
03 de fevereiro de 2026
Inteligência artificial aplicada ao processo criativo da tatuagem
Camila da Costa Paz; Anderson Rogério Faia Pinto
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisa os fatores que influenciam a aceitação e o uso da Inteligência Artificial (IA) por tatuadores, identificando resistências, oportunidades e percepções sobre a integração de ferramentas de IA em seus processos de trabalho. O foco recai sobre a lacuna geracional que pode modular a adaptação a essas tecnologias. A investigação foi motivada pela crescente relevância da IA em setores criativos e pela necessidade de compreender como a tecnologia pode se tornar uma aliada ao trabalho artístico dos tatuadores, em vez de ser vista como uma ameaça à autenticidade do ofício. O propósito é mapear o cenário atual no Brasil, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de estratégias de integração, formação e ferramentas que respeitem e fortaleçam a criatividade humana na tatuagem.
A relevância da análise reside na contínua expansão do mercado de tatuagem, com crescente demanda por designs personalizados (Dino, 2021). A personalização e a experiência do cliente são valores centrais que impulsionam os profissionais a se reinventarem (Oliveira, 2016; Plentz, 2021). Nesse cenário, a IA emerge como força disruptiva, desafiando noções tradicionais de criatividade, antes consideradas um domínio exclusivamente humano (Colman, 2015). A capacidade das máquinas de emular comportamentos análogos ao pensamento humano (Kurzweil, 2001) levanta questionamentos sobre seu impacto na concepção e execução de tatuagens, um campo artístico ligado à subjetividade, cultura e simbolismo.
A introdução de tecnologias de IA no fluxo de trabalho criativo não ocorre sem atritos. A literatura aponta que a resistência à mudança pode ser motivada por fatores racionais (reaprendizagem de processos), emocionais (medo do desconhecido) e sociais (interesses culturais) (Copini, 2011). Para tatuadores que valorizam a individualidade e a autoria, a IA pode ser vista como um desafio ao seu talento. Essa percepção é reforçada pela limitação da IA em incorporar as nuances emocionais e a originalidade que caracterizam a arte humana (Cetinic e She, 2022). A tecnologia atual não replica a profundidade simbólica e cultural que um artista imprime em sua obra (Stockton-Brown, 2023).
Contudo, uma perspectiva alternativa sugere que o maior impacto da IA ocorre quando ela atua como ferramenta colaborativa, ampliando a criatividade humana em vez de substituí-la (Anantrasirichai e Bull, 2020). A produção artística mediada por IA está inserida em um arquivo sociocultural onde as tecnologias digitais reconfiguram a própria compreensão da criatividade (Baas, 2024). A IA pode ser programada para auxiliar os seres humanos a atingirem seus objetivos, especialmente em cenários de bloqueio criativo (Russel, 2009). Nesse sentido, a tecnologia deve ser vista como um complemento, deslocando a discussão para questões de autoria compartilhada e colaboração homem-máquina (Menezes, 2023).
A questão fundamental é se as novas ferramentas tecnológicas podem colaborar com o setor da tatuagem sem comprometer seus pilares: o talento, a originalidade e a singularidade do artista. Entender como a IA pode ser integrada de forma ética e produtiva é crucial para sua adesão. A perspectiva adotada é que, por meio de uma implementação cuidadosa, é possível propor iniciativas de formação e ferramentas que potencializem a criatividade dos tatuadores no Brasil, transformando um potencial conflito em uma sinergia inovadora.
A pesquisa adotou uma abordagem metodológica mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos para uma compreensão abrangente do fenômeno (Linnenluecke et al., 2020; Lim et al., 2022). O método misto foi estratégico para analisar um público-alvo diverso, com diferentes níveis de experiência e percepções sobre tecnologia (Barroga et al., 2023). Essa abordagem permitiu quantificar tendências de uso e capturar as nuances das opiniões, medos e expectativas dos profissionais (Bhangu, 2023). O estudo teve natureza exploratória, visando desbravar um tema pouco investigado no contexto brasileiro e gerar insights sobre a relação entre IA e a arte da tatuagem.
