Resumo Executivo

19 de maio de 2026

Viabilidade econômica da produção de ovos em sistema cage-free

Afonso Henrique Junqueira de Andrade Júnior; Ana Carolina Benites Aquino

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A avicultura de postura representa um dos pilares fundamentais da agroindústria brasileira, consolidando-se como uma atividade essencial para a segurança alimentar e a economia nacional. Segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA, 2024), a produção de ovos no Brasil tem demonstrado resiliência e crescimento contínuo, impulsionada tanto pela demanda interna quanto pela modernização dos processos produtivos. O estado de São Paulo mantém a liderança na produção nacional, concentrando uma parcela significativa do plantel de poedeiras do país (IBGE, 2022a). No entanto, o setor enfrenta transformações profundas motivadas por novas exigências dos consumidores e por pressões regulatórias internacionais que priorizam o bem-estar animal. A transição de sistemas de produção em gaiolas convencionais para modelos alternativos, como o cage free, reflete uma tendência global de sustentabilidade e ética na produção de alimentos. Na Europa, a proibição do uso de gaiolas convencionais estabeleceu um novo paradigma produtivo, influenciando mercados emergentes a adotarem práticas que permitam a expressão do comportamento natural das aves. No Brasil, embora a legislação ainda permita diversos sistemas, observa-se uma movimentação voluntária de grandes redes de varejo e indústrias de alimentos em direção ao compromisso de adquirir apenas ovos de sistemas livres de gaiolas em um futuro próximo. Essa mudança de comportamento do mercado exige que os produtores avaliem criteriosamente a viabilidade econômica e técnica de novos empreendimentos, considerando que sistemas alternativos demandam investimentos iniciais distintos e apresentam estruturas de custos operacionais específicas (Godinho Júnior et al., 2022). A análise de viabilidade financeira torna-se, portanto, o instrumento central para a tomada de decisão, permitindo projetar o retorno sobre o capital investido e identificar os riscos inerentes à atividade (Assaf Neto, 2018). O objetivo deste estudo consiste em avaliar a viabilidade técnica, mercadológica e econômico-financeira da implantação de uma granja de galinhas poedeiras em sistema livre de gaiolas na região de Barretos, São Paulo, visando diversificar as atividades produtivas de uma propriedade rural e atender a um nicho de mercado em expansão.

A fundamentação metodológica deste estudo baseia-se em uma pesquisa aplicada com abordagem mista, integrando análises qualitativas e quantitativas para compor um diagnóstico abrangente da viabilidade do projeto. O delineamento seguiu a estrutura de um estudo de caso centrado na Fazenda São Francisco da Prata, localizada em Barretos, São Paulo. A coleta de dados técnicos e operacionais foi realizada por meio de levantamentos diretos na propriedade e consultas a manuais de manejo e normas técnicas vigentes. Para a análise da viabilidade técnica, consideraram-se as diretrizes de biosseguridade e infraestrutura estabelecidas pela ABNT NBR 16437 (ABNT, 2016a) e as recomendações de boas práticas de produção (Embrapa, 2016). O dimensionamento do plantel foi fixado em 8000 aves, distribuídas em quatro galpões de 2000 aves cada, operando em um sistema de escalonamento 3:1, com entradas de novos lotes a cada 26 semanas e descarte na 103ª semana de vida. A análise mercadológica foi conduzida por meio de uma pesquisa de campo com 187 respondentes, utilizando um questionário estruturado aplicado via plataformas digitais entre abril e junho de 2025. A amostragem não probabilística por conveniência buscou identificar o perfil do consumidor, suas preferências de compra, disposição a pagar e percepção sobre sistemas de criação alternativos. Os dados financeiros foram processados através de modelagem em planilhas eletrônicas, utilizando como base a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) e a Demonstração dos Fluxos de Caixa (CPC, 2011). Os indicadores de rentabilidade e lucratividade incluíram o Valor Presente Líquido (VPL), a Taxa Interna de Retorno (TIR), o Retorno sobre o Investimento (ROI) e o Payback simples e descontado, todos calculados sob uma Taxa Mínima de Atratividade (TMA) nominal de 15% ao ano (Assaf Neto, 2020). A projeção financeira abrangeu um horizonte de cinco anos, considerando o fluxo de caixa livre para o projeto (unlevered). Adicionalmente, realizou-se uma análise estratégica baseada na matriz SWOT para identificar forças, fraquezas, oportunidades e ameaças, permitindo uma visão holística do ambiente de negócios (Brealey et al., 2019). O detalhamento operacional incluiu a cotação de insumos, equipamentos, mão de obra especializada e custos regulatórios, garantindo que as projeções refletissem as condições reais do mercado regional de Barretos.

Os resultados técnicos indicam que a área de 0,93 ha disponível na Fazenda São Francisco da Prata possui características edafoclimáticas favoráveis à avicultura de postura. A topografia com declividade inferior a 3% facilita a drenagem natural e a movimentação de máquinas, enquanto o clima da região, com temperatura média de 22 a 23 °C, é compatível com o sistema cage free, desde que assegurado o sombreamento adequado (Rolim et al., 2007). A infraestrutura projetada contempla galpões construídos com pilares de eucalipto tratado, alvenaria de 0,40 m e cobertura com telhas sanduíche, visando o isolamento térmico. Cada galpão possui um piquete rotacionável de 300 m², garantindo uma densidade efetiva de duas aves por metro quadrado, conforme preconizado pelas normas de bem-estar animal (ABNT, 2016b). O sistema de biosseguridade foi detalhado para incluir barreiras sanitárias rigorosas, como pedilúvios com cal virgem em todas as entradas, controle rigoroso de visitantes e veículos, e um vazio sanitário mínimo de 14 dias entre lotes. A gestão de resíduos prevê a compostagem impermeabilizada para carcaças e o curtimento do esterco por pelo menos 120 dias antes da aplicação agrícola, promovendo a circularidade de nutrientes na propriedade (Embrapa, 2020). No âmbito mercadológico, a pesquisa revelou que 50,8% dos consumidores residem no interior de São Paulo e possuem alto nível educacional, com 45,5% apresentando pós-graduação. A preferência por ovos de casca marrom foi manifestada por 38,5% dos entrevistados, e o tamanho grande foi o mais valorizado por 41,2% da amostra. Um dado relevante é que 44,9% dos respondentes declararam disposição a pagar um prêmio de preço por produtos oriundos de sistemas que respeitem o bem-estar animal, evidenciando a existência de um nicho de mercado com elasticidade positiva para o valor agregado. No entanto, o supermercado permanece como o canal de compra dominante para 74,9% dos consumidores, o que exige estratégias de distribuição eficientes para alcançar o público-alvo.

A análise econômico-financeira revelou um investimento inicial total (CAPEX) de R$ 1.373.533,17, concentrado majoritariamente em construções civis e equipamentos logísticos. No primeiro ano de operação, a receita líquida de R$ 256.230,00 não foi suficiente para cobrir os custos variáveis de R$ 305.302,16, resultando em uma margem de contribuição negativa de 19%. Esse cenário é característico do período de ramp-up, onde a produção ainda não atingiu a escala plena e os custos de entrada são elevados (Damodaran, 2012). A partir do segundo ano, com a estabilização do plantel em 8000 aves, a receita líquida projetada sobe para R$ 1.264.305,80, e a margem de contribuição estabiliza-se entre 43% e 44%. O custo da ração emergiu como o principal componente do custo variável, representando entre 74% e 79% das saídas operacionais, o que torna o projeto altamente sensível às variações nos preços do milho e do farelo de soja. Os custos fixos, incluindo mão de obra para dois tratadores, um classificador e um supervisor, além de despesas administrativas e regulatórias, totalizam aproximadamente R$ 222.500,00 por ano. O ponto de equilíbrio financeiro foi estimado em R$ 522.305,65 por ano, o que equivale a aproximadamente 36% da capacidade produtiva instalada, indicando uma margem de segurança operacional confortável após a fase inicial. Apesar da eficiência operacional demonstrada pelo EBITDA positivo a partir do segundo ano, os indicadores de valor sinalizaram desafios. O Valor Presente Líquido (VPL) resultou em um saldo negativo de R$ 682.382,62 ao final de cinco anos, e a Taxa Interna de Retorno (TIR) foi de -0,89% ao ano, situando-se abaixo da TMA de 15%. O ROI acumulado em cinco anos foi de 111,6%, o que demonstra que o projeto gera caixa, mas não em velocidade suficiente para remunerar o custo de oportunidade do capital no horizonte analisado (Bianchini, 2014).

A discussão dos resultados evidencia uma ambivalência entre a eficiência técnica e a atratividade financeira. Do ponto de vista operacional, o projeto é robusto, apresentando uma conversão de caixa de aproximadamente 26% da receita líquida em regime de cruzeiro. A estrutura de margens é saudável e comparável a outros estudos de sistemas alternativos (Taborda, 2022). Entretanto, a intensidade do capital investido inicialmente e o arrasto provocado pela necessidade de capital de giro no início do ciclo de crescimento penalizam severamente o VPL. O consumo de capital de giro atinge seu pico em R$ 85.800,97, representando cerca de 21 dias de faturamento. A literatura financeira destaca que projetos intensivos em ativos fixos e com ciclos de ramp-up longos frequentemente apresentam VPL negativo em horizontes de curto prazo, especialmente quando não se considera o valor residual dos ativos ao final do período (Yescombe, 2014). A análise de sensibilidade demonstrou que pequenas variações no preço de venda do ovo ou na eficiência alimentar podem alterar significativamente o cenário. Um acréscimo de apenas R$ 0,05 por ovo elevaria o VPL para patamares positivos, evidenciando que a viabilidade financeira está fortemente atrelada à capacidade de captura de prêmio de preço no mercado de varejo. A redução de 10% no custo da ração também teria um impacto positivo substancial, reforçando a necessidade de estratégias de hedge ou contratos de suprimento de longo prazo para mitigar a volatilidade das commodities (Kumano, 2018). As limitações do estudo incluem o uso de uma amostra de conveniência na pesquisa de mercado e a adoção de preços constantes, que não consideram as flutuações inflacionárias. Pesquisas futuras poderiam explorar o uso de fontes de energia renovável, como a fotovoltaica, para reduzir os custos fixos, e a monetização de subprodutos, como o esterco processado, para diversificar as fontes de receita (Mizumoto, 2004). A integração vertical ou a formação de cooperativas também surgem como alternativas para diluir os custos logísticos e aumentar o poder de negociação junto aos fornecedores de insumos.

A análise estratégica via matriz SWOT reforça que a principal força do empreendimento reside na sua aderência técnica e rigorosa biosseguridade, o que minimiza riscos sanitários como a influenza aviária e garante a qualidade do produto final. A localização estratégica em Barretos permite o acesso a um mercado consumidor com alto poder aquisitivo e consciência ambiental. Por outro lado, a dependência excessiva do custo da ração e a necessidade de um alto investimento inicial são fraquezas críticas que exigem uma gestão financeira austera. As oportunidades de certificação cage free e o uso de tecnologias como o QR code para rastreabilidade e storytelling podem ser exploradas para consolidar a marca e justificar o prêmio de preço junto ao consumidor final (Kakimoto, 2011). As ameaças externas, como a volatilidade dos preços das commodities e a concorrência de grandes produtores integrados, devem ser monitoradas continuamente. A utilização de ferramentas de gestão de risco e a busca por linhas de crédito rural com taxas subsidiadas, como o PRONAMP, podem melhorar significativamente os indicadores de rentabilidade ao reduzir o custo médio ponderado de capital (Brealey et al., 2019). A adoção de um sistema de amortização constante (SAC) para o financiamento de 60% do CAPEX, conforme modelado, permite uma redução gradual das despesas financeiras, favorecendo o lucro líquido nos anos finais do projeto. Em síntese, a viabilidade do projeto não é absoluta, mas condicional à execução de uma estratégia comercial agressiva e a uma gestão de custos eficiente. A convergência entre a demanda por alimentos sustentáveis e a eficiência técnica operacional cria um ambiente propício para o sucesso do empreendimento, desde que o produtor esteja preparado para suportar o período de maturação do investimento e as oscilações do mercado de insumos (Dos Santos e Vasan, 2015).

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a implantação da granja em sistema cage free na Fazenda São Francisco da Prata é tecnicamente viável e operacionalmente eficiente, apresentando margens operacionais positivas e conformidade com as normas de bem-estar animal e biosseguridade. No entanto, a viabilidade econômico-financeira no cenário-base de cinco anos mostrou-se sensível, com VPL negativo e TIR abaixo da taxa de atratividade, devido ao elevado investimento inicial e à dependência dos custos de alimentação. A atratividade do negócio depende fundamentalmente da capacidade de capturar prêmios de preço superiores a R$ 0,05 por ovo em relação ao modelo base e da implementação de estratégias de mitigação de custos de insumos, sugerindo que o projeto é promissor para investidores que buscam posicionamento estratégico em mercados de valor agregado e possuem horizonte de retorno de longo prazo.

Referências Bibliográficas:

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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