IA aplicada ao esporte

Coluna

Inovação

20 de março de 2026

IA aplicada ao esporte

Como a tecnologia está redefinindo os limites físicos humanos

A convergência entre o desenvolvimento de software de ponta e o atletismo de elite inaugurou uma era onde a vitória não é decidida apenas no campo, mas em clusters de GPU e pipelines de dados em tempo real. A IA aplicada ao esporte deixou de ser uma ferramenta experimental para se tornar a espinha dorsal de equipes da NBA, escuderias de Fórmula 1 e laboratórios olímpicos. Para profissionais de tecnologia, esse cenário representa um dos maiores desafios de engenharia: processar fluxos massivos de dados não estruturados (vídeo, sensores IoT, telemetria) e transformá-los em insights acionáveis em milissegundos.

Neste artigo, exploraremos como as arquiteturas de machine learning, sistemas de visão computacional e infraestruturas em nuvem estão redefinindo os limites físicos humanos e transformando o esporte em um campo de dados vivos. Analisaremos casos reais, como o uso de serviços de computação em nuvem na NBA — liga de basquete dos Estados Unidos — para medir a probabilidade de cestas e a parceria estratégica entre Mercedes e Microsoft na F1.

A Física do movimento

Um dos campos mais fascinantes da IA aplicada ao esporte é a biomecânica preditiva. Pesquisadores do MIT Sports Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, estão usando algoritmos avançados para responder a perguntas que desafiam a física tradicional, como a possibilidade de patinadores artísticos realizarem um salto quíntuplo (cinco rotações no ar).

A patinação artística é, por natureza, um esporte de dados estéticos e físicos. Segundo estudos recentes do MIT, a IA ajuda a mapear a diferença entre novatos e especialistas através da análise de dados de torque, velocidade angular e momento de inércia. A grande questão técnica aqui é o uso de modelos de deep learning para biomecânica, que conseguem identificar padrões imperceptíveis ao olho humano. Para um desenvolvedor de visão computacional, o desafio é o pose estimation em altas velocidades de rotação, onde o desfoque de movimento pode corromper os dados.

Utilizando redes neurais convolucionais (CNNs) e modelos de detecção de pontos-chave, os pesquisadores conseguem reconstruir o esqueleto do atleta em 3D. Isso permite calcular exatamente quanta energia é necessária para completar a quinta rotação. A visão do MIT é que, em breve, veremos esses saltos sendo executados com o auxílio de treinamentos baseados em simulações digitais, onde o atleta “aprende” a trajetória ideal gerada pela IA antes mesmo de tentar no gelo.

NBA e machine learning

A National Basketball Association (NBA) elevou a IA aplicada ao esporte a um novo patamar de consumo de massa e análise tática. Através de uma parceria robusta com a Amazon Web Services (AWS), a liga agora utiliza modelos de ML para medir a probabilidade de um arremesso virar cesta em tempo real.

Diferentemente dos sistemas antigos, que rastreavam apenas o centro de massa do jogador, a nova plataforma utiliza câmeras de alta fidelidade que mapeiam 29 pontos de dados no corpo de cada atleta. Isso cria um “gêmeo digital” em movimento constante. Para engenheiros de dados, o desafio de infraestrutura é enorme: coletar esses pontos de 10 jogadores, mais a bola, a 60 frames por segundo, e processar tudo via AWS SageMaker — plataforma que facilita a criação, o treinamento e o uso de modelos de IA — para gerar uma probabilidade estatística instantânea.

A plataforma analisa a posição da quadra, a distância do defensor mais próximo (utilizando algoritmos de geometria espacial) e o histórico de aproveitamento do atleta. Isso não serve apenas para o entretenimento nas transmissões — como destacado pelo Canaltech — mas também fornece aos treinadores uma análise prescritiva sem precedentes, sugerindo quais arremessos são estatisticamente mais eficientes em determinadas situações de jogo.

F1 e Dados

Se existe um esporte que é puramente uma competição de software, é a Fórmula 1. A parceria de décadas entre Mercedes e Microsoft foi recentemente expandida para integrar IA e tecnologias de nuvem em todas as facetas da equipe.

Um carro de F1 moderno gera gigabytes de dados por volta, provenientes de centenas de sensores de temperatura, pressão e fluxo aerodinâmico. A IA aplicada ao esporte automotivo utiliza edge computing para processar dados críticos localmente, e a nuvem Azure, para simulações complexas de estratégia. O objetivo é criar modelos de big data na Fórmula 1 que prevejam o desgaste dos pneus e o consumo de combustível com uma precisão de 99%.

Antes de cada GP, bilhões de simulações são executadas. A IA analisa variáveis como temperatura da pista, probabilidade de chuva e comportamento histórico dos rivais. Como relatado pela Máquina do Esporte, essa colaboração permite que a Mercedes utilize IA generativa e modelos preditivos para otimizar o design aerodinâmico e as janelas de pit stop, transformando a estratégia de corrida em um jogo de xadrez computacional.

A IA aplicada ao esporte transcendeu o simples registro de estatísticas para se tornar o motor de inovação do alto desempenho. Para os profissionais de software e dados, o esporte oferece um dos laboratórios mais dinâmicos do planeta, exigindo soluções que sejam robustas, escaláveis e, acima de tudo, rápidas. Desde a análise de um salto quíntuplo no MIT até a gestão de dados de uma escuderia de F1 como a Mercedes, a tecnologia está removendo a adivinhação do treinamento e da estratégia.

O futuro reserva uma integração ainda maior com a IA generativa, criando planos de treinamento personalizados dinamicamente e experiências de fãs hipersegmentadas através de sistemas de recomendação para engajamento de fãs. Se você é um desenvolvedor ou cientista de dados, este é o momento de aplicar suas habilidades em um campo onde o código realmente impacta a realidade física e emocional de milhões. O esporte não é mais apenas sobre quem treina mais, mas sobre quem processa melhor.

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui

Quem publicou esta coluna

Guilherme Lima

É desenvolvedor de software e professor, bacharel em Sistemas de Informação com pós-graduação em Data Science. Atua na criação de sistemas modernos e na integração de Inteligência Artificial para otimização de fluxos e experiência do usuário. É professor de tecnologia no MBA da USP/ESALQ, capacitando pessoas em IA, desenvolvimento Fullstack e automação, com o propósito de utilizar a tecnologia para resolver problemas reais.

Você também pode gostar

22 de outubro de 2026

Jornada do Consumidor na Decisão de Compra de Infoprodutos no Ambiente Digital

A expansão do comércio eletrônico e a transformação tecnológica impulsionaram a necessidade de compreender o comportamento do consumidor de infoprodutos, cuja experiência percebida tornou-se crucial para o desenvolvimento profissional. O estudo objetivou analisar os fatores que influenciaram a decisão de compra de infoprodutos no ambiente digital, considerando as etapas da jornada do consumidor. Realizou-se uma pesquisa aplicada, quantitativa e descritiva, por meio de um levantamento de campo com 100 consumidores da Serra Gaúcha. A coleta de dados ocorreu via questionário estruturado, utilizando amostragem não probabilística. Os resultados revelaram um público qualificado e com forte comportamento “mobile-first”. Constatou-se que a disponibilidade de informações detalhadas e a aprovação social foram os principais gatilhos de atração na fase de pré-compra. Nas etapas transacionais e posteriores, a minimização de atritos operacionais, a agilidade do acesso imediato e a segurança sistêmica mostraram-se cruciais para a conversão e satisfação, embora lacunas na eficiência do suporte humano tenham sido identificadas. A retenção fundamentou-se na confiança gerada por experiências anteriores positivas, superando o fator preço. Concluiu-se que a jornada do consumidor de infoprodutos opera como um sistema integrado, exigindo alinhamento entre infraestrutura tecnológica, curadoria de conteúdo e humanização do suporte para assegurar o engajamento.

Palavras-chave: Comércio eletrônico; Comportamento do consumidor; Experiência do consumidor; Fidelização; Negócios virtuais.

22 de outubro de 2026

Observatório Digital da Amazônia: Ciência de Dados Aplicada à Análise de Indicadores Sociais, Econômicos, Ambientais e de Saúde

O estado do Amazonas enfrentou desafios históricos na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), decorrentes de barreiras geográficas, desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais. Descreveu-se, neste estudo, o desenvolvimento e a implementação de um geoportal de informações em saúde, concebido para apoiar o monitoramento, a avaliação e o planejamento no contexto amazônico. Adotou-se uma abordagem de estudo de caso descritivo, baseada em análise documental e dados secundários, abrangendo o mapeamento de funcionalidades, a infraestrutura técnica e as etapas de validação da ferramenta. O Portal foi desenvolvido com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e repositório digital de documentos. Entre os resultados, destacaram-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave, a possibilidade de análises comparativas temporais e a utilização da plataforma na revisão de planos de saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. O portal pode representar um avanço na governança digital e na gestão baseada em evidências, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade, desde que acompanhada de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional e articulação interinstitucional.

Palavras-chave: Amazônia; Avaliação em Saúde; Saúde Digital; Sistemas de Informação em Saúde.

22 de outubro de 2026

Aprendizado Contínuo como Fator de Crescimento Organizacional na Percepção dos Colaboradores

O impacto do aprendizado contínuo e da gestão do conhecimento no crescimento das organizações foi estudado em um cenário de globalização e constantes mudanças. O objetivo do estudo foi analisar a percepção dos colaboradores sobre a cultura de aprendizagem e sua importância para o desenvolvimento pessoal e profissional. Os dados foram obtidos por meio de uma pesquisa anônima, de abordagem quantitativa, utilizando um formulário com questões do tipo “survey” aplicado a 87 profissionais dos setores de tecnologia, saúde, educação, comércio e serviços. Os resultados indicaram que os colaboradores possuíam uma percepção positiva sobre a contribuição do aprendizado contínuo para o crescimento pessoal e organizacional, reconhecendo seus benefícios para o desenvolvimento de novas habilidades, inovação e competitividade. Contudo, observou-se que o incentivo à troca de conhecimento interno e a oferta de treinamentos práticos ainda apresentavam médias moderadas de concordância. Concluiu-se que o aprendizado contínuo contribui significativamente para o desenvolvimento individual e organizacional, sugerindo que as empresas devem desenvolver políticas estratégicas de aprendizado direcionado para novas habilidades, visando maior vantagem competitiva e inovação.

Palavras-chave: Aprendizagem contínua; Autodesenvolvimento; Crescimento organizacional; Gestão do conhecimento; Inovação.

22 de outubro de 2026

Previsão da Inadimplência Agregada no Sistema Financeiro Brasileiro por Modelo Sarimax com Variáveis Macroeconômicas

A inadimplência agregada no sistema financeiro brasileiro é um indicador crucial de risco de crédito, cuja previsão é regulamentada pelas Resoluções CMN n.° 4.557/2017 e 4.966/2021 para a mensuração prospectiva de perdas esperadas. Modelou-se e previu-se a inadimplência agregada por meio do modelo SARIMAX, projetando sua trajetória até dezembro de 2026 sob cenários otimista, base e pessimista. Utilizaram-se 164 observações mensais (julho/2012 a fevereiro/2026) e variáveis macroeconômicas como desemprego, Selic, IPCA, IBC-Br e endividamento das famílias. A especificação com variáveis contemporâneas foi selecionada com base em critérios de informação e estabilidade dos coeficientes, e o diagnóstico dos resíduos confirmou adequação estatística, com MAPE de 3,12%. A inadimplência histórica variou entre 4,33% e 7,64%. A estimação identificou o desemprego (β = 0,2534; p < 0,001) e a Selic (β = 0,2128; p < 0,001) como principais determinantes positivos, com forte persistência temporal (AR(1) = 0,8965). A Selic exibiu correlação crescente com a inadimplência (r = 0,62 no lag 12), enquanto o desemprego demonstrou efeito contemporâneo (r = 0,33). As projeções indicaram inadimplência entre 6,30% e 7,98% em dezembro de 2026, com uma amplitude de 1,68 ponto percentual, evidenciando implicações diretas para o dimensionamento de provisões nas instituições financeiras. Palavras-chave: Desemprego; Modelagem preditiva; Política monetária; Provisão de perdas; Séries temporais.

22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

22 de outubro de 2026

Combate às Perdas Comerciais de Energia Elétrica Utilizando Modelo de Séries Temporais

As perdas comerciais de energia elétrica representaram um dos principais desafios para as distribuidoras, impactando diretamente a sustentabilidade econômica e a qualidade do fornecimento. Avaliou-se a eficiência de modelos de séries temporais, com foco em técnicas de suavização exponencial, na previsão do consumo faturado de unidades consumidoras, para apoiar a identificação de desvios associados a perdas não técnicas. Utilizaram-se dados históricos de consumo mensal de uma distribuidora de energia elétrica no Brasil, segmentados por perfis de comportamento (estacionariedade, tendência e sazonalidade). Aplicaram-se modelos de suavização exponencial simples, Holt e Holt-Winters (aditivo e multiplicativo), comparados a uma média móvel tradicional. O erro percentual absoluto médio (MAPE) foi o critério de avaliação. Adicionalmente, empregou-se a abordagem ETS para seleção automática do modelo e testes de diagnóstico dos resíduos, como Ljung-Box e análise da função de autocorrelação. Os resultados demonstraram que modelos mais robustos apresentaram maior capacidade de adaptação às características das séries e menor erro, com destaque para o desempenho superior em cenários com tendência. Para séries sazonais, o modelo ETS mostrou maior capacidade de adaptação a transições. Concluiu-se que a utilização de modelos de séries temporais mais estruturados contribuiu significativamente para a melhoria da acurácia das previsões e ofereceu suporte analítico relevante para a identificação de perdas comerciais e otimização de processos operacionais e comerciais no setor elétrico.

Palavras-chave: Distribuição de energia; MAPE; Otimização; Previsão de consumo; Suavização exponencial.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade