
23 de março de 2026
Qualidade no Desenvolvimento de Métodos para Pesticidas em Vegetais
Aline Pereira Roque; Daniel R. Tasé Velázquez
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O gerenciamento de projetos estabelece uma abordagem estruturada e sistematizada para assegurar o sucesso de cada entrega, integrando áreas fundamentais como escopo, tempo, custo e, primordialmente, a qualidade. No setor industrial e em laboratórios de alta complexidade, a gestão da qualidade e suas ferramentas associadas configuram-se como estratégias vitais para a entrega de valor e o incremento da competitividade mercadológica. As práticas inerentes a essa área referem-se a processos de incorporação das políticas de qualidade da organização, voltadas a assegurar que as entregas durante todo o ciclo de vida do projeto ou serviço atendam às necessidades e expectativas das partes interessadas (PMI, 2017). Esse gerenciamento subdivide-se em três pilares fundamentais: o planejamento, que identifica os padrões relevantes; a garantia, que implementa atividades sistêmicas; e o controle, que monitora os resultados para assegurar a conformidade com os padrões estabelecidos (Monteiro de Carvalho & Rabechini Jr., 2018; PMI, 2021).
A melhoria contínua surge como um componente indissociável desse cenário, sendo responsável por identificar, analisar e implementar aprimoramentos constantes nos processos. O objetivo é que os resultados não apenas cumpram requisitos técnicos, mas também evoluam em eficiência e eficácia, adaptando-se às mudanças ao longo do ciclo de vida do projeto (Rodrigues da Silva et al., 2024). No contexto específico do registro de pesticidas, a aplicação de metodologias de melhoria contínua é crucial para garantir a precisão e a confiabilidade dos estudos exigidos para aprovação regulatória e manutenção de acreditações laboratoriais. Para que um pesticida obtenha aprovação, é imperativo apresentar estudos científicos robustos que fundamentem a elaboração da bula, incluindo análises de resíduos em culturas-alvo, como folhas, frutos, sementes, grãos e raízes. Tais estudos determinam os limites máximos permitidos e os intervalos de segurança, respeitando normativas rigorosas como a Resolução da Diretoria Colegiada nº 4 (RDC nº 4), as diretrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) e as orientações da Direção-Geral da Saúde e da Segurança dos Alimentos (SANTE).
A detecção de pesticidas envolve a identificação exata e a quantificação do analito em matrizes vegetais complexas, utilizando metodologias avançadas como a cromatografia líquida acoplada ao espectrômetro de massas. Esse processo permite investigar a presença, a concentração e o comportamento dos defensivos agrícolas, garantindo a segurança alimentar e ambiental conforme as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Em laboratórios que operam sob a acreditação do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), a adoção de ferramentas digitais e planilhas eletrônicas automatizadas apresenta-se como uma solução estratégica para otimizar o controle de qualidade no desenvolvimento de métodos. Tais soluções dinamizam a rotina operacional, minimizam erros de cálculo que poderiam originar não conformidades e reduzem a necessidade de retrabalhos onerosos, além de fortalecer a rastreabilidade do processo com baixo custo de implementação.
O desenvolvimento de métodos analíticos compreende a pesquisa e a definição de parâmetros de extração e condições cromatográficas que viabilizem a quantificação precisa do pesticida. A necessidade de padronização nesse setor é evidenciada por lacunas identificadas em ambientes laboratoriais regulatórios, onde a ausência de automação em cálculos básicos e a alta rotatividade de colaboradores qualificados comprometem a eficiência. A escassez de profissionais especializados demanda treinamentos prolongados, o que dificulta a rápida capacitação de novos analistas para assumir funções de pesquisa sem comprometer o rigor técnico. Diante dessa realidade, a estruturação de uma ferramenta que possibilite o controle da qualidade e a melhoria contínua torna-se essencial. O ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act) oferece a base metodológica necessária para planejar, organizar e monitorar a aplicação de soluções que mitiguem falhas humanas e garantam a integridade dos dados gerados em estudos de resíduos.
