiz um teste de 50 hectares só de amendoim em 2018, 2019, e vi que tinha muito potencial. Aí já comecei a investir em máquinas e plantar amendoim comercial. Depois que a gente começou a plantar aqui, chamamos vizinhos e produtores e, hoje, já existem uns 10 ou 12 produtores plantando amendoim na região. Para nós é interessante, porque a gente vende a semente. E para eles, é altamente rentável.

Revista E&S De que forma as disciplinas do MBA contribuíram diretamente para a estruturação do projeto?

Lucas Camolese – Todas as aulas de gestão ajudaram muito.

Revista E&S Ajudaram a estruturar o projeto?

Lucas Camolese – Sim, e a disciplina de TCC também, junto com a orientação. Eu tinha que sentar e fazer o trabalho, agregou muito para implementar a operação também.

Revista E&S Qual foi o papel da orientação acadêmica?

Lucas Camolese – Eu acho que os encontros [com o orientador] foram importantes, porque a gente ia alinhando os pensamentos ao plano de negócio. E foi implementado, está aí, uma prova concreta do que a gente escreveu no papel. É bem legal ver isso daí.

Revista E&S Em que momento você percebeu que o TCC tinha potencial de se tornar um negócio?

Lucas Camolese – Foi na fase de finalização da planilha e da parte teórica escrita, inclusive já estava fazendo orçamentos.

Revista E&S Como foi a transição do projeto acadêmico para a execução prática? Precisou de adaptação?

Lucas Camolese – Sim, com certeza. Eu me lembro de ter colocado uma previsão de gasto com maquinário. Às vezes fugia um pouquinho, às vezes era um valor maior ou outro menor. [Isso aconteceu ] mais na parte industrial e dos maquinários para plantio.

Revista E&S Que aspectos do planejamento do TCC foram decisivos para a implantação bem-sucedida da unidade?

Lucas Camolese – A parte dos cenários. Consegui prever meu payback. Os primeiros anos foram ótimos, foi aquele cenário otimista. Agora já está um cenário mais pessimista, é sazonal. Criar esses cenários dentro do TCC me ajudou muito, porque eu consegui ter uma previsibilidade.

Revista E&S Quais os diferenciais da UBS da Fazenda Canaã?

Lucas Camolese – O principal diferencial é a qualidade da semente. São poucas as empresas que têm câmara fria hoje, e nós temos. Guardamos a semente pelo período em que ela estiver aqui, conservando germinação e vigor da semente. Outro diferencial são duas máquinas eletrônicas que a gente tem, importadas da China, com inteligência artificial. Elas “leem” o amendoim e fazem a seleção conforme o padrão que a gente pede para elas. São duas máquinas extremamente tecnológicas, que fazem o pente fino na saída da semente, o que é extremamente necessário para você ter qualidade.

Revista E&S Qual a importância da parceria com a Embrapa para o posicionamento da empresa no mercado?

Lucas Camolese – A Embrapa é extremamente importante, porque traz conhecimento técnico em relação à semente, eles desenvolvem novas cultivares. Temos campos de teste com 15 variedades de amendoim. Eles vão fazendo cruzamentos e mandando para mim essas variedades. Eu monto um campo de experimento aqui, planto todas as variedades em pequena quantidade e vejo qual se desenvolve melhor na região. Todo ano a gente tem esses campos aqui, e os técnicos da Embrapa avaliam. E tudo isso faz parte de um estudo que está lá na Embrapa. Eles vão identificando as melhores, e depois lançam no mercado. Eu sou uma das pessoas que vão lançar no mercado e vender.

Revista E&S A sua contrapartida é poder vender as variedades que resultam dessa pesquisa?

Lucas Camolese – Exatamente. Com essa parceria eu posso vender e ao mesmo tempo incentivo o programa de melhoria da cultura do amendoim.

Revista E&S De onde vem a certificação das suas sementes e como ela impacta a rentabilidade?

Lucas Camolese – Temos uma certificadora homologada no Ministério da Agricultura, a Pró-Sementes. Quando criamos os lotes, eles vêm aqui, tiram as amostras e levam para o laboratório. Toda semente tem um certificado de germinação. Se não tiver um padrão mínimo de germinação, eu não posso vender, eles bloqueiam o lote. É uma operação muito séria.

Revista E&S Os números mostram um crescimento expressivo da empresa. A que você atribui esse desempenho?

Lucas Camolese – Eu atribuo à cultura do amendoim, foi o que alavancou o faturamento. É resultado também da operação, mas a semente em si foi o que agregou mais valor na operação.

Revista E&S O que essa experiência mudou na sua forma de pensar a gestão, a inovação, a estratégia?

Lucas Camolese – Nossa, tudo! Por mais que eu já tivesse trabalhado em multinacionais em São Paulo, acho que não tem nada mais gratificante do que a agricultura. E o tanto que a gente evoluiu aqui dentro foi muito legal. Acho que o projeto do MBA foi a melhor escolha, uma das melhores escolhas que eu fiz profissionalmente, porque me trouxe muito conteúdo que eu pude aplicar aqui.

Revista E&S Que competências você desenvolveu no MBA?

Lucas Camolese – A parte de gestão. Eu tenho todo o material ainda, às vezes, quando tenho uma dúvida, até busco na pasta das aulas e consulto. E também mantive um relacionamento com o meu orientador. Estamos sempre trocando ideias.

Revista E&S Que conselhos você daria para alguém que esteja querendo trilhar o mesmo caminho que você trilhou?

Lucas Camolese – Com certeza tem que fazer (um MBA), por mais que o dia a dia seja corrido. A gente consegue arrumar um horário. As aulas são gravadas, então você pode assistir depois. Com calma, no horário que achar melhor.

SOBRE A ENTREVISTA
Entrevistado: Lucas Camolese, diretor administrativo da Cerealista Fazenda Canaã, foi aluno do curso de especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq.
Orientador do TCC: Alexandre Barreto, diretor de projetos do Parque Tecnológico de Piracicaba (PTP)
Para saber mais sobre o curso, acesse: MBA em Agronegócios USP/Esalq

Quem publicou esta entrevista

Luiz Eduardo Giovanelli

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