GERO: um olhar prático sobre a resiliência organizacional

Coluna

Gestão De Negócios

15 de setembro de 2025

GERO: um olhar prático sobre a resiliência organizacional

Em vez de apenas reagir a crises, é importante construir uma cultura de preparo, aprendizado e adaptação

Nos últimos anos, o tema resiliência organizacional deixou de ser apenas um conceito acadêmico para se tornar uma exigência concreta das empresas, que enfrentam crises de diferentes naturezas — desde pandemias a instabilidades geopolíticas, passando por disrupções tecnológicas. A pergunta que se deve fazer não é mais se uma organização vai passar por um evento adverso, mas quando.

É nesse contexto que surge o GERO (Gestão Estratégica de Resiliência Organizacional), um modelo que ajuda líderes a estruturar ações em três dimensões — ambiente, organização e pessoas —, e em três temporalidades: antes, durante e depois de uma crise. O grande diferencial é transformar a resiliência em um campo de gestão estratégico, e não mais em uma reação improvisada ou isolada.

Na dimensão ambiental, busca-se ter um olhar atento para fora e para dentro. Essa variável orienta uma empresa a monitorar os ambientes interno e externo sistematicamente. Em termos práticos, significa acompanhar tendências, identificar riscos e manter planos de continuidade. Durante a pandemia, por exemplo, vimos a diferença entre as empresas que tinham processos padronizados e reservas estratégicas ou financeiras e as que precisaram improvisar em meio ao caos. Aqui vale uma provocação importante: sua empresa tem indicadores claros para acompanhar riscos e vulnerabilidades ou ainda depende apenas do feeling da liderança?

Na dimensão comportamental organizacional, busca-se trazer compreensão sobre como a empresa reage e aprende. Aqui, o foco está na capacidade institucional de antecipar e responder a crises, transformando cada evento em aprendizado. Isso envolve a sistematização de comunidades de prática, grupos focais para revisão de processos internos, capacitação contínua, comunicação sistêmica com todos os envolvidos na cadeia produtiva, simulações de riscos e planos de contingência. Essas ações permitem que a organização não apenas reaja a eventos inesperados, mas também transforme a experiência em melhoria contínua, aprimorando processos internos e fortalecendo a capacidade de decisão em ambientes complexos.

Uma pesquisa realizada pela consultoria KPMG em 2021 mostrou que 73% das empresas brasileiras pesquisadas não possuíam planos de continuidade de negócios adequados. Dentro desse total, 40% estavam no estágio 1 (sem qualquer estratégia formal de continuidade), e 33% se encontravam no estágio 2 (com algum plano, mas incompleto, pois não cobria todos os eventos que poderiam afetar as operações).

A terceira dimensão, a comportamental individual, parte do pressuposto de que nenhuma estratégia se sustenta sem pessoas preparadas e, aqui, não estamos falando apenas de habilidades técnicas, mas de comportamentos que permitam às pessoas enfrentarem uma crise específica de forma mais assertiva. Entre essas competências estão a criatividade, proatividade, pensamento inovador, negociação, flexibilidade cognitiva, adaptabilidade, visão sistêmica e capacidade de julgamento em cenários complexos. O desenvolvimento dessas habilidades possibilita que os funcionários atuem com autonomia e assertividade diante de situações adversas, contribuindo para a continuidade das operações.

O modelo GERO reforça que a resiliência precisa ser pensada em diferentes momentos.

  • Antes da crise: é preciso criar reservas financeiras, estruturar planos de continuidade, firmar parcerias estratégicas;
  • Durante a crise: é importante ativar planos de contingência, intensificar a comunicação, realocar recursos de forma ágil;
  • Depois da crise: devem-se registrar lições aprendidas e aplicar mudanças sustentáveis no planejamento estratégico.

Trabalhar a resiliência organizacional não é apenas reagir a crises, mas construir uma cultura de preparo, aprendizado e adaptação contínua. Isso exige indicadores claros (tempo de resposta, engajamento das equipes, redundância operacional) e, sobretudo, uma liderança ativa na promoção de valores como flexibilidade e cooperação.

Conduzida com uma forte atuação assertiva da liderança, a Alterdata Software é um bom exemplo. Considerada pelo mercado como resiliente, atualmente a organização ocupa a quinta posição entre as maiores empresas de software do Brasil.

Seu CEO, Ladmir Carvalho, costuma incentivar os diretores a questionarem constantemente o status quo, fazendo perguntas como: “Que custos existem para fazer o que não dá mais resultados?”; “que rotinas podem ser paralisadas sem prejudicar a operação?”; “quais produtos não estão mais girando?”. Com essa “inquietude produtiva”, a Alterdata vem crescendo sistematicamente e contribuindo com inovações que fazem a diferença para os seus mais de 60 mil clientes ativos.

