Resumo Executivo

19 de maio de 2026

Viabilidade econômica do lambari do rabo amarelo em viveiros escavados

Affonso Gama Souza Pinheiro; Carolina Silva da Trindade

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A aquicultura brasileira apresenta-se em um estágio de consolidação como uma das frentes mais dinâmicas para a produção de proteína animal, desempenhando um papel fundamental na segurança alimentar e no desenvolvimento econômico regional. No cenário da piscicultura nacional, a tilápia domina amplamente o volume produtivo, mas a diversificação com espécies nativas surge como uma oportunidade estratégica para atender nichos específicos, como o mercado de iscas vivas para a pesca esportiva. O lambari do rabo amarelo, cientificamente identificado como Astyanax lacustris, destaca-se por sua rusticidade, hábito alimentar onívoro e ciclo de vida curto, atingindo a maturidade sexual em aproximadamente quatro meses. Essas características biológicas permitem um manejo intensivo em sistemas de viveiros escavados, embora a viabilidade econômica de tais empreendimentos dependa de uma gestão rigorosa de custos e de uma análise detalhada dos indicadores financeiros. A nutrição representa um dos componentes mais onerosos da produção, podendo atingir proporções significativas dos custos operacionais totais, o que exige estratégias alimentares eficientes para garantir a rentabilidade (Abimorad e Carneiro, 2004). Além dos custos diretos, a sazonalidade das vendas e as oscilações nos preços dos insumos impõem desafios à sustentabilidade financeira de pequenos e médios produtores. Portanto, a análise da viabilidade econômica torna-se indispensável para subsidiar a tomada de decisão e minimizar os riscos inerentes à atividade aquícola em escala comercial.

O planejamento de uma unidade produtiva de lambari exige a definição precisa de parâmetros zootécnicos e estruturais que sustentem a projeção de resultados. Para a estruturação de um projeto hipotético localizado no município de Franca, no estado de São Paulo, considerou-se uma propriedade com área total de 41 hectares, selecionada estrategicamente pela disponibilidade de recursos hídricos e topografia favorável ao sistema de abastecimento por gravidade. A área geográfica de Franca, situada a cerca de 400 km da capital paulista, oferece condições climáticas adequadas para o desenvolvimento da espécie, permitindo a realização de dois ciclos produtivos anuais com duração de seis meses cada. A estrutura produtiva foi dimensionada para a construção de 41 tanques escavados, padronizados com 1500 m² de lâmina d’água cada, totalizando uma área produtiva de 6,15 hectares. O processo de construção de cada tanque demanda aproximadamente 22,5 horas de trabalho de máquinas pesadas, com um custo unitário estimado em R$ 7.499,93 por viveiro. Além da área de engorda, o projeto prevê cinco tanques destinados exclusivamente à manutenção de reprodutores, garantindo a autossuficiência na produção de alevinos e o controle genético do plantel.

A infraestrutura de apoio é composta por um galpão de depuração de 200 m², construído em alvenaria, equipado com dois tanques retangulares de 50000 litros cada, essenciais para o manejo pré-comercialização e limpeza do trato digestório dos peixes. Complementam as instalações um laboratório de reprodução de 25 m², um depósito de ração de 52 m² dimensionado para o armazenamento seguro dos insumos e uma garagem de 50 m² para a proteção da frota de veículos. A logística de transporte e entrega é suportada por um caminhão Volkswagen 8-150 E Delivery 2010, equipado com três tanques de 2000 litros e sistema de aeração, além de uma van Sprinter 313 Furgão para entregas rápidas e distribuição regional. Os equipamentos laboratoriais incluem pulsadores de pesca, incubadoras para manutenção de larvas, balanças de precisão e béqueres, todos quantificados para atender à demanda de produção de 6,15 milhões de lambaris por ano. A coleta de dados para a composição dos custos baseou-se em cotações de mercado atualizadas junto a fornecedores como NutriNorte para rações, VetBR para medicamentos e White Martins para oxigênio, além de consultas a órgãos oficiais como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA, 2025).

A metodologia financeira adotada para avaliar o empreendimento baseou-se na estruturação de fluxos de caixa projetados para um horizonte de cinco anos, utilizando indicadores de rentabilidade como o Valor Presente Líquido, a Taxa Interna de Retorno, a Relação Benefício-Custo e o payback descontado. A Taxa Mínima de Atratividade foi fixada em 14,5% ao ano, refletindo o custo de oportunidade e o risco associado ao setor aquícola (Assaf Neto, 2019). O cálculo da depreciação dos ativos imobilizados seguiu o método linear, considerando uma vida útil de 10 anos e um valor residual de 10% para máquinas, equipamentos e veículos. Os custos operacionais foram divididos em custos variáveis, que englobam ração, alevinos, energia elétrica e insumos de reprodução, e custos fixos, que incluem mão de obra permanente, manutenção, impostos territoriais e despesas administrativas. O enquadramento tributário foi definido pela quinta faixa do Anexo I do Simples Nacional, resultando em uma alíquota efetiva de 14,3% sobre a receita bruta anual, conforme a legislação vigente para o setor de comércio e produção agroindustrial (Brasil, 2009).

Os resultados demonstram que o investimento inicial total para a implantação da piscicultura é de R$ 3.070.585,99. Deste montante, a aquisição da terra representa R$ 989.301,30, enquanto as construções civis e a infraestrutura de tanques somam R$ 1.511.385,76. O capital de giro necessário para sustentar os dois primeiros ciclos produtivos foi calculado em R$ 569.898,93, garantindo a operacionalidade da empresa até que as primeiras receitas sejam integralizadas. A produção anual estimada de 5.965.500 peixes, após considerar uma taxa de sobrevivência de 97%, gera uma receita bruta total de R$ 2.490.596,50. A comercialização é segmentada por categorias de tamanho, sendo a classe média a de maior volume, com 3.579.300 unidades vendidas ao preço médio de R$ 0,45. As demais categorias, pequena, grande e extragrande, possuem preços unitários de R$ 0,30, R$ 0,50 e R$ 0,80, respectivamente. Esta segmentação permite otimizar o faturamento ao atender diferentes perfis de consumidores no mercado de iscas vivas.

A análise dos custos operacionais revela que os custos variáveis anuais totalizam R$ 396.071,37, sendo a ração o item de maior impacto, seguida pelo oxigênio e combustíveis. Os custos fixos anuais foram estabelecidos em R$ 173.827,56, incluindo a remuneração de três funcionários de campo e um motorista, além de despesas com energia elétrica, que somam R$ 18.000,00 anuais, e serviços de contabilidade. O resultado operacional bruto anual atinge R$ 1.564.542,28, o que demonstra uma margem robusta para a cobertura de impostos e a remuneração do capital investido. Após a dedução dos tributos sobre a receita, que totalizam R$ 356.155,30, a receita líquida anual fixa-se em R$ 2.134.441,20. A eficiência produtiva é evidenciada pela baixa mortalidade e pelo manejo adequado, fatores que minimizam o desperdício de insumos e potencializam o retorno financeiro em sistemas de viveiros escavados (Instituto de Pesca, 2021).

Os indicadores de viabilidade econômica confirmam a atratividade do projeto. O Valor Presente Líquido calculado foi de R$ 2.526.272,96, indicando que o empreendimento gera riqueza acima da taxa de desconto estipulada. A Taxa Interna de Retorno alcançou 44,06% ao ano, valor significativamente superior à Taxa Mínima de Atratividade de 14,5%, o que posiciona a produção de lambari como uma alternativa de investimento altamente competitiva em comparação com outras atividades agropecuárias. A relação Benefício-Custo de 1,82 indica que para cada real investido, o projeto retorna R$ 1,82 em valores presentes. O tempo de recuperação do capital, medido pelo payback descontado, é de dois anos e seis meses, um prazo considerado curto para projetos de infraestrutura aquícola, refletindo a rapidez dos ciclos biológicos da espécie e a eficiência do modelo operacional proposto.

A análise de sensibilidade realizada permitiu identificar a resiliência do negócio frente a variações adversas no mercado. Em um cenário de redução de 10% na receita bruta, motivada por queda nos preços de venda ou redução na demanda, a Taxa Interna de Retorno ainda se mantém em patamares favoráveis de 36,10%, com um Valor Presente Líquido positivo de R$ 1.800.517,60. Por outro lado, um aumento de 20% nos custos operacionais totais reduziria a Taxa Interna de Retorno para 40,45%, demonstrando que o projeto possui maior sensibilidade a variações no faturamento do que ao aumento das despesas de produção. Esses dados reforçam a importância de estratégias de marketing e diversificação de canais de venda para garantir a estabilidade dos preços praticados. A sazonalidade, especialmente durante o período de defeso da piracema, pode influenciar o volume de vendas, exigindo um planejamento financeiro que contemple períodos de menor liquidez.

A comparação dos resultados obtidos com estudos de outras espécies nativas e sistemas produtivos revela que a produção de lambari em viveiros escavados apresenta vantagens competitivas em termos de custo de implantação por hectare de lâmina d’água. Enquanto sistemas de recirculação exigem investimentos tecnológicos elevados e possuem custos de energia superiores, os viveiros escavados aproveitam a produtividade natural e demandam menor aporte de capital fixo por unidade produzida (Acunha et al., 2023). No entanto, a escala de produção é um fator determinante para a diluição dos custos fixos. O modelo de 41 tanques permite uma operação profissionalizada, com logística própria e laboratório de reprodução integrado, o que reduz a dependência de fornecedores externos de alevinos e aumenta a margem de lucro líquida. A viabilidade em escalas menores pode ser comprometida se não houver um controle rigoroso da taxa de sobrevivência e da conversão alimentar (Burad-Méndez et al., 2023).

A gestão nutricional e o manejo da qualidade da água são pilares para a manutenção da produtividade em 50 peixes por metro quadrado. O uso de rações com níveis proteicos adequados para cada fase de desenvolvimento, variando de 45% de proteína bruta para pós-larvas até 32% para a fase de engorda, garante o crescimento uniforme e a saúde do plantel. O monitoramento constante de parâmetros como oxigênio dissolvido, temperatura e pH é essencial, especialmente em sistemas intensivos onde a carga orgânica é elevada. A utilização de aeradores e a renovação parcial da água, quando necessária, previnem episódios de mortalidade em massa que poderiam inviabilizar o fluxo de caixa. A eficiência no uso de insumos como o calcário para correção da alcalinidade e a ureia agrícola para fertilização inicial dos tanques contribui para a formação de produtividade primária, reduzindo a pressão sobre o fornecimento de ração extrusada (Instituto de Pesca, 2020).

A comercialização do lambari como isca viva exige cuidados logísticos adicionais, uma vez que o produto deve chegar ao consumidor final em perfeitas condições de vitalidade. O processo de depuração, realizado no galpão de alvenaria, é uma etapa crítica que prepara o animal para o transporte em altas densidades dentro dos tanques especializados. A utilização de oxigênio medicinal durante o transporte e o acondicionamento em embalagens plásticas adequadas para pequenas distâncias são práticas que garantem a qualidade do produto e a fidelização dos clientes, principalmente lojas de artigos de pesca e operadores de turismo de pesca esportiva. O preço de venda superior ao do peixe para consumo humano justifica os custos adicionais com logística e manejo individualizado (Cala-Delgado et al., 2024).

As limitações do estudo residem na natureza hipotética das projeções, que embora baseadas em dados reais de mercado e parâmetros zootécnicos validados, podem sofrer interferências de variáveis ambientais não controladas, como secas extremas ou surtos de patógenos específicos. Pesquisas futuras devem focar na análise de viabilidade em sistemas integrados, como a aquaponia, ou no uso de fontes alternativas de proteína na dieta do lambari para reduzir a dependência de farinha de peixe e baixar os custos de produção (Castilho-Barros et al., 2023). A sustentabilidade ambiental do empreendimento também deve ser objeto de monitoramento contínuo, garantindo que o descarte de efluentes dos tanques não impacte os corpos hídricos receptores, mantendo a conformidade com as normas ambientais estaduais e federais.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a produção de lambari do rabo amarelo em viveiros escavados na região de Franca-SP é economicamente viável e apresenta elevada atratividade financeira. O investimento inicial de R$ 3.070.585,99 é suportado por indicadores robustos, como uma Taxa Interna de Retorno de 44,06% e um Valor Presente Líquido de R$ 2.526.272,96, com recuperação do capital em 30 meses. A elevada taxa de sobrevivência e a escala produtiva de 6,15 milhões de unidades anuais são os principais pilares da rentabilidade, permitindo a diluição eficiente dos custos fixos e operacionais. A análise de sensibilidade confirmou que o negócio permanece sustentável mesmo diante de oscilações moderadas no mercado, consolidando a atividade como uma alternativa promissora para a diversificação da piscicultura nacional e o fortalecimento da economia regional baseada em espécies nativas.

Referências Bibliográficas:

Abimorad, E. G.; Carneiro, D. J. 2004. Métodos de coleta de fezes e determinação dos coeficientes de digestibilidade da fração proteica e da energia de alimentos para o pacu, Piaractus mesopotamicus (Holmberg, 1887). Revista Brasileira De Zootecnia 33(5): 1101–1109.

Acunha, R. M. G.; Barros, A. F.; Ferraz, A. L. J.; Campos, C. M. 2023. Avaliação econômica da lambaricultura em Aquidauana, MS, a partir de um estudo de caso. Agrarian 16(56): e17244–e17244.

Agência Nacional De Águas E Saneamento Básico [ANA]. 2025. Página institucional. Disponível em: https://www.gov.br/ana/pt-br. Acesso em: 24 fev. 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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