Imagem Impacto de métodos de depreciação nos resultados de locadoras de veículos

30 de janeiro de 2026

Impacto de métodos de depreciação nos resultados de locadoras de veículos

Bruno Samuel Borges; Leila Chaves Cunha

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo desta pesquisa é avaliar o efeito de diferentes métodos de cálculo da depreciação da frota de uma empresa de locação de veículos sobre a apuração do resultado. A escolha do método de depreciação é uma decisão estratégica que transcende a conformidade contábil, influenciando a valoração de ativos, a base de cálculo de tributos, o fluxo de caixa e a capacidade da organização de atrair investimentos. Este estudo busca fornecer uma base empírica para que gestores tomem decisões informadas, alinhando a prática contábil aos objetivos estratégicos de longo prazo da organização para maximizar o valor para os acionistas e manter a competitividade.

A gestão de ativos é um pilar para o sucesso empresarial, especialmente no setor de transportes; os veículos são o principal ativo operacional (Dutra, 2023). Conforme o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC 00, 2019), um ativo é um recurso controlado pela entidade do qual se esperam benefícios econômicos futuros. Veículos, como ativos imobilizados, são essenciais para as operações e seu valor contábil deve refletir sua capacidade de gerar tais benefícios (Pereira, 2024). A depreciação representa a alocação sistemática do custo de um ativo ao longo de sua vida útil, reconhecendo a perda de valor por desgaste, obsolescência ou ação do tempo (Santos et al., 2022).

A depreciação pode ser classificada em três tipos: física, resultante do desgaste natural; funcional, decorrente do avanço tecnológico; e econômica, influenciada por fatores externos de mercado (Silva e Oliveira, 2018). Para uma empresa de locação de veículos, a gestão da depreciação é um dos fatores mais impactantes na lucratividade, pois afeta o custo total de propriedade e o valor de revenda da frota, sendo determinante para o sucesso da operação (Guimarães, 2008).

A literatura contábil tem dedicado atenção aos efeitos dos métodos de depreciação. Silva et al. (2021) demonstraram que a não evidenciação correta da depreciação no setor público pode levar a uma superavaliação do patrimônio líquido, comprometendo a fidedignidade das informações. Guimarães (2008) comparou diversos métodos e constatou uma diferença significativa entre o valor residual contábil e o valor de mercado dos veículos, reforçando a necessidade de reavaliações periódicas. Adicionalmente, Freitas et al. (2007) identificaram que a escolha do método de depreciação impacta o imposto de renda e o fluxo de caixa, podendo o método da soma dos dígitos otimizar o Valor Presente Líquido (VPL) de um projeto ao antecipar despesas dedutíveis.

Esta pesquisa foca no setor de locação de veículos, comparando o método linear, atualmente em uso pela empresa-alvo, com os métodos de Cole (soma dos dígitos) e exponencial. A contribuição da análise reside na demonstração de como a seleção de um método depreciativo pode ser uma ferramenta de gestão estratégica para otimizar a carga tributária e melhorar a apresentação dos resultados financeiros. A investigação preenche uma lacuna ao aplicar esses modelos a um conjunto de dados reais de uma grande empresa do setor, oferecendo uma análise contextualizada para gestores e acadêmicos.

Trata-se de um estudo de caso descritivo e exploratório, com abordagem qualiquantitativa. A natureza exploratória busca aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno, enquanto o caráter descritivo visa caracterizar o impacto da depreciação no desempenho financeiro (Yin, 2015; Gil, 2017). A abordagem qualiquantitativa integra a análise de dados numéricos com a interpretação qualitativa das implicações gerenciais (Knechtel, 2014). O uso de técnicas padronizadas para coleta e análise de dados garante a replicabilidade dos achados (Coimbra e Martins, 2013).

O objeto de estudo é uma empresa de locação de automóveis sem condutor, sediada em Goiânia, Goiás, com filiais em outros três estados. A organização possui uma frota de mais de 3.000 veículos, incluindo carros populares, de luxo, motocicletas, picapes e caminhões, atendendo clientes governamentais (B2G), pessoas físicas (B2C) e jurídicas (B2B). Os dados primários foram extraídos dos relatórios financeiros e da base de dados de veículos da empresa via seu sistema ERP, incluindo chassi, placa, modelo, data e valor de aquisição, e data de venda.

Foram adotados três métodos de cálculo de depreciação. O primeiro é o método linear, que distribui o valor depreciável de forma uniforme ao longo da vida útil e é o único autorizado pela legislação do Imposto de Renda no Brasil (Dutra, 2023). O segundo é o método de Cole (soma dos dígitos dos anos), que resulta em quotas de depreciação decrescentes, maiores nos primeiros anos (Silva e Oliveira, 2018). O terceiro é o método exponencial (saldo decrescente), que aplica uma taxa fixa sobre o valor contábil do ativo, também resultando em despesas maiores nos períodos iniciais (Gelbcke et al., 2018).

Os dados foram tratados e analisados no Microsoft Excel. A base extraída do ERP foi submetida a um processo de limpeza, removendo veículos vendidos até 31 de dezembro de 2023 e tratando inconsistências. Foram criadas colunas para calcular o tempo de atividade de cada veículo, com foco no ano de 2024. Para cada método, foram desenvolvidas planilhas de cálculo específicas. No método linear, aplicaram-se as alíquotas de 33% ao ano (fiscal) e 14,3% ao ano (gerencial). Nos métodos de Cole e exponencial, os cálculos foram estruturados para refletir a redução anual do valor do ativo. Por fim, os valores de depreciação calculados foram aplicados à Demonstração de Resultados do Exercício (DRE) de 2024 para comparar o impacto de cada modelo sobre o lucro.

A análise foi contextualizada por uma cisão societária ocorrida no segundo semestre de 2024, que dividiu a carteira de clientes e a frota. Este evento limitou o acesso a dados de períodos anteriores, focando o estudo em 2024. Em decorrência da cisão, a empresa adquiriu 1.712 veículos novos, representando 57% da frota ativa no final do ano. Este investimento influenciou substancialmente os valores de depreciação. A frota total analisada compreendeu 3.605 veículos adquiridos entre 2020 e 2024, com 3.028 ativos em 31 de dezembro de 2024. A composição heterogênea da frota, com valores de aquisição de R$ 11.859,00 a R$ 624.431,02, também contribuiu para a magnitude dos valores.

A empresa adota uma estratégia dual de depreciação linear. Para fins gerenciais, utiliza uma alíquota de 14,3% ao ano (vida útil de 7 anos) para manter um valor contábil mais elevado nos ativos, fortalecendo o balanço patrimonial. Para fins fiscais, aplica uma depreciação acelerada de 33% ao ano (vida útil de 3 anos), baseada em laudo técnico do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), para maximizar a recuperação de créditos de PIS (1,65%) e COFINS (7,6%). A comparação dos valores anuais de 2024 evidencia a disparidade: a depreciação fiscal totalizou R$ 101.551.788,94, enquanto a gerencial somou R$ 43.522.195,26, uma diferença de R$ 58.029.593,68.

Essa diferença estratégica se traduz em benefícios de caixa. Com o método linear fiscal, a empresa apurou um crédito fiscal anual de PIS e COFINS de R$ 9.393.540,48. Se utilizasse o método gerencial, o crédito seria de R$ 4.025.803,06. A abordagem fiscal adotada gera uma recuperação de crédito 233% superior, otimizando o fluxo de caixa e financiando a renovação da frota, prática essencial para a competitividade no setor.

A análise dos métodos alternativos revelou novos insights. O método exponencial, com alíquota fiscal de 33%, gerou uma depreciação anual de R$ 80.268.273,63, e o método de Cole resultou em R$ 63.164.746,12. Ambos são inferiores à depreciação linear fiscal de R$ 101,5 milhões. Isso ocorre porque a taxa de 33% aplicada de forma constante sobre o custo de aquisição, especialmente em uma frota com muitos veículos novos, gera uma despesa maior nos primeiros anos. Portanto, para maximizar créditos fiscais no curto prazo, o método linear fiscal em uso é o mais vantajoso.

Para fins gerenciais, o cenário é distinto. O método linear gerencial (14,3%) resultou em uma depreciação de R$ 43,5 milhões. O método de Cole gerou uma despesa de R$ 63,1 milhões, um valor maior que depreciaria o ativo mais rapidamente, contrariando o objetivo de apresentar um balanço robusto. O método exponencial gerencial (14,3%), por outro lado, resultou na menor depreciação anual entre todos os cenários: R$ 39.070.308,40, valor R$ 4,45 milhões menor que o do método linear gerencial. Essa redução na despesa impacta positivamente o resultado, tornando o método exponencial a opção mais atrativa para a demonstração a investidores e credores.

A variação mensal entre os métodos reforça essas conclusões. O método linear fiscal gerou consistentemente uma depreciação mensal maior que os de Cole e exponencial, confirmando sua superioridade para fins fiscais. Na esfera gerencial, a comparação entre o linear e o exponencial mostrou que o método exponencial resultou em uma despesa de depreciação consistentemente menor em todos os meses. Essa característica torna o método exponencial ideal para a estratégia gerencial, pois permite uma valorização mais lenta do ativo no balanço, o que pode se traduzir em melhores condições de financiamento.

O impacto final sobre a DRE de 2024 quantifica a relevância da escolha. Com o método linear gerencial, a empresa registrou um prejuízo líquido de R$ 31,12 milhões. Se o método de Cole fosse aplicado, o prejuízo seria maior, atingindo R$ 48,95 milhões. Em contrapartida, a aplicação do método exponencial gerencial resultaria no menor prejuízo líquido, de R$ 27,08 milhões. Embora todos os cenários resultem em prejuízo, devido ao alto investimento na renovação da frota, a diferença de mais de R$ 21 milhões entre o pior (Cole) e o melhor (Exponencial) cenário gerencial é expressiva.

A escolha do método de depreciação é uma decisão estratégica com consequências financeiras substanciais. Para a empresa estudada, a análise demonstra que a prática atual de usar o método linear para fins fiscais é a mais acertada para otimizar o fluxo de caixa via créditos tributários. No entanto, para a apresentação de resultados gerenciais, a migração do método linear para o exponencial poderia melhorar significativamente o resultado líquido reportado. Essa melhoria, aliada a um valor de ativo imobilizado que se reduz mais lentamente, posicionaria a empresa de forma mais favorável na captação de recursos financeiros.

A avaliação dos métodos de depreciação demonstrou que a estratégia ótima para a empresa analisada envolve uma abordagem dual. O método linear, com alíquota acelerada de 33%, é a ferramenta mais eficaz para fins fiscais, maximizando a recuperação de créditos de PIS e COFINS e melhorando o fluxo de caixa. Para fins gerenciais, o método exponencial, com alíquota de 14,3%, emerge como a opção mais vantajosa, pois resulta na menor despesa de depreciação, levando a um melhor resultado líquido e à manutenção de maior valor contábil dos ativos. Esta combinação otimiza a eficiência tributária e a apresentação da saúde financeira da empresa a stakeholders. O estudo ressalta o papel do profissional contábil na definição de políticas que alinhem a escrituração às estratégias de negócio. As limitações do estudo, como o curto período de análise e a cisão societária, sugerem pesquisas futuras que abranjam um ciclo operacional completo e comparem os resultados com outras empresas do setor.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o método linear é o mais vantajoso para a apuração fiscal, enquanto o método exponencial apresenta os melhores resultados para a apuração gerencial na empresa analisada.

Referências:
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Knechtel, M. R, 2014. Metodologia da pesquisa em educação: uma abordagem teórico-prática dialogada. Curitiba, PR: Inter saberes.
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Yin, Robert K, 2015. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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