Neurociência E Aprendizagem Na Educação
08 de outubro de 2026
Componentes da Comunicação Não Violenta: contribuições para a melhoria da convivência escolar
Componentes da Comunicação Não Violenta: Contribuições para a Melhoria da Convivência Escolar
Juliana Cristine Bergamo de Palma; Carolina Matteussi Lino
DOI: 10.22167/2675-6528-202603076
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A convivência escolar representa um desafio contemporâneo, marcado por conflitos interpessoais e dificuldades de comunicação entre alunos e professores. Analisou-se como os componentes da Comunicação Não Violenta (CNV) podem contribuir para a melhoria da convivência em uma comunidade escolar da rede municipal de São Paulo. Realizou-se uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, que incluiu análise documental do Projeto Político-Pedagógico (PPP), observações do contexto escolar e a condução de três oficinas formativas com professores e equipe gestora. A análise documental organizou-se pelos quatro elementos da CNV: observação, sentimentos, necessidades e pedidos. Os resultados indicaram que, embora o PPP contemple princípios de convivência e respeito, faltava explicitação de estratégias comunicativas estruturadas. As oficinas, focadas em CNV, cultura de paz, mediação de conflitos e neurociência, favoreceram a autorreflexão sobre padrões comunicativos, escuta ativa e a relação entre emoções e aprendizagem. Concluiu-se que a incorporação consciente dos elementos da CNV pode favorecer a mediação de conflitos, fortalecer vínculos e promover um clima escolar mais acolhedor, contribuindo para relações interpessoais e práticas pedagógicas mais humanizadas, resultando em um processo de ensino-aprendizagem mais eficiente e significativo.
Palavras-chave: Clima escolar; Comunicação não violenta; Convivência escolar; Mediação de conflitos; Práticas pedagógicas.
1. Introdução
A escola transcende a função de um mero centro de aquisição de conhecimento formal, configurando-se como um espaço privilegiado para a convivência e a formação integral do indivíduo. Nesse ambiente, as interações sociais estabelecidas entre estudantes, professores e a equipe escolar são cruciais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Contudo, o cotidiano escolar frequentemente é permeado por dificuldades de comunicação, conflitos interpessoais e, por vezes, práticas abusivas ou autoritárias, elementos que impactam negativamente o clima institucional e o próprio processo de ensino e aprendizagem.
Diante desse cenário, a necessidade de promover estratégias que fomentem relações mais empáticas, respeitosas e colaborativas torna-se evidente. A Comunicação Não Violenta (Rosenberg, 2006) emerge como uma abordagem promissora, buscando transformar a maneira como as pessoas se expressam e se relacionam. Ela promove a escuta ativa, a empatia e a resolução pacífica de conflitos. Seus quatro componentes – observação, sentimentos, necessidades e pedidos – oferecem um caminho estruturado para a construção de diálogos mais conscientes e eficazes, onde as mensagens deixam de ser respostas automáticas e se tornam pautadas no que se percebe, sente e necessita. Essa abordagem alinha-se aos conceitos de Cultura de Paz, que preconiza valores, atitudes e comportamentos que rejeitam a violência e promovem o diálogo, a cooperação e o respeito aos Direitos Humanos (UNESCO, 1989).
A relevância da Comunicação Não Violenta estende-se ao campo da neurociência da aprendizagem, uma vez que valoriza a regulação emocional e a construção de ambientes seguros, fatores essenciais para o desenvolvimento cognitivo. Emoção e razão são processos indissociáveis, com as emoções desempenhando papel fundamental na tomada de decisões, na memória e na aprendizagem (Damásio, 2012). Situações de estresse, medo ou ameaça ativam respostas emocionais que podem comprometer funções cognitivas como atenção e memória, dificultando o aprendizado. Práticas comunicativas empáticas, como as propostas pela CNV, contribuem para a diminuição de estados emocionais negativos e favorecem a autorregulação. Ambientes emocionalmente seguros, por sua vez, possibilitam um melhor funcionamento do cérebro, especialmente do córtex pré-frontal, responsável por processos como concentração, planejamento e controle de impulsos (Lent, 2008). Assim, a CNV, ao promover relações mais respeitosas e baseadas na compreensão das necessidades, contribui para a criação de um clima escolar acolhedor, potencializando o desenvolvimento das funções cognitivas e socioemocionais.
No contexto das políticas educacionais, documentos institucionais como o Projeto Político-Pedagógico (PPP) frequentemente evidenciam a importância da convivência escolar, da formação cidadã e do desenvolvimento de competências socioemocionais (Goleman, 2012). No entanto, nem sempre esses documentos explicitam práticas pedagógicas estruturadas que orientem a comunicação e a sustentem no cotidiano escolar. Essa lacuna reforça a necessidade de investigações que articulem teoria e prática, especialmente no que se refere à comunicação e à mediação de conflitos. A análise de documentos institucionais e a observação de práticas pedagógicas em escolas frequentemente revelam uma discrepância entre o discurso que valoriza o diálogo e o respeito e a predominância de posturas autoritárias, comunicação verticalizada e baixa participação dos estudantes.
Dessa forma, este estudo justifica-se pela necessidade de promover melhorias na convivência escolar por meio de estratégias fundamentadas teoricamente e aplicáveis à realidade educacional, contribuindo para a construção de um ambiente escolar emocionalmente seguro, essencial para o desenvolvimento das funções executivas e da aprendizagem significativa. Além disso, busca-se oferecer subsídios para práticas pedagógicas mais humanizadas, que considerem a dimensão emocional como elemento central no processo educativo. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi analisar de que forma os componentes da Comunicação Não Violenta (observação sem julgamento, expressão de sentimentos, identificação de necessidades e formulação de pedidos) podem favorecer a melhoria da convivência escolar, a partir da análise documental do Projeto Político-Pedagógico da unidade escolar em questão e da observação do contexto educacional.
2. Material e Métodos
Este estudo caracterizou-se como uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa, estruturada por meio de um estudo de caso, com foco na compreensão das práticas relacionadas à convivência escolar. A metodologia foi selecionada para analisar como os componentes da Comunicação Não Violenta (CNV) podem contribuir para a melhoria da convivência em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) da rede municipal de São Paulo, SP. A pesquisa exploratória buscou familiarizar a pesquisadora com o problema, tornando-o explícito e facilitando a construção de ideias (Prodanov e Freitas, 2013). A abordagem qualitativa visou à compreensão dos significados e das dinâmicas das relações sociais, que não podem ser reduzidos a dados numéricos. O estudo de caso permitiu uma análise detalhada da convivência e da comunicação no ambiente escolar em condições reais.
A coleta de dados ocorreu entre o último bimestre de 2025 e o primeiro de 2026, período em que se realizou a observação-participante. Este procedimento focou nas práticas pedagógicas e na comunicação geral entre professores, estudantes, gestão e equipe técnica. Os registros e análises dessa observação foram elaborados a partir da perspectiva situada da pesquisadora, que atuou diretamente no ambiente. Complementarmente, realizou-se uma pesquisa documental centrada no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da instituição, com o objetivo de verificar o alinhamento entre as diretrizes oficiais e o cotidiano escolar.
A análise do Projeto Político-Pedagógico foi conduzida por meio da técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2011). Buscou-se identificar como o documento abordava temas como convivência, empatia, respeito e resolução de conflitos, além de verificar a menção de princípios de comunicação dialógica ou empática e as estratégias institucionais para o desenvolvimento de competências socioemocionais. Os achados foram categorizados em eixos temáticos específicos: Empatia, Diálogo, Mediação de Conflitos e Convivência Escolar. Os dados foram organizados para relacionar o discurso institucional às práticas pedagógicas observadas.
A partir dos dados coletados pela observação-participante e pela análise documental, foram realizadas três oficinas formativas. Essas oficinas foram destinadas a professores e à equipe gestora da unidade escolar, concebidas como uma intervenção formativa. O objetivo foi aproximar os pressupostos da Comunicação Não Violenta, da Cultura de Paz e da neurociência da aprendizagem das situações concretas vivenciadas no cotidiano escolar. A organização das atividades considerou as lacunas identificadas na etapa diagnóstica, especialmente a ausência de estratégias sistematizadas de escuta e comunicação empática.
Cada oficina teve duração de noventa minutos e foi estruturada em cinco etapas: acolhida e sensibilização, exposição dialogada, atividade prática, discussão e reflexão, e síntese e compromisso. A Oficina 1, “Comunicação Não Violenta na prática escolar”, foi conduzida para desenvolver habilidades de comunicação empática. Os participantes foram expostos aos quatro componentes da CNV (Rosenberg, 2006) e realizaram atividades práticas de reformulação de situações cotidianas, transformando frases julgadoras em enunciados que contemplassem observação, sentimentos, necessidades e pedidos. Princípios da Cultura de Paz e neurociência sobre regulação emocional também foram abordados.
A Oficina 2, “Cultura de Paz e mediação de conflitos”, visou desenvolver estratégias de mediação baseadas na escuta ativa, no respeito e na construção coletiva de soluções. Fundamentou-se nos princípios da Cultura de Paz (UNESCO, 1989), na CNV e em contribuições da neurociência sobre empatia. Durante a atividade prática, cartões com situações-problema escolares foram distribuídos, e os participantes assumiram diferentes papéis para exercitar a escuta ativa, identificar sentimentos e necessidades, e construir acordos para a resolução de conflitos. As estratégias utilizadas foram discutidas coletivamente.
A Oficina 3, “Neurociência, emoções e aprendizagem”, objetivou ampliar a compreensão sobre a relação entre funcionamento cerebral, emoções e comportamento dos estudantes. A fundamentação teórica baseou-se na neurociência da aprendizagem, conforme Damásio (2012) e Lent (2008). Em grupos, os participantes analisaram situações-problema envolvendo diferentes perfis de estudantes, discutindo possíveis relações entre estados emocionais e comportamentos, e elaborando estratégias pedagógicas. Após a realização das oficinas, as manifestações dos participantes foram observadas e consideradas na interpretação dos resultados, em articulação com os achados da observação-participante e da análise documental.
Todo o processo metodológico foi sustentado por uma revisão bibliográfica abrangente, que incluiu autores como Rosenberg (2006), Goleman (2012) e Damásio (2012), fornecendo o suporte teórico necessário para a Comunicação Não Violenta, a neurociência da aprendizagem e a convivência escolar. A análise dos dados foi guiada por uma categorização temática organizada em quatro eixos principais, definidos a partir da literatura especializada e das evidências observadas no contexto escolar. Adicionalmente, ferramentas de Inteligência Artificial foram empregadas como apoio à organização textual e revisão linguística do trabalho, com todo o conteúdo sendo analisado e revisado pela autora.
3. Resultados e Discussão
A análise do Projeto Político-Pedagógico (PPP) da unidade escolar revelou uma preocupação institucional com a organização das relações escolares, o respeito e a disciplina, mas predominantemente sob uma abordagem normativa. Observou-se que as menções à comunicação estavam frequentemente associadas ao cumprimento de regras e ao estabelecimento da ordem, sem a devida ênfase em práticas dialógicas, empáticas ou de mediação de conflitos. Essa constatação sugere uma lacuna significativa entre o discurso institucional e as propostas de convivência escolar mais humanizada e não-violenta, que são fundamentais para um ambiente educativo eficaz.
Para sistematizar os achados do PPP, a análise documental foi organizada em categorias temáticas. Na categoria Empatia, o documento valorizava o respeito às diferenças, indicando uma preocupação com a inclusão e a formação integral. Contudo, faltava a explicitação de práticas sistematizadas para a escuta ativa e a expressão emocional. No eixo Diálogo, havia incentivo à participação e escuta dos estudantes, mas a abertura comunicativa era pouco estruturada, sem estratégias claras de escuta ativa.
Em relação à Mediação de Conflitos, o PPP expressava a intenção de promover a resolução pacífica, porém, não detalhava estratégias práticas claras para tal. Por fim, na categoria Convivência Escolar, o documento promovia um ambiente respeitoso e colaborativo, com um discurso alinhado à formação cidadã. No entanto, não apresentava estratégias concretas para o fortalecimento de vínculos e o desenvolvimento de uma comunicação empática no cotidiano escolar.