A metodologia adotada para a proposição dessa solução fundamenta-se em uma pesquisa aplicada, de natureza exploratória e descritiva, estruturada sob a forma de um estudo de caso qualitativo (Prodanov & Freitas, 2013). O estudo baseia-se na vivência profissional acumulada ao longo de sete anos em quatro laboratórios distintos que realizam estudos regulatórios para a agroindústria. Essas organizações apresentam portes variados, abrangendo desde empresas emergentes com 50 funcionários até multinacionais com mais de 10.000 colaboradores, localizadas tanto na capital quanto no interior do estado de São Paulo. O público-alvo dessas instituições consiste em empresas que necessitam de estudos de resíduos, análises físico-químicas e estudos de cinco bateladas para o registro de novas moléculas ou manutenção de produtos já existentes no mercado.
A coleta de dados ocorreu de forma indireta, por meio da observação estruturada do fluxo de trabalho e da análise documental de normas nacionais e internacionais, como os guias SANTE (2020) e as diretrizes do Inmetro (2018). Essa abordagem permitiu identificar gargalos operacionais recorrentes, especialmente relacionados à falta de padronização nos cálculos de bancada. A população do estudo compreende o conjunto de práticas e procedimentos operacionais padrão utilizados no desenvolvimento de métodos para detecção de pesticidas. Para a estruturação da solução, as informações foram sistematizadas em uma planilha eletrônica desenvolvida no software Microsoft Excel, escolhido por sua ampla aplicabilidade, baixo custo e facilidade de reprodução. A construção da ferramenta foi dividida em cinco abas funcionais: fortificação e extração; diluições gerais; concentração da curva de calibração; terminologias; e equações empregadas.
Na aba de fortificação e extração, a ferramenta permite a inserção de parâmetros críticos como o limite de quantificação inferior e superior, o volume de extração, o volume da alíquota e a concentração das soluções de fortificação. Esses dados são fundamentais para o cálculo automático do fator de alíquota e do volume de fortificação necessário para atingir o limite de quantificação definido. A aba de diluições gerais sistematiza diferentes cenários aplicáveis ao preparo de amostras, minimizando equívocos manuais. Já a aba de concentração da curva de calibração processa os resultados em unidades de microgramas por mililitro e miligramas por quilograma. Para garantir a padronização conceitual, a aba de terminologias reúne definições fundamentais, enquanto a aba de equações consolida as fórmulas matemáticas aplicadas, garantindo transparência e permitindo a conferência manual para validação dos cálculos inseridos.
A aplicação do ciclo PDCA como estrutura de gerenciamento permitiu direcionar ferramentas específicas para cada etapa do projeto. Na fase de planejamento, utilizou-se o mapeamento de processos para identificar pontos críticos de erro e a matriz GUT (Gravidade, Urgência e Tendência) para priorizar os problemas encontrados. A análise SWOT foi empregada para diagnosticar forças, fraquezas, oportunidades e ameaças relacionadas à implementação da planilha. Na fase de execução, a ferramenta foi elaborada em conjunto com o time operacional, incluindo analistas e supervisores, que definiram as variáveis essenciais, como massa de amostra, solventes utilizados e finalidade das diluições. Após a construção, a planilha foi protegida para evitar alterações indevidas em suas fórmulas, fundamentadas em literatura especializada de química analítica (Skoog et al., 2015).
Para a fase de verificação, planejou-se um período de monitoramento de seis meses, utilizando indicadores-chave de desempenho (KPIs) para avaliar a eficácia da ferramenta. Os analistas devem utilizar a planilha em suas rotinas diárias, observando a facilidade de uso e a consistência dos resultados, enquanto o supervisor do laboratório conduz reuniões de acompanhamento para consolidar as percepções da equipe. O supervisor da garantia da qualidade atua na validação dos registros, assegurando que a rastreabilidade atenda aos requisitos normativos. Finalmente, na etapa de ação, o plano prevê a correção de eventuais desvios, a institucionalização da planilha como ferramenta oficial por meio de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) e a criação de programas de capacitação contínua para novos colaboradores.
Os resultados obtidos na fase de planejamento revelaram uma correlação direta entre os requisitos da RDC nº 4 e do guia SANTE com as funcionalidades da planilha proposta. A rastreabilidade dos dados é garantida por campos específicos que identificam a amostra, o estudo, a data e o operador, conforme exigido pelo Artigo 11 da normativa nacional. A padronização é assegurada pelo uso de métodos analíticos validados e fórmulas protegidas, o que impede edições acidentais e mantém a integridade dos dados gerados durante o estudo. A interface intuitiva e a capacidade de gerar evidências claras facilitam a reconstrução completa do estudo em auditorias, atendendo às exigências de trilha de auditoria e proteção de dados eletrônicos.
O alinhamento com as partes interessadas evidenciou que stakeholders externos, como grandes empresas detentoras de moléculas originais e fabricantes de genéricos, dependem da precisão desses estudos para o patrocínio e registro de seus produtos. Internamente, analistas e diretores de estudo buscam agilidade e segurança nos processos. A comparação entre o mapeamento do processo com cálculos manuais e o processo automatizado demonstrou que a ausência de um sistema padronizado exige conferências duplas constantes, que ainda assim são suscetíveis a falhas humanas. Tais falhas podem comprometer a integridade do método, resultando em atrasos nas entregas e, em casos extremos, na não aprovação do projeto pelos órgãos regulamentadores, o que prejudica severamente a credibilidade da instituição prestadora de serviços.
A análise por meio da matriz GUT classificou o retrabalho causado por erros de cálculo, o impacto na conformidade regulatória e a falta de rastreabilidade como problemas de prioridade muito alta, com pontuações de criticidade que variam entre 75 e 100. Em contrapartida, a resistência da equipe à adoção da nova ferramenta foi classificada como de baixa prioridade, sugerindo que os colaboradores reconhecem a necessidade de melhorias sistêmicas. O uso de planilhas eletrônicas, portanto, não apenas minimiza riscos financeiros e reputacionais, mas também contribui para a melhoria contínua ao permitir maior eficiência operacional e redução de falhas (Ignácio Giocondo César et al., 2024; Moraes & Lima Junior, 2017).
A análise SWOT identificou como forças principais a redução de erros, a maior agilidade e a consolidação da rastreabilidade. Como fraquezas, destacaram-se a necessidade de treinamento inicial e a possível resistência cultural. As oportunidades externas incluem a possibilidade de expandir o uso da ferramenta para outras matrizes, como pólen e néctar, criando um diferencial competitivo no mercado. Entretanto, as ameaças residem na possibilidade de auditorias identificarem erros em registros manuais antigos, o que reforça a urgência na transição para sistemas automatizados. A adoção da planilha mitiga esses riscos e potencializa o posicionamento estratégico da organização no setor de análises regulatórias.
Na fase de execução simulada, observou-se que a planilha integra variáveis que anteriormente ficavam dispersas em diferentes registros de bancada. A centralização de dados como o volume do extrato final e a concentração da solução de fortificação em um único documento facilita a identificação precoce de inconsistências, que muitas vezes só seriam percebidas na fase de elaboração do relatório final. A automação dos cálculos proporciona um processo mais confiável e ágil, reduzindo o esforço de revisão e o risco de reprovação de formulações junto à ANVISA e ao MAPA. A comparação detalhada entre os cenários evidencia que, com a planilha, o envio da documentação ocorre com maior segurança, possibilitando uma aprovação mais fluida.
Para o monitoramento da implantação, foram definidos KPIs específicos. Antes da implementação total, espera-se que pelo menos 25% das etapas já utilizem a ferramenta, com um índice de preenchimento correto superior a 95%. O tempo médio de preenchimento deve situar-se entre cinco e 15 minutos, garantindo que a ferramenta não onere a rotina do analista. Durante a implantação, o objetivo é atingir 100% de conformidade com os requisitos listados e uma redução de 80% nos retrabalhos originados por erros de cálculo. A qualidade da documentação técnica deve apresentar um índice de 90%, enquanto a satisfação da equipe em relação à nova ferramenta deve atingir uma nota média igual ou superior a 8,0 em pesquisas internas. O cumprimento do cronograma de entrega de resultados também é um indicador crítico, com meta de 100% de pontualidade.
A etapa de verificação deve coletar dados a partir de registros de não conformidades e questionários aplicados à equipe, permitindo uma análise comparativa entre o período anterior e posterior à adoção da ferramenta. Caso os indicadores apontem desvios, como uma baixa taxa de adesão ou dificuldades no preenchimento, o plano de ação prevê a revisão da comunicação interna e o reforço nos treinamentos. Se os resultados forem positivos, a planilha será institucionalizada como ferramenta oficial, acompanhada de um manual do usuário e de um plano de sustentabilidade que inclua revisões anuais e ajustes baseados em sugestões da equipe e em auditorias internas. O acompanhamento contínuo dos KPIs após a padronização garantirá a sustentação da melhoria implantada e a identificação