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Treinamento

10 de dezembro de 2025

A relevância da formação teórica no Programa Jovem Aprendiz

Autor: André Luiz Gomes Da Silva — Orientadora: Orjana De Oliveira Pacheco Rossi

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Conforme defendem Costa e Montanhara (2021), o direito ao trabalho é um pilar da dignidade humana, e sua efetivação para todos exige a aplicação substancial do princípio da igualdade, o que implica a implementação de políticas governamentais ativas para corrigir desigualdades estruturais e oferecer oportunidades reais de crescimento. Nesse cenário, a Lei nº 10.097/2000, popularmente conhecida como Lei do Jovem Aprendiz, representa um marco legal e um instrumento de transformação social de grande relevância no Brasil. Esta legislação possibilita que as organizações exerçam sua função como agentes de mudança, tornando-se catalisadoras de desenvolvimento econômico e social (Brasil, 2000). Essa dualidade é fundamental, pois visa formar não apenas um executor de tarefas, mas um profissional consciente de seu papel na sociedade, capaz de refletir sobre sua prática e de se adaptar às constantes mudanças do mundo do trabalho (Brasil, 2000).

Do ponto de vista da Gestão de Pessoas, a formação oferecida aos jovens aprendizes alinha-se diretamente aos conceitos estratégicos de Treinamento e Desenvolvimento (T&D). Autores como Wanzeler et al. (2018) argumentam que as ações de T&D deixaram de ser meramente operacionais para se tornarem estratégicas, contribuindo para o desenvolvimento de capital humano e para a competitividade organizacional. A capacitação teórica, portanto, é um componente indispensável desse processo, pois fornece a base conceitual que qualifica a prática e potencializa o aprendizado, garantindo que os jovens tenham maiores chances de sucesso em sua jornada profissional.

Para a condução deste estudo, adotou-se uma abordagem qualitativa, com um delineamento de pesquisa que se caracteriza como descritivo e participativo. A escolha por essa abordagem justifica-se pela necessidade de compreender em profundidade as nuances, significados e percepções dos instrutores sobre o fenômeno investigado, valorizando suas experiências e narrativas. A natureza descritiva permitiu mapear e detalhar as características da formação teórica no contexto específico de uma cidade do interior da Bahia, enquanto o viés participativo reconhece os instrutores como sujeitos ativos na construção do conhecimento sobre o programa. A pesquisa qualitativa, neste caso, oferece a flexibilidade necessária para explorar a complexidade das interações humanas e dos processos formativos, indo além de dados puramente quantitativos. O principal instrumento para a coleta de dados foi um questionário semiestruturado, desenvolvido especificamente para atender aos objetivos desta pesquisa.

O questionário foi elaborado com base no referencial teórico e no problema de pesquisa, garantindo sua aderência e coerência metodológica. A aplicação ocorreu de forma online, por meio da plataforma Google Forms, o que facilitou o acesso aos participantes e a organização inicial dos dados. Conforme destacam Castro e Oliveira (2022), o questionário semiestruturado é uma ferramenta estratégica que equilibra a estrutura de perguntas-guia com a flexibilidade para respostas abertas, permitindo a coleta de dados ricos, densos e contextualizados. A população-alvo do estudo foi composta por instrutores que atuam na formação teórica de jovens aprendizes em organizações parceiras do programa em Feira de Santana, Bahia. A amostra final contou com a participação de dez respondentes. Embora o número possa parecer reduzido, ele é representativo da realidade local, dado o universo limitado de profissionais que exercem essa função específica no município.

Mesmo em organizações de grande porte, como a prefeitura municipal, que conta com cerca de mil aprendizes, o corpo de instrutores é enxuto, com apenas quatro profissionais dedicados a essa formação. Portanto, a amostra incluiu uma parcela significativa dos instrutores atuantes na cidade, garantindo a relevância e a validade dos dados coletados para a compreensão do cenário local.

Para a análise dos dados obtidos, empregou-se a técnica de análise de conteúdo, seguindo as orientações de Bardin (2011). Este método permitiu a sistematização e a interpretação das respostas, tanto das questões fechadas quanto das abertas, por meio da identificação de temas e categorias emergentes. O processo envolveu a leitura flutuante do material, a codificação das respostas e a categorização dos temas recorrentes, o que possibilitou uma compreensão aprofundada das percepções e práticas relatadas pelos instrutores. Complementarmente, a pesquisa foi sustentada por uma robusta revisão bibliográfica, com levantamento de publicações em bases de dados indexadas como Scielo e Periódicos CAPES. Como ressaltam Sousa et al. (2021), a pesquisa bibliográfica é fundamental para construir uma base teórica sólida que oriente a análise empírica, exigindo do pesquisador capacidade de síntese, reflexão e articulação teórica. A integração entre os dados empíricos e a fundamentação teórica assegurou a consistência e o rigor da análise.

A análise dos resultados, fundamentada na percepção dos instrutores responsáveis pela formação teórica dos jovens aprendizes em Feira de Santana, Bahia, revela um panorama complexo e multifacetado sobre o impacto do programa. O perfil dos dez respondentes mostra uma predominância do gênero feminino (60%), com uma distribuição etária concentrada entre 25 e 54 anos. A formação acadêmica é majoritariamente na área da educação, com 60% dos instrutores sendo pedagogos, o que se alinha ao fato de que 80% já possuíam experiência prévia com educação antes de atuarem no programa. A maioria (80%) atua em modalidade presencial, o que sugere um modelo de formação que valoriza a interação direta. Esses dados indicam um corpo de instrutores com forte background pedagógico, o que potencialmente influencia a abordagem e a qualidade da formação oferecida.

A percepção geral dos instrutores sobre a importância da formação teórica é extremamente positiva, sendo considerada um dos pilares fundamentais para o preparo profissional dos jovens. As respostas sintetizadas indicam que a teoria vai muito além da simples transmissão de conteúdo; ela amplia os conhecimentos gerais e específicos, desenvolve o pensamento crítico e oferece uma base sólida de habilidades e competências essenciais para o mercado de trabalho. Além disso, a formação teórica foi descrita como um espaço de acolhimento e escuta, crucial para jovens que muitas vezes vêm de contextos de vulnerabilidade. Essa dimensão humana da formação contribui para o crescimento pessoal, o fortalecimento da autoconfiança e a preparação para enfrentar desafios com maior segurança, responsabilidade e consciência social, corroborando a visão de que o programa visa uma formação integral.

Apesar da visão positiva, a pesquisa identificou pontos críticos em relação à adequação do programa às demandas do mercado de trabalho atual. Embora 70% dos instrutores acreditem que a formação atende totalmente a essas necessidades, 30% consideram que ela atende apenas parcialmente. As justificativas para essa percepção parcial são reveladoras e apontam para oportunidades de melhoria significativas. Esses gargalos sugerem que, para maximizar a eficácia do programa, é preciso um esforço contínuo de atualização curricular e metodológica, bem como um fortalecimento da articulação entre teoria e prática. Essa necessidade de maior articulação é reforçada pelos dados sobre a percepção da integração entre a formação teórica e a prática profissional. Sessenta por cento dos participantes consideram essa articulação “muito bem articulada”, enquanto 30% a veem como “parcialmente articulada” e 10% como “pouco articulada”.

A formação só se torna verdadeiramente significativa quando o jovem consegue conectar os conceitos aprendidos em sala de aula com as tarefas que executa no dia a dia da empresa. Uma articulação parcial ou fraca pode resultar em um aprendizado fragmentado, onde a teoria parece distante da prática e vice-versa. O fortalecimento dessa ponte é, portanto, um desafio central para a gestão dos programas de aprendizagem, exigindo um diálogo constante e um planejamento conjunto entre instrutores e supervisores nas empresas. Entre as competências técnicas, as mais destacadas pelos instrutores foram a “comunicação oral e escrita” e o “atendimento ao cliente”, ambas mencionadas por 70% dos respondentes. Essas habilidades são transversais e altamente valorizadas em praticamente todos os setores do mercado. No campo das competências comportamentais, o “trabalho em equipe” (90%) e a “responsabilidade” (80%) foram as mais citadas, seguidas de perto por pontualidade, autonomia e proatividade. (2018).

As mudanças comportamentais observadas nos jovens ao longo da formação são evidências concretas do impacto do programa. Os relatos dos instrutores descrevem uma trajetória de transformação: jovens que chegam inseguros e sem perspectivas e, ao longo do processo, desenvolvem autoconfiança, responsabilidade com prazos, proatividade e uma comunicação mais clara. Um dos relatos menciona um jovem que, após passar pelo programa, foi efetivado como colaborador na empresa onde atuava, exemplificando o potencial de transformação de vidas. Essas mudanças comportamentais, que incluem maior colaboração, respeito nas relações interpessoais e desenvolvimento de uma postura profissional, demonstram o sucesso do programa em cumprir os objetivos preconizados pela Lei do Jovem Aprendiz (Brasil, 2000), que visa a formação integral do sujeito. O impacto social do programa é outra dimensão de destaque. Oitenta por cento dos instrutores consideram que o programa contribui “muito” para a inclusão social dos jovens.

As justificativas apontam que, ao possibilitar a primeira entrada qualificada no mercado de trabalho, o programa fortalece a condição econômica, a autoestima e o potencial profissional dos participantes. Além disso, foi mencionado que a formação mantém os jovens engajados em atividades produtivas, afastando-os de situações de risco como a criminalidade, e promove a socialização em ambientes coletivos. Essa percepção está alinhada com estudos que veem programas de formação profissional como ferramentas de promoção da equidade e da cidadania (Souza et al., 2020; Bezerra et al., 2022). A formação teórica, nesse contexto, é fundamental para o desenvolvimento do senso crítico, com 100% dos respondentes concordando que ela contribui para essa finalidade, ao ampliar a visão de mundo dos jovens e incentivá-los a analisar, questionar e propor soluções para problemas cotidianos. Finalmente, a pesquisa aponta para o papel do programa como um vetor de mobilidade social.

Noventa por cento dos instrutores concordam que a experiência favorece a mobilidade social e amplia as perspectivas futuras dos jovens. O conceito de mobilidade social, conforme definido por Freitas (2021), refere-se à possibilidade de indivíduos melhorarem sua posição socioeconômica em relação à de sua família de origem. Ao oferecer qualificação, experiência profissional e uma rede de contatos, o programa Jovem Aprendiz quebra barreiras e cria oportunidades que muitos desses jovens não teriam de outra forma. As observações finais dos instrutores, que mesclam a gratificação de ver a evolução dos jovens com a frustração pelo desinteresse de alguns, pintam um quadro realista e humano do desafio que é a formação juvenil. A percepção de que a formação teórica, aliada à escuta ativa, é fundamental para despertar o potencial dos jovens, resume a importância estratégica desse componente no programa.

A discussão integrada destes resultados, à luz da literatura sobre juventude e trabalho precário (Silva, 2023) e políticas de acolhimento (Leal e Alberto, 2021), reforça a necessidade de fortalecer continuamente essas políticas públicas. A pesquisa evidenciou que a formação teórica, no âmbito dos programas de Jovem Aprendiz analisados, desempenha um papel essencial e multifacetado que transcende a mera preparação técnica para o trabalho. Os resultados demonstram que a integração bem-sucedida entre teoria e prática fortalece a autonomia, a autoestima e a inserção social dos jovens, funcionando como um poderoso mecanismo de inclusão e ampliando significativamente suas perspectivas de futuro e potencial de mobilidade social. A formação teórica, portanto, se consolida como um pilar para a efetividade do programa, contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes e profissionais mais qualificados. Apesar da relevância confirmada, o estudo também apontou desafios e limitações importantes.

Identificou-se a necessidade de uma constante atualização das metodologias de ensino, buscando maior dinamismo e interatividade, bem como um ajuste mais fino dos conteúdos programáticos à realidade dinâmica e às exigências do mercado de trabalho contemporâneo. É fundamental ressaltar que os achados desta pesquisa refletem a percepção de um grupo restrito de dez instrutores atuantes em uma única cidade, uma limitação metodológica imposta pelo pequeno contingente de profissionais que desempenham essa função no contexto investigado. Essa especificidade impede a generalização dos resultados para outros municípios ou realidades institucionais.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a formação teórica, na percepção dos instrutores, constitui um pilar indispensável no programa Jovem Aprendiz, influenciando positivamente o desenvolvimento profissional, a inclusão social e a formação cidadã dos jovens.

Referências:
Bardin, L. 2011. Análise de conteúdo. Edições 70, São Paulo, SP, Brasil.
Bezerra, F. W. C. 2022. Gestão da diversidade nas organizações: uma breve revisão bibliográfica. Research, Society and Development 11(11): 1-12.
Brasil. 2000. Lei nº 10.097, de 19 de dezembro de 2000. Altera dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Diário Oficial da União, Brasília, 20 dez. 2000. Seção 1, p. 1.
Castro, E.; Oliveira, U. T. V. 2022. A entrevista semiestruturada na pesquisa qualitativa-interpretativa: um guia de análise processual. Entretextos 22(3): 25-45.
Costa, D. A.; Montanhara, R. 2021. Políticas públicas de juventude e inclusão produtiva: uma análise da aprendizagem profissional. Revista Brasileira de Políticas Públicas 11(2): 114-132.
Freitas, A. A. 2021. Bem-estar e estratificação social no Brasil contemporâneo. Revista Brasileira de Sociologia 9(22): 196-221.
Leal, N. S. B., Alberto, M. F. P. 2021. Políticas de acolhimento e juventude: a problemática de inserção na formação profissional. Psicologia: Ciência e Profissão 41: 1-16.
Silva, J. H. 2023. Trajetórias de trabalho: empregos precários e inserções provisórias. Pro-Posições 34: 1-31.
Souza, A. C. S. et al. 2020. O valor da diversidade nas organizações: um mero discurso ou uma experiência efetiva. Revista Valore 5: 371-383.
Souza, M. A. et al. 2021. Pesquisa bibliográfica: fundamentos e aplicações. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento 2(30): 50–65.
Wanzeler, R. et al. 2018. Gestão de pessoas: visão estratégica sobre treinamento e desenvolvimento no contexto das organizações do século XXI. Revista de Administração e Negócios da Amazônia 10(2): 67-84.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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