A coleta de dados ocorreu por 30 dias via formulário online (Google Forms). A seleção dos participantes foi não probabilística, por conveniência, com o convite distribuído por WhatsApp para profissionais do setor. A estratégia visou alcançar tatuadores de diferentes regiões do Brasil, embora a amostra final não possua representatividade estatística nacional. O instrumento de coleta foi um questionário estruturado, dividido em blocos temáticos para investigar sistematicamente as dimensões de interesse da pesquisa.
O primeiro bloco do questionário caracterizou o perfil dos respondentes (idade, gênero, tempo de atuação, local de trabalho). O segundo bloco avaliou a familiaridade com tecnologias digitais e ferramentas de IA, buscando entender os padrões de uso. O terceiro aprofundou-se no nível de aceitação e na percepção sobre o uso da IA, investigando como a tecnologia é vista em termos de originalidade, ameaça ou complemento ao trabalho artístico. O quarto bloco explorou as barreiras, oportunidades e expectativas relacionadas à aplicação da IA no setor, utilizando perguntas de múltipla escolha e questões abertas para capturar insights qualitativos.
Na análise, as respostas quantitativas foram consolidadas, tabuladas e analisadas com base na frequência. Para a visualização dos resultados, foram criados gráficos com o software Microsoft Office Excel 2024, permitindo uma interpretação clara das tendências. As respostas qualitativas, provenientes das questões abertas, foram submetidas a uma análise de conteúdo temática, na qual foram identificados e agrupados os principais temas, preocupações e sugestões emergentes. A integração dos dados quantitativos e qualitativos permitiu uma discussão mais rica e contextualizada dos resultados.
A amostra por tempo de atuação profissional é heterogênea: 20% com menos de um ano, 24% entre 1 e 4 anos, 18% entre 4 e 8 anos, 22% entre 8 e 15 anos e 9% com mais de 15 anos. Essa diversidade enriquece a análise, permitindo contrastar percepções de diferentes gerações. A predominância de profissionais mais jovens, que cresceram em um ambiente tecnológico, pode justificar uma maior abertura à IA, como sugerem estudos que associam as novas gerações a uma visão da tatuagem como linguagem híbrida entre arte e tecnologia (Bitarello et al., 2014). A familiaridade com o digital facilita a adoção de IA em práticas criativas (Palfrey e Gasser, 2011), embora o impacto da tecnologia varie conforme o nível de experiência do criador (Ivcevic e Grandinetti, 2024).
Quanto à familiaridade com a tecnologia, o ambiente digital já é uma realidade para a maioria: 53% afirmaram utilizar ferramentas digitais com frequência. Sobre IA, 71% dos participantes relataram já ter utilizado alguma ferramenta para criação de artes, indicando uma experimentação disseminada. A frequência de uso, no entanto, é moderada: 33% utilizam ocasionalmente, 27% de forma frequente, 23% raramente e 17% sempre. Os números sugerem uma fase de exploração, alinhada ao crescimento de publicações científicas sobre IA nas artes, que a reconhecem como tendência consolidada (Anantrasirichai e Bull, 2020). A tendência de adoção reflete um cenário promissor; o incentivo ao aprendizado pode acelerar a integração da IA.
A percepção sobre a IA revela um cenário complexo. Entre os que nunca utilizaram a tecnologia, há um misto de desconhecimento e curiosidade. Enquanto 33% nunca tinham ouvido falar sobre o tema, 67% já possuíam alguma familiaridade. Notavelmente, 58% desse grupo acreditam que a IA pode ser útil, e 50% manifestaram interesse em experimentá-la. Isso indica um grande potencial de adesão, que pode ser ativado por ações educativas. As respostas qualitativas apontam que a falta de acesso a ferramentas simples e a ausência de cursos são barreiras importantes. A resistência de alguns, que defendem o uso da IA apenas como referência, evidencia o receio de que a tecnologia substitua a criatividade humana, um debate central na literatura (Stockton-Brown, 2023).
Entre os tatuadores que já utilizam a IA, a percepção é majoritariamente positiva, vendo-a como um complemento ao trabalho. Questionados sobre o impacto na originalidade, 39% afirmaram que a IA não afeta a originalidade e 29% consideram que ela pode ajudar a mantê-la. Apenas 7% sentem que a IA compromete totalmente a originalidade. Essa visão se alinha à prática de artistas que adotam a IA para etapas de ideação, mantendo o controle humano sobre as decisões finais (Cetinic e She, 2022). A ferramenta mais citada foi o Midjourney, seguida pelo ChatGPT. A alta demanda por treinamentos (19 participantes afirmaram que participariam) reforça a disposição para integrar a IA de forma mais qualificada.
As motivações para a adoção da IA são variadas, incluindo curiosidade e a busca por referências visuais de maior qualidade em comparação com fontes como o Pinterest. A IA é vista como uma ferramenta para desbloquear o processo criativo, oferecendo agilidade, especialmente em momentos de bloqueio ou prazos curtos. Os profissionais enxergam na tecnologia uma forma de enriquecer seu repertório e fugir de repetições visuais comuns. Essa percepção da IA como parceira no processo criativo é fundamental para sua aceitação. A interação colaborativa entre artista e sistema é um fator chave na avaliação da criatividade em contextos que envolvem IA (Karimi et al., 2018).
Apesar da abertura, barreiras persistem. O desconhecimento sobre o funcionamento das ferramentas é um obstáculo central. A dificuldade em dominar os comandos (prompts), a limitação técnica de alguns aplicativos e o tempo de adaptação são desafios práticos. Além disso, a preocupação com a manutenção da identidade autoral e as implicações éticas sobre direitos autorais são temas recorrentes. A discussão sobre obras geradas por IA destaca o dilema jurídico e cultural da autoria (Stockton-Brown, 2023), e o público, embora reconheça a produção da IA como arte, ainda resiste em atribuir o mesmo status de autoria concedido aos humanos (Mikalonytė e Kneer, 2021).
As oportunidades percebidas, no entanto, superam as barreiras para muitos. A IA é explorada como um motor de referências visuais, ajudando a criar composições e estilos inovadores. A tecnologia estimula a criatividade ao permitir a prototipagem rápida de ideias e a exploração de estéticas difíceis de conceber manualmente. As expectativas para o futuro apontam para o desejo de ferramentas de IA mais integradas, capazes de simular desenhos no corpo do cliente ou adaptar criações às características de cada pessoa. Há um anseio por formação específica que aborde o uso ético e criativo da IA, transformando-a em uma aliada que potencializa o talento humano.
Este estudo permitiu uma análise sobre como os tatuadores brasileiros percebem e se relacionam com a Inteligência Artificial. Os resultados revelam um setor em transição; a tecnologia começa a desempenhar um papel relevante, embora cercada por receios e desconhecimento. A maioria dos profissionais demonstrou uma postura aberta e curiosa, reconhecendo o potencial da IA como ferramenta de apoio para geração de referências e otimização do processo criativo. Contudo, barreiras como a falta de conhecimento técnico, o medo da substituição da criatividade humana e a dificuldade em preservar a identidade artística foram identificadas como obstáculos à sua plena adoção.
As expectativas dos profissionais convergem para o desejo de uma IA mais personalizada, ética e integrada à prática da tatuagem, que funcione como uma extensão da capacidade do artista, sem comprometer a autoria e a originalidade. A alta disposição dos respondentes em participar de treinamentos sinaliza uma clara abertura para evoluir junto com a tecnologia, desde que haja suporte, acessibilidade e respeito à arte. O futuro da tatuagem neste novo paradigma tecnológico reside na união sinérgica entre a tradição artística e a inovação; o protagonismo humano permanece no centro do ato criativo. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se os fatores que influenciam a aceitação e o uso da IA por tatuadores, revelando um cenário de transição marcado por uma abertura à tecnologia como ferramenta de apoio, contrabalançada por resistências ligadas ao desconhecimento técnico e ao receio da perda de autenticidade artística.
Referências:
Anantrasirichai, N.; Bull, D. 2020. Artificial Intelligence in the Creative Industries: A Review. arXiv preprint, arXiv:2007.12391.
Baas, M. 2024. Artificial Intelligence and the Question of Creativity: Art, Data and the Sociocultural Archive of AI-imaginations. AI & Society, v. 39.
Barroga, E.; Matanguihan, G. J.; Furuta, A.; Arima, M.; Tsuchiya, S.; Kawahara, C.; Takamiya, Y.; Izumi, M. 2023. Conducting and writing quantitative and qualitative research. Journal of Korean Medical Science, v. 38, n. 37, p. 1-16.
Bhangu, A. et al. 2023. Introduction to Qualitative Research. ResearchGate.
Bitarello Sad, B.; Niemeyer, L.; Queiroz, J. 2014. Designing New Tattoos: Relations About Technology and Tattoo Design. Blucher Design Proceedings, v. 1, n. 1, p. 176-179.
Cetinic, E.; She, J. 2022. Understanding and Creating Art with AI: Review and Outlook. ACM Transactions on Multimedia Computing, Communications and Applications, v. 18, p. 1-22.
Colman, A. M. 2015. A Dictionary of Psychology. 4. ed. Oxford: Oxford University Press.
Condorelli, M. 2025. Creativity and Awareness in Co-Creation of Art Using Text-to-Image AI. Heritage, v. 8, n. 5, p. 157.
Copini, A. K. et al. 2011. Reações dos funcionários ao processo de mudança organizacional: estudo de uma empresa do setor de tecnologia da informação. Cadernos da Escola de Negócios, v. 1, n. 9, p. 61-71.
Dino. 2021. Indústria da tatuagem cresceu no período da pandemia. Metrópoles.
Ivcevic, Z.; Grandinetti, M. 2024. Artificial Intelligence as a Tool for Creativity. Journal of Creativity, v. 34, n. 2, p. 100079.
Karimi, P.; Zheng, O.; Osman, N.; Mueller, S. 2018. Evaluating Creativity in Computational Co-Creative Systems. arXiv preprint, arXiv:1807.09886.
Kurzweil, R. 2005. The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology. New York: Viking.
Lim, W. M.; Kumar, S.; Ali, F. 2022. Advancing Knowledge Through Literature Reviews: ‘What’, ‘Why’, and ‘How to Contribute’. The Service Industries Journal, v. 42, n. 7-8, p. 481-513.
Linnenluecke, M. K.; Marrone, M.; Singh, A. K. 2020. Conducting Systematic Literature Reviews and Bibliometric Analyses. Australian Journal of Management, v. 45, n. 2, p. 175-194.
Menezes, M. A. 2023. A Inteligência Artificial versus a Inteligência Humana. Saber Humano: Revista Científica da Faculdade Antonio Meneghetti, v. 13, n. 22, p. 220-239.
Mikalonytė, L.; Kneer, M. 2021. Can Artificial Intelligence Make Art? Folk Intuitions as to Whether AI-Driven Robots Can Be Viewed as Artists and Produce Art. arXiv preprint, arXiv:2104.07598.
Oliveira, R. 2016. Tatuadores, tatuados: pesquisa e reflexão estética. Ide (São Paulo), v. 38, n. 61, p. 149-167.
Palfrey, J.; Gasser, U. 2011. Nascidos na Era Digital: Entendendo a Primeira Geração dos Nativos Digitais. Porto Alegre: Artmed.
Plentz, B. 2021. O que é Design de Serviço? Homa Design.
Prensky, M. 2001. Digital Natives, Digital Immigrants. On the Horizon, Bradford, v. 9, n. 5, p. 1-6.
Russell, S.; Norvig, P. 2009. Artificial Intelligence: A Modern Approach. 3. ed. Upper Saddle River: Prentice Hall.
Stockton-Brown, M. 2023. Inking Cultures: Authorship, AI-Generated Art and Copyright Law in Tattooing. International Journal for the Semiotics of Law, v. 36, p. 1-29.
Tapscott, D. 2010. A Hora da Geração Digital. Rio de Janeiro: Agir.
White, D. S.; Le Cornu, A. 2011. Visitors and Residents: A New Typology for Online Engagement. First Monday, Chicago, v. 16, n. 9.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq
Saiba mais sobre o curso; clique aqui:






