Em 2015, com a recessão econômica brasileira e a iminente perda significativa de clientes, a Alterdata criou um sistema de “medição de infelicidade do cliente”. Trata-se de um modelo matemático de análise preditiva, que investiga diariamente 22 características comportamentais dos seus parceiros para melhoria do atendimento.

Esse sistema de controle de riscos possui uma taxa de eficácia de mais de 90% e, em 2018, evitou cerca de 35% de casos que poderiam ter se transformado em cancelamentos. O sistema ranqueia os possíveis clientes mais insatisfeitos, enviando, para os gerentes das filiais, informações importantes que os ajudam a tomar uma medida proativa. Em 2024 esse case se tornou um capítulo de livro de um dos autores da área de marketing mais importantes do mundo: Philip Kotler. 

O exemplo da Alterdata mostra, na prática, como a resiliência pode deixar de ser apenas uma resposta emergencial e se tornar uma competência organizacional permanente e estratégica, exatamente como propõe o modelo GERO. Ao antecipar riscos com dados, estimular a inovação comportamental de suas lideranças e investir em processos de aprendizagem contínua, a empresa consolidou uma postura proativa e estratégica diante das adversidades. Mais do que resistir a crises, a Alterdata transformou vulnerabilidades em oportunidades de crescimento sustentável, sendo esse o verdadeiro sentido da resiliência organizacional.

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui

Quem publicou esta coluna

Denise de Moura

É consultora de Recursos Humanos com 27 anos de experiência; atuou em pequenas, médias e grandes empresas como Petrobras SA e Lojas Americanas. É professora convidada do MBA USP/Esalq desde 2013, doutora em administração; tem mestrado em sistemas de gestão e pós-graduação em gestão da qualidade total. Escreveu o livro “Cansei de Sofrer no Trabalho” (Qualitymark Editora, 2012) e idealizou o site www.dicasinfaliveis.com.br.

Você também pode gostar

22 de outubro de 2026

Jornada do Consumidor na Decisão de Compra de Infoprodutos no Ambiente Digital

A expansão do comércio eletrônico e a transformação tecnológica impulsionaram a necessidade de compreender o comportamento do consumidor de infoprodutos, cuja experiência percebida tornou-se crucial para o desenvolvimento profissional. O estudo objetivou analisar os fatores que influenciaram a decisão de compra de infoprodutos no ambiente digital, considerando as etapas da jornada do consumidor. Realizou-se uma pesquisa aplicada, quantitativa e descritiva, por meio de um levantamento de campo com 100 consumidores da Serra Gaúcha. A coleta de dados ocorreu via questionário estruturado, utilizando amostragem não probabilística. Os resultados revelaram um público qualificado e com forte comportamento “mobile-first”. Constatou-se que a disponibilidade de informações detalhadas e a aprovação social foram os principais gatilhos de atração na fase de pré-compra. Nas etapas transacionais e posteriores, a minimização de atritos operacionais, a agilidade do acesso imediato e a segurança sistêmica mostraram-se cruciais para a conversão e satisfação, embora lacunas na eficiência do suporte humano tenham sido identificadas. A retenção fundamentou-se na confiança gerada por experiências anteriores positivas, superando o fator preço. Concluiu-se que a jornada do consumidor de infoprodutos opera como um sistema integrado, exigindo alinhamento entre infraestrutura tecnológica, curadoria de conteúdo e humanização do suporte para assegurar o engajamento.

Palavras-chave: Comércio eletrônico; Comportamento do consumidor; Experiência do consumidor; Fidelização; Negócios virtuais.

22 de outubro de 2026

Observatório Digital da Amazônia: Ciência de Dados Aplicada à Análise de Indicadores Sociais, Econômicos, Ambientais e de Saúde

O estado do Amazonas enfrentou desafios históricos na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), decorrentes de barreiras geográficas, desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais. Descreveu-se, neste estudo, o desenvolvimento e a implementação de um geoportal de informações em saúde, concebido para apoiar o monitoramento, a avaliação e o planejamento no contexto amazônico. Adotou-se uma abordagem de estudo de caso descritivo, baseada em análise documental e dados secundários, abrangendo o mapeamento de funcionalidades, a infraestrutura técnica e as etapas de validação da ferramenta. O Portal foi desenvolvido com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e repositório digital de documentos. Entre os resultados, destacaram-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave, a possibilidade de análises comparativas temporais e a utilização da plataforma na revisão de planos de saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. O portal pode representar um avanço na governança digital e na gestão baseada em evidências, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade, desde que acompanhada de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional e articulação interinstitucional.

Palavras-chave: Amazônia; Avaliação em Saúde; Saúde Digital; Sistemas de Informação em Saúde.

22 de outubro de 2026

Aprendizado Contínuo como Fator de Crescimento Organizacional na Percepção dos Colaboradores

O impacto do aprendizado contínuo e da gestão do conhecimento no crescimento das organizações foi estudado em um cenário de globalização e constantes mudanças. O objetivo do estudo foi analisar a percepção dos colaboradores sobre a cultura de aprendizagem e sua importância para o desenvolvimento pessoal e profissional. Os dados foram obtidos por meio de uma pesquisa anônima, de abordagem quantitativa, utilizando um formulário com questões do tipo “survey” aplicado a 87 profissionais dos setores de tecnologia, saúde, educação, comércio e serviços. Os resultados indicaram que os colaboradores possuíam uma percepção positiva sobre a contribuição do aprendizado contínuo para o crescimento pessoal e organizacional, reconhecendo seus benefícios para o desenvolvimento de novas habilidades, inovação e competitividade. Contudo, observou-se que o incentivo à troca de conhecimento interno e a oferta de treinamentos práticos ainda apresentavam médias moderadas de concordância. Concluiu-se que o aprendizado contínuo contribui significativamente para o desenvolvimento individual e organizacional, sugerindo que as empresas devem desenvolver políticas estratégicas de aprendizado direcionado para novas habilidades, visando maior vantagem competitiva e inovação.

Palavras-chave: Aprendizagem contínua; Autodesenvolvimento; Crescimento organizacional; Gestão do conhecimento; Inovação.

22 de outubro de 2026

Previsão da Inadimplência Agregada no Sistema Financeiro Brasileiro por Modelo Sarimax com Variáveis Macroeconômicas

A inadimplência agregada no sistema financeiro brasileiro é um indicador crucial de risco de crédito, cuja previsão é regulamentada pelas Resoluções CMN n.° 4.557/2017 e 4.966/2021 para a mensuração prospectiva de perdas esperadas. Modelou-se e previu-se a inadimplência agregada por meio do modelo SARIMAX, projetando sua trajetória até dezembro de 2026 sob cenários otimista, base e pessimista. Utilizaram-se 164 observações mensais (julho/2012 a fevereiro/2026) e variáveis macroeconômicas como desemprego, Selic, IPCA, IBC-Br e endividamento das famílias. A especificação com variáveis contemporâneas foi selecionada com base em critérios de informação e estabilidade dos coeficientes, e o diagnóstico dos resíduos confirmou adequação estatística, com MAPE de 3,12%. A inadimplência histórica variou entre 4,33% e 7,64%. A estimação identificou o desemprego (β = 0,2534; p < 0,001) e a Selic (β = 0,2128; p < 0,001) como principais determinantes positivos, com forte persistência temporal (AR(1) = 0,8965). A Selic exibiu correlação crescente com a inadimplência (r = 0,62 no lag 12), enquanto o desemprego demonstrou efeito contemporâneo (r = 0,33). As projeções indicaram inadimplência entre 6,30% e 7,98% em dezembro de 2026, com uma amplitude de 1,68 ponto percentual, evidenciando implicações diretas para o dimensionamento de provisões nas instituições financeiras. Palavras-chave: Desemprego; Modelagem preditiva; Política monetária; Provisão de perdas; Séries temporais.

22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

22 de outubro de 2026

Combate às Perdas Comerciais de Energia Elétrica Utilizando Modelo de Séries Temporais

As perdas comerciais de energia elétrica representaram um dos principais desafios para as distribuidoras, impactando diretamente a sustentabilidade econômica e a qualidade do fornecimento. Avaliou-se a eficiência de modelos de séries temporais, com foco em técnicas de suavização exponencial, na previsão do consumo faturado de unidades consumidoras, para apoiar a identificação de desvios associados a perdas não técnicas. Utilizaram-se dados históricos de consumo mensal de uma distribuidora de energia elétrica no Brasil, segmentados por perfis de comportamento (estacionariedade, tendência e sazonalidade). Aplicaram-se modelos de suavização exponencial simples, Holt e Holt-Winters (aditivo e multiplicativo), comparados a uma média móvel tradicional. O erro percentual absoluto médio (MAPE) foi o critério de avaliação. Adicionalmente, empregou-se a abordagem ETS para seleção automática do modelo e testes de diagnóstico dos resíduos, como Ljung-Box e análise da função de autocorrelação. Os resultados demonstraram que modelos mais robustos apresentaram maior capacidade de adaptação às características das séries e menor erro, com destaque para o desempenho superior em cenários com tendência. Para séries sazonais, o modelo ETS mostrou maior capacidade de adaptação a transições. Concluiu-se que a utilização de modelos de séries temporais mais estruturados contribuiu significativamente para a melhoria da acurácia das previsões e ofereceu suporte analítico relevante para a identificação de perdas comerciais e otimização de processos operacionais e comerciais no setor elétrico.

Palavras-chave: Distribuição de energia; MAPE; Otimização; Previsão de consumo; Suavização exponencial.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade