22 de outubro de 2026
Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público
Jean Richard Badette; Rafael Giacomassi
DOI: 10.22167/2675-6528-202603754
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.
Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.
1. Introdução
A modernização tecnológica e o avanço econômico de nações em desenvolvimento estão intrinsecamente ligados à Transferência Internacional de Tecnologia (TIT). Mais do que o simples deslocamento de equipamentos, esse processo exige uma integração profunda de conhecimentos técnicos e sua efetiva adaptação ao contexto social e econômico do receptor (Maskus, 2004).
Devido à sua natureza multifacetada, a TIT opera sob a influência de variáveis institucionais, políticas e econômicas, o que demanda uma compreensão clara do que constitui a tecnologia antes da análise de sua transição. Neste âmbito, a tecnologia é definida como um sistema organizado de informações, englobando tanto o conhecimento explícito quanto o tácito. Tais elementos são combinados para a execução de serviços, processos ou manufatura de produtos (Maskus, 2004; Chiarini e Silva, 2017).
Assim, a TIT configura-se como o fluxo pelo qual esses artefatos e saberes atravessam fronteiras organizacionais e nacionais. O sucesso dessa jornada depende da capacidade da organização receptora em acessar e absorver tais informações, integrando-as de forma produtiva (Maskus, 2004; Chiarini e Silva, 2017). Na literatura, é fundamental distinguir os canais de transferência, como o comércio de bens de capital, dos seus mecanismos operacionais, a exemplo de acordos de cooperação técnica e projetos conjuntos de Pesquisa e Desenvolvimento (Bozeman, 2000; Bell e Pavitt, 1993; Lall, 1992).
Em economias em desenvolvimento, a eficácia desse intercâmbio é frequentemente moldada pela robustez institucional e pela capacidade de absorção local (OECD, 2005; 2018). Keller (2004) reforça que essa difusão tecnológica é um motor determinante para o equilíbrio da renda global, reduzindo o abismo técnico entre diferentes economias.
Contudo, sob a ótica da Gestão de Projetos, o êxito da TIT não depende apenas da viabilidade técnica, mas do engajamento estratégico dos envolvidos. O gerente de projetos assume um papel estratégico ao formular planos de ação que assegurem o envolvimento ativo e eficaz dos stakeholders tanto nas fases decisórias quanto na execução técnica. De acordo com as diretrizes do Project Management Institute (PMI, 2022), esse gerenciamento é operacionalizado por meio de quatro processos fundamentais: a identificação dos atores, o planejamento de seu engajamento, a gestão direta dessas relações e, por fim, o monitoramento contínuo da eficácia dessas ações.
Para que essa estrutura funcione em projetos complexos, como a transferência de tecnologia hospitalar, é imperativo que os papéis e as responsabilidades de cada parte interessada sejam rigorosamente estabelecidos desde a concepção do projeto através de um plano de comunicação bem estruturado (Boyadjian, 2019). As partes interessadas são todos aqueles que podem influenciar ou ser afetados pelos resultados do projeto (PMI, 2022). Complementando essa visão, Harrin (2020) define o engajamento como um ciclo estruturado de identificação, análise e execução de ações voltadas a obter a cooperação das partes interessadas, sustentado pela construção de relações baseadas na confiança e na compreensão mútua.
Diante da complexidade de implementar essas dinâmicas em instituições públicas, especialmente no setor de saúde, esta pesquisa buscou responder quais fatores críticos são percebidos como condicionantes do engajamento das partes interessadas na fase de planejamento de um projeto de transferência internacional de tecnologia em um hospital público de grande porte. A necessidade de compreender esses fatores se justifica pela relevância potencial que o engajamento das partes interessadas apresenta na implementação e nos resultados dos projetos de TIT, especialmente devido à participação de diversos atores. Do ponto de vista acadêmico, a pesquisa busca preencher uma lacuna ao integrar os campos da Transferência de Tecnologia e da Gestão de Projetos em um contexto ainda pouco explorado pela literatura nacional. Para a prática profissional, especialmente no âmbito da administração pública hospitalar, compreender esses fatores é fundamental para aprimorar o planejamento de futuras aquisições e parcerias internacionais, aumentando as chances de sucesso na incorporação tecnológica e, consequentemente, otimizando o investimento de recursos públicos em benefício da sociedade. Dessa forma, o objetivo geral deste trabalho consiste em descrever os fatores críticos percebidos pelos profissionais como condicionantes do engajamento das partes interessadas no planejamento da transferência internacional de tecnologia (equipamentos e sistemas) para um hospital público de grande porte.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi de caráter exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa, buscando compreender sentidos, significados e percepções dos sujeitos em seu contexto (Goertz e Mahoney, 2012). Utilizou-se o método de estudo de caso único, caracterizado por uma investigação intensiva de uma unidade empírica delimitada, com vistas à compreensão aprofundada de um fenômeno complexo em seu contexto real (Gerring, 2017). O estudo investigou o processo de Transferência Internacional de Tecnologia (TIT) em um hospital público de grande porte localizado na região sul do Brasil.
A escolha do caso se justificou pela relevância da instituição, que atende a uma ampla demanda populacional da região Centro-Oeste do estado do Rio Grande do Sul e busca aprimorar sua infraestrutura tecnológica. As tecnologias críticas a serem transferidas incluíam equipamentos para cirurgia robótica, sistemas de farmacocinética e farmacogenômica, diagnóstico por imagem de última geração, UTIs neonatais equipadas, painéis inteligentes e dashboards integrados para gestão de internação.
As técnicas de pesquisa empregadas foram o levantamento bibliográfico e a aplicação de um questionário misto (perguntas abertas e fechadas) a profissionais do hospital. O questionário, disponível no Apêndice 1 do TCC original, foi elaborado com base na literatura sobre engajamento das partes interessadas e TIT, contemplando os objetivos da pesquisa. Seu desenvolvimento incluiu revisão de literatura para fundamentação teórica e elaboração de roteiro semiestruturado para captar percepções, experiências e avaliações dos participantes.
A coleta de dados envolveu 25 profissionais, selecionados por amostragem intencional de áreas estratégicas como gestão, equipe médica, enfermagem, tecnologia da informação, engenharia clínica, compras, financeiro e qualidade. Essa seleção visou incluir posições funcionais complementares para captar perspectivas distintas sobre o processo de TIT. O contato foi realizado por e-mail, com participação voluntária. Os procedimentos éticos foram assegurados, com consentimento formal dos respondentes via Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), incluído na seção inicial do questionário. Garantiu-se o anonimato e a confidencialidade das respostas, que foram utilizadas exclusivamente para fins acadêmicos e analisadas em conjunto, sem identificação individual.
O número de 25 respostas obtidas não seguiu um critério de saturação teórica, mas representou o total de profissionais que aceitaram participar e responder ao questionário no prazo. A dificuldade de adesão, com atrasos e ausência de retorno, pode refletir desafios de contato e disponibilidade dos profissionais. O total de 25 respostas, embora limitado, permitiu uma descrição exploratória das percepções dos participantes, com limites de cobertura e de inferência.
Os dados foram tratados por análise de conteúdo, conforme Bardin (2016), em três etapas: i) pré-análise e leitura flutuante; ii) codificação e agrupamento temático dos conteúdos em categorias relacionadas a partes interessadas, barreiras, impactos e práticas de gestão; e iii) tratamento interpretativo dos resultados. As categorias foram desenvolvidas por um procedimento híbrido, orientado pelos eixos teóricos da pesquisa e refinado a partir das respostas. As frequências das perguntas fechadas foram usadas como apoio descritivo à interpretação qualitativa, sem testes inferenciais. Realizou-se cruzamento descritivo entre tempo de atuação, experiência prévia em projetos e avaliações de influência e essencialidade. Para cada participante, calculou-se a mediana das notas atribuídas aos atores avaliados, separadamente para influência e essencialidade, e as medianas individuais foram resumidas por grupo. Os resultados são exploratórios e não constituem testes de associação ou causalidade.
Delimitação do estudo
A seleção dos profissionais internos do hospital foi fundamental para o estudo de caso. Embora a pesquisa idealmente devesse incluir a perspectiva de partes interessadas externas, como fornecedores de equipamentos e sistemas tecnológicos e financiadores (e.g., BNDES, NDB, parceiros chineses), que são cruciais em projetos de TIT, a delimitação focou nos profissionais internos.
A delimitação aos profissionais internos ocorreu devido à viabilidade de acesso e à relevância analítica de suas posições no planejamento, incorporação e utilização de tecnologias. A seleção intencional dos setores foi orientada pela complementaridade no percurso de aquisição tecnológica, abrangendo desde autorização e priorização de recursos até monitoramento da qualidade. Essa estratégia ampliou a variedade de perspectivas organizacionais, mas não assegurou representatividade proporcional dos setores ou de todos os envolvidos. Fornecedores, financiadores, órgãos reguladores e pacientes não foram entrevistados, e a avaliação de sua participação derivou das percepções dos profissionais consultados.
Foram elegíveis profissionais com atuação direta ou indireta nos processos de decisão, aquisição, implantação, uso ou avaliação de novas tecnologias. As áreas incluídas foram Gestão (diretores e gerentes), Setor de TI, Engenharia Clínica, Equipe Médica e de Enfermagem, Compras/Suprimentos, Setor Financeiro e Qualidade e Segurança do Paciente. Essas áreas foram consideradas por suas funções analiticamente relevantes e complementares, sem constituir estratos probabilísticos.
3. Resultados e Discussão
Participaram da pesquisa 25 profissionais de um hospital público de grande porte localizado na região sul do Brasil. A análise do perfil dos respondentes revelou que 18 (72%) possuíam mais de seis anos de vínculo institucional, enquanto 8 (32%) relataram envolvimento prévio em projetos de tecnologia. Entre os profissionais com mais de seis anos de atuação, cinco haviam participado de projetos, em contraste com três entre os sete com até seis anos. Esses dados, resumidos na Figura 1, são descritivos e estão sujeitos ao viés da amostra intencional, não permitindo generalizações sobre a relação entre tempo de vínculo e experiência em projetos de tecnologia.
Figura 1. Perfil dos respondentes: tempo de atuação e participação prévia em projetos (n = 25)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Para examinar possíveis diferenças nas percepções, os dados foram agrupados por tempo de atuação e experiência prévia em projetos de transferência de tecnologia. A Tabela 1 apresenta as medianas das avaliações de influência e essencialidade atribuídas aos stakeholders pelos respondentes.
Tabela 1. Medianas das avaliações de influência e essencialidade, segundo o perfil dos respondentes (n = 25)
| Perfil dos respondentes | Número de participantes | Influência (mediana) | Essencialidade (mediana) |
|---|---|---|---|
| Mais de 6 anos | 18 | 5,0 | 5,0 |
| Até 6 anos | 7 | 4,0 | 5,0 |
| Experiência prévia: sim | 8 | 4,5 | 5,0 |
| Experiência prévia: não | 17 | 5,0 | 5,0 |
Fonte: elaboração própria com base nas respostas individuais e na matriz de influência e essencialidade.
A Tabela 1 indica que, entre os respondentes com mais de seis anos de vínculo (n = 18), a mediana da influência foi 5,0, enquanto para aqueles com até seis anos (n = 7), foi 4,0. A mediana da essencialidade foi 5,0 em ambos os grupos. Quanto à experiência prévia em projetos de transferência de tecnologia, a mediana da influência foi 4,5 para os oito participantes com experiência e 5,0 para os 17 sem. A mediana da essencialidade permaneceu 5,0 nos dois grupos. Esses cruzamentos são descritivos e não permitem conclusões causais ou generalização, pois os grupos são pequenos e as avaliações referem-se a conjuntos de stakeholders potencialmente distintos.
A pergunta aberta sobre quais partes interessadas deveriam ser envolvidas em um projeto de transferência internacional de tecnologia (TIT) revelou 22 categorias de atores internos e 8 externos. A Figura 2 sintetiza as frequências de menção.
Figura 2. Partes interessadas mencionadas pelos respondentes (n = 25; respostas múltiplas)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
Na Figura 2, a equipe médica (88%), equipe de enfermagem (84%) e gestão hospitalar (80%) foram as mais frequentemente mencionadas, refletindo sua visibilidade nas decisões e rotinas de adoção tecnológica. Em contraste, apenas dois respondentes (8%) citaram pacientes. Essa baixa frequência sugere uma possível lacuna no reconhecimento do usuário final entre os participantes, mas não comprova a ausência de participação dos pacientes nos processos institucionais, considerando o foco da amostra nos profissionais internos e o caráter aberto da pergunta.
A Tabela 2 apresenta as medidas de tendência central e a distribuição de frequência das avaliações de influência e essencialidade atribuídas às partes interessadas.
Tabela 2. Medidas de tendência central e distribuição de frequência das partes interessadas

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise dos dados da Tabela 2, coletados com base na escala Likert (1 a 5), evidencia um padrão consistente de avaliações elevadas para as partes interessadas priorizadas, demonstrando forte percepção de relevância desses atores. As medianas de influência variaram entre 4,5 e 5,0, e as de essencialidade foram 5,0 para todas as partes interessadas. A moda das respostas concentrou-se predominantemente no valor 5, indicando que a maioria dos respondentes atribuiu níveis máximos de influência e essencialidade. O Setor Financeiro foi o único com maior dispersão na moda da influência (valores 4 e 5).
O Setor de TI apresentou o maior número de avaliações (20), seguido pela Gestão hospitalar (19), Equipe médica (18) e Equipe de enfermagem (16). Esse resultado reflete a priorização desses atores pelos participantes e reforça a centralidade dos stakeholders internos no processo de TIT. A Figura 3, elaborada com base nas medianas de influência e essencialidade da Tabela 2, permite visualizar o posicionamento estratégico das partes interessadas.
Figura 3. Matriz de influência e essencialidade das partes interessadas (medianas; escala de 1 a 5)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 3 concentra as avaliações mais elevadas no quadrante de alta influência e alta essencialidade, descrevendo a percepção dos participantes sobre os atores previamente citados. Seis partes interessadas apresentaram influência e essencialidade iguais a 5,0, enquanto outras duas registraram influência de 4,5 e essencialidade de 5,0. Essa concentração de pontuações no limite superior da escala sugere a necessidade de combinar a matriz com informações sobre funções, interesses, grau de envolvimento e riscos de cada etapa do projeto para distinguir prioridades relativas.
A Figura 4 apresenta a distribuição de frequência das barreiras percebidas ao engajamento, identificando os principais entraves apontados pelos respondentes.
Figura 4. Barreiras percebidas ao engajamento (n = 25; respostas múltiplas)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A recontagem das respostas à questão de múltipla escolha (Figura 4) identificou resistência à mudança em 18 respostas (72%), financiamento em 16 (64%), falta de comunicação em 15 (60%), falta de conhecimento técnico em 12 (48%), burocracia em 10 (40%), interesses conflitantes em 9 (36%) e falta de tempo em 8 (32%). A coexistência desses fatores relacionais, orçamentários, técnico-operacionais e procedimentais sugere que intervenções isoladas podem não atender às necessidades percebidas. O questionário, entretanto, não mensurou a intensidade nem demonstrou relações causais entre essas barreiras e o resultado de um projeto.
A análise de conteúdo das respostas abertas permitiu identificar seis categorias de impacto negativo decorrentes da falta de engajamento, apresentadas na Tabela 2, com exemplos de falas.
Tabela 2. Impactos da falta de engajamento

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A categoria mais recorrente foi atrasos no cronograma e inviabilização do projeto (12 menções), evidenciando riscos diretos à continuidade das iniciativas. Em seguida, destacou-se a baixa adesão ou subutilização da tecnologia (9 menções), frequentemente associada à resistência à mudança. Também foram apontados desperdício de recursos e aumento de custos (5 menções), falhas na comunicação e no alinhamento estratégico (6 menções), comprometimento da absorção do conhecimento (4 menções) e riscos à qualidade e segurança do paciente (3 menções). Esses relatos apontam para uma possível sequência de riscos, desde a participação insuficiente na definição de necessidades até a percepção de atraso ou subutilização, mas não constituem uma cadeia causal comprovada.
A Figura 5 demonstra a percepção dos respondentes sobre a existência de ferramentas e processos adequados de gestão das partes interessadas no hospital.
Figura 5. Percepção sobre ferramentas e processos adequados de gestão de stakeholders (n = 25)

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A recontagem das respostas individuais à pergunta sobre ferramentas adequadas de gestão das partes interessadas (Figura 5) encontrou 12 respostas “não” (48%), 7 “não sei” (28%) e 6 “sim” (24%). O desconhecimento relatado pode decorrer de dificuldades de divulgação ou de entendimento dos instrumentos, não comprovando sua inexistência. A leitura conjunta dos resultados sugere três dimensões analíticas para o planejamento do engajamento: relacional (comunicação, inclusão e confiança), organizacional (decisão, recursos e procedimentos) e técnico-operacional (conhecimento e capacidade de incorporar a tecnologia). As avaliações elevadas atribuídas a equipes assistenciais, gestão e TI são compatíveis com a importância do conhecimento contextual e tácito para a absorção tecnológica (Maskus, 2004; Chiarini e Silva, 2017).
Com base nos fatores críticos identificados e na análise das barreiras e impactos, propõem-se diretrizes para otimizar o planejamento do engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia. As diretrizes incluem: a) criar um Comitê de TIT multidisciplinar, ativo desde a concepção até a implementação; b) adotar a Matriz de Poder versus Interesse (PMI, 2022) para mapear e classificar os stakeholders; c) elaborar um Plano de Comunicação formal com cronograma, canais de feedback e indicadores de satisfação; d) realizar treinamentos e simulações prévias para reduzir a resistência à mudança e suprir a falta de conhecimento técnico; e) incluir o paciente como stakeholder legítimo, por meio de grupos focais ou representação, alinhando a adoção tecnológica às necessidades da população; e f) estabelecer um processo de avaliação de impacto pós-implementação, com indicadores de adesão, segurança do paciente, custo-efetividade e benefícios assistenciais. Essas diretrizes constituem alternativas de melhoria a serem avaliadas pela administração hospitalar, com viabilidade e eficácia dependentes de validação institucional e acompanhamento.
O estudo descreveu os fatores críticos percebidos pelos 25 profissionais consultados no planejamento do engajamento em iniciativas de transferência internacional de tecnologia. Os resultados se organizam em dimensões relacionais, organizacionais e técnico-operacionais. Equipes médicas e de enfermagem, gestão e TI foram frequentemente lembradas e avaliadas como relevantes, e atores externos também receberam avaliações elevadas quando citados. A baixa menção aos pacientes sugere a necessidade de investigar melhor a consideração da perspectiva do usuário, sem concluir por exclusão sistemática. As barreiras destacadas foram resistência à mudança, comunicação, financiamento, burocracia e conhecimento técnico. A falta de engajamento foi associada a riscos percebidos de atrasos, baixa adesão, custos e prejuízos assistenciais, que representam interpretações dos respondentes e não impactos observados ou relações causais demonstradas. As diretrizes propostas devem ser consideradas hipóteses de intervenção sujeitas à avaliação de viabilidade e efetividade.
4. Conclusão
A investigação dos fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas no planejamento da transferência internacional de tecnologia em um hospital público de grande porte revelou um panorama complexo de dimensões relacionais, organizacionais e técnico-operacionais. Verificou-se que equipes médicas, de enfermagem, gestão hospitalar e o setor de TI foram consistentemente apontadas como atores de alta influência e essencialidade. Contudo, a baixa menção aos pacientes indicou uma possível lacuna na percepção do usuário final. Identificou-se a resistência à mudança, o financiamento, a falta de comunicação e a burocracia como as principais barreiras ao engajamento. A ausência de ferramentas adequadas de gestão de stakeholders foi percebida por uma parcela significativa dos respondentes. A falta de engajamento foi associada a riscos como atrasos no cronograma, baixa adesão à tecnologia, desperdício de recursos e comprometimento da segurança do paciente, embora essas associações representem interpretações dos participantes e não relações causais comprovadas. A principal contribuição do estudo reside na articulação das percepções organizacionais sobre o engajamento de stakeholders com o processo de transferência de tecnologia em um contexto hospitalar público, oferecendo subsídios para aprimorar o planejamento de futuras aquisições e parcerias internacionais.
Este estudo, de caráter exploratório e descritivo, apresenta limitações inerentes ao seu desenho metodológico, como o caso único, a amostragem intencional e o número restrito de 25 participantes. As percepções coletadas são autorrelatadas e não permitem generalizações ou o estabelecimento de relações de causa e efeito. A ausência de entrevistas com pacientes e outros atores externos também restringe a abrangência das perspectivas analisadas. Para investigações futuras, sugere-se a ampliação da amostra, a padronização dos itens de avaliação e a incorporação de fontes institucionais e perspectivas de stakeholders externos, incluindo os pacientes, para uma compreensão mais abrangente. As diretrizes propostas, que incluem a criação de um comitê multidisciplinar, a adoção de uma matriz de mapeamento de stakeholders, a elaboração de um plano de comunicação formal, a realização de treinamentos e a inclusão da perspectiva do paciente, constituem hipóteses de intervenção. Sua viabilidade e eficácia dependem de validação institucional e acompanhamento em projetos concretos, visando otimizar a participação e a comunicação no planejamento da transferência internacional de tecnologia.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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