Essas lacunas indicam que, embora o PPP contemple princípios compatíveis com a Comunicação Não Violenta (CNV), ele ainda carece de operacionalização prática e intencionalidade pedagógica para sustentar a aplicação efetiva desses princípios no contexto escolar. A ausência de estratégias estruturadas para a escuta ativa, a expressão de sentimentos e a mediação de conflitos fragiliza a construção de processos mediadores mais conscientes e eficazes, conforme preconizado por Rosenberg (2006).
Uma análise comparativa entre o discurso institucional do PPP e as práticas pedagógicas observadas no cotidiano escolar, descritas também na literatura como recorrentes em contextos tradicionais, revelou contradições importantes. No que tange à Empatia, o PPP valorizava o respeito às diferenças, mas a prática observada mostrava pouca escuta individualizada dos estudantes, evidenciando um distanciamento entre o discurso inclusivo e a realidade. Essa discrepância sugere que a mera menção de princípios não é suficiente para sua efetivação, conforme Goleman (2012) aponta sobre a necessidade de intencionalidade pedagógica para o desenvolvimento de competências socioemocionais.
No eixo Diálogo, o PPP incentivava a participação e a escuta dos estudantes, mas as observações revelaram um predomínio de metodologias expositivas e uma comunicação verticalizada, centrada na figura do professor. Essa prática contrasta com a proposta de participação e indica que a qualidade das relações escolares está diretamente ligada à capacidade de expressão autêntica e escuta empática, conforme Rosenberg (2006). A falta de estratégias sistematizadas para a escuta ativa e a formulação de pedidos claros limita a efetividade das interações comunicativas.
Em relação à Mediação de Conflitos, o documento institucional fazia referência à resolução pacífica, mas o cotidiano escolar era marcado pela predominância de estratégias punitivas e disciplinares, como ocorrências e suspensões. Essa lógica tradicional de controle do comportamento diverge dos pressupostos da CNV, que enfatizam a identificação de sentimentos e necessidades como base para a resolução de conflitos (Rosenberg, 2006). A incoerência entre o discurso e a prática fragiliza a construção de processos mediadores conscientes e estruturados.
Quanto à Convivência Escolar, o PPP apresentava alinhamento com princípios de formação cidadã e a construção de um ambiente respeitoso. Contudo, a recorrência de conflitos interpessoais, a desmotivação discente e as dificuldades relacionais observadas sugerem que esses princípios não se materializavam plenamente na prática. Essa discrepância entre o discurso institucional e a realidade vivenciada pode ser compreendida pela análise de conteúdo, que permite identificar incongruências entre o conteúdo manifesto dos documentos e suas condições de aplicação (Bardin, 2011).
A observação da dinâmica escolar revelou que os conflitos interpessoais são reconhecidos como parte do cotidiano da equipe. Embora houvesse consciência da importância da escuta, do diálogo e do estímulo ao vínculo afetivo, os educadores enfrentavam dificuldades em operacionalizar essas práticas. Os principais fatores identificados para essa dificuldade incluíam o receio de perder o controle da turma, a sobrecarga de trabalho, a falta de formação específica e a ausência de protocolos institucionais para mediação de conflitos e implementação da CNV.
Diante das lacunas identificadas entre o discurso institucional e as práticas observadas, foram realizadas três oficinas formativas com professores e equipe gestora. Essas oficinas foram concebidas como uma intervenção para aproximar os pressupostos da Comunicação Não Violenta, da Cultura de Paz e da neurociência da aprendizagem das situações concretas do cotidiano escolar, buscando preencher as necessidades de estratégias sistematizadas de escuta, comunicação empática e mediação de conflitos.
A Oficina 1, intitulada “Comunicação Não Violenta na prática escolar”, teve como objetivo desenvolver habilidades de comunicação empática para melhorar o diálogo com os estudantes e reduzir conflitos. Fundamentada nos quatro componentes da CNV (observação sem julgamento, sentimentos, necessidades e pedidos) de Rosenberg (2006), a oficina também articulou princípios da Cultura de Paz e contribuições da neurociência sobre regulação emocional. A atividade de trinta minutos de reescrita de frases julgadoras, como “você nunca presta atenção”, para “percebi que você não copiou a atividade. Estou preocupado porque preciso que você acompanhe a aula. Pode tentar fazer agora?”, exemplificou a aplicação prática dos princípios da CNV.
Os resultados esperados para a Oficina 1 incluíam a redução de falas autoritárias, o aumento da consciência emocional dos professores e o fortalecimento do vínculo entre professores e estudantes. A substituição de julgamentos por observações e a expressão clara de sentimentos e necessidades, conforme proposto por Rosenberg (2006), favorecem interações mais respeitosas e eficazes. Sob a perspectiva da neurociência, esse processo está associado à ativação do córtex pré-frontal, responsável pela autorregulação emocional e pela tomada de decisões (Lent, 2008).
A Oficina 2, “Cultura de Paz e mediação de conflitos”, visou desenvolver estratégias de mediação baseadas na escuta ativa, respeito e construção coletiva de soluções. A fundamentação teórica incluiu os princípios da Cultura de Paz (UNESCO, 1989), a CNV na mediação de conflitos e a neurociência, com foco na empatia e neurônios-espelho. A dinâmica “linha do conflito” e a atividade prática de role-playing com cartões de situações-problema permitiram aos participantes exercitar a escuta ativa, identificar sentimentos e necessidades e construir acordos para a resolução de conflitos.
Os resultados esperados para a Oficina 2 destacaram a redução de práticas punitivas, o desenvolvimento da escuta ativa e o fortalecimento de práticas restaurativas na gestão de conflitos escolares. A ênfase na escuta ativa e na construção coletiva de soluções contribui para o desenvolvimento da empatia, um processo intrinsecamente relacionado às bases neurobiológicas das emoções e à capacidade de compreender o outro (Damásio, 2012). Essas competências são fundamentais para a qualidade das relações interpessoais e para o clima institucional (Goleman, 2012).
A Oficina 3, “Neurociência, emoções e aprendizagem”, teve como objetivo ampliar a compreensão sobre a relação entre funcionamento cerebral, emoções e comportamento dos estudantes, promovendo a reflexão sobre práticas pedagógicas mais adequadas. A fundamentação teórica baseou-se na neurociência da aprendizagem, com foco na regulação emocional e na relação emoção-cognição, conforme Damásio (2012) e Lent (2008). A exposição dialogada abordou conceitos como cérebro emocional, amígdala, córtex pré-frontal, estresse, aprendizagem e janela de tolerância.
Na atividade prática da Oficina 3, os participantes analisaram situações-problema com diferentes perfis de estudantes (comportamento agressivo, desinteresse, desafio ao professor), discutindo o que poderia estar acontecendo no cérebro do aluno e como o professor poderia agir. Os resultados esperados incluíam uma maior compreensão do comportamento dos estudantes, a redução de interpretações moralizantes e o aumento do engajamento em sala de aula. Ambientes emocionalmente seguros favorecem o funcionamento cognitivo, reduzindo respostas de estresse e ampliando a capacidade de atenção e memória (Lent, 2008).
Após a realização das oficinas, observou-se que os professores e a equipe de gestão demonstraram receptividade. As atividades iniciais promoveram momentos de autorreflexão sobre padrões comunicativos, ampliando a consciência sobre julgamento, reações padronizadas, dificuldade de expressão de sentimentos e sobrecarga emocional. Houve também a percepção de que a condução das aulas e a mediação de conflitos eram frequentemente pautadas em uma postura enérgica e ríspida para manter o controle.
Contudo, observou-se, em algumas ocasiões, o surgimento de estratégias mais empáticas, especialmente no que diz respeito à escuta ativa. Esses resultados iniciais reforçam a compreensão de que a comunicação empática contribui para a construção de ambientes emocionalmente mais seguros, condição fundamental para a aprendizagem. A disposição para a transformação das relações escolares, ainda que gradual, foi evidente, indicando o potencial das competências comunicativas e socioemocionais propostas pela CNV.
De forma integrada, os resultados das oficinas indicam a possibilidade de ampliação da consciência emocional docente, fortalecimento da escuta ativa e do diálogo, redução de práticas punitivas, melhoria do clima escolar e aumento do engajamento dos estudantes. Tais aspectos reforçam a compreensão de que a incorporação da CNV no contexto educacional pode contribuir significativamente para a construção de ambientes mais acolhedores e propícios à aprendizagem, potencializando o desenvolvimento das funções cognitivas e socioemocionais.
A articulação entre Comunicação Não Violenta, Cultura de Paz e neurociência da aprendizagem apresentou-se como um caminho consistente para a qualificação das relações interpessoais e para o fortalecimento de práticas pedagógicas mais humanizadas. A compreensão de que a emoção e a cognição são processos indissociáveis (Damásio, 2012) amplia a percepção sobre o comportamento dos estudantes, favorecendo práticas pedagógicas mais sensíveis e eficazes, que consideram a dimensão emocional como elemento central no processo educativo.
Em síntese, os achados deste estudo demonstram que, embora o Projeto Político-Pedagógico da escola apresente princípios alinhados à convivência escolar e à formação cidadã, há uma lacuna significativa na explicitação e implementação de estratégias comunicativas estruturadas. As oficinas formativas, ao introduzir os componentes da Comunicação Não Violenta, a Cultura de Paz e a neurociência da aprendizagem, mostraram-se eficazes em promover a autorreflexão e o desenvolvimento de habilidades empáticas e mediadoras entre os educadores, indicando um caminho promissor para transformar o clima escolar e as práticas pedagógicas.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar de que forma os componentes da Comunicação Não Violenta (CNV) podem favorecer a melhoria da convivência escolar, a partir da análise documental do Projeto Político-Pedagógico (PPP) e da observação do contexto educacional de uma unidade escolar. Verificou-se que, embora o PPP da instituição contemplasse princípios de respeito e convivência, havia uma lacuna na explicitação de estratégias comunicativas estruturadas. As práticas pedagógicas observadas, por sua vez, frequentemente se pautavam em modelos comunicativos verticalizados e abordagens punitivas na gestão de conflitos, distanciando-se do discurso institucional. Diante desse cenário, as oficinas formativas, que articularam a CNV, a Cultura de Paz e a neurociência da aprendizagem, mostraram-se eficazes em promover a autorreflexão dos educadores sobre seus padrões comunicativos, ampliando a consciência sobre a relação entre emoções e aprendizagem. Observou-se o surgimento de estratégias mais empáticas, especialmente no que concerne à escuta ativa, indicando um potencial para a transformação das relações escolares.
A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração de que a articulação entre a Comunicação Não Violenta, a Cultura de Paz e a neurociência da aprendizagem oferece um caminho consistente para a qualificação das relações interpessoais e para o fortalecimento de práticas pedagógicas mais humanizadas. A compreensão da indissociabilidade entre emoção e cognição amplia a percepção sobre o comportamento dos estudantes, favorecendo ambientes emocionalmente seguros e propícios à aprendizagem. Contudo, a natureza exploratória do estudo e a intervenção pontual das oficinas sugerem que as mudanças observadas representam um potencial inicial. Para que essa transformação se consolide e gere um impacto duradouro na convivência escolar, faz-se fundamental o investimento contínuo em formação e a institucionalização de práticas e protocolos que sustentem a aplicação da CNV no cotidiano escolar, o que aponta para a necessidade de estudos futuros que avaliem a implementação e os efeitos a longo prazo dessas estratégias.
Referências Bibliográficas
Bardin, L. 2011. Análise de conteúdo. Lisboa. Edições 70, Portugal.
Damásio, A.R. 2012. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano, Companhia das Letras, São Paulo, SP, Brasil.
Goleman, D. 2012. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente, Objetiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Lent, R. 2008. Neurociência da mente e do Comportamento. 2ed.Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura [UNESCO]. 1989. Conferência Internacional sobre Cultura de Paz. Yamoussoukro: UNESCO.
Prodanov, C.C.; Freitas, E.C. 2013. Metodologia do trabalho científico: Métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2ed. Feevale, Novo Hamburgo, RS, Brasil.
Rosenberg, M.B. 2006. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. 2ed. Ágora, São Paulo, SP, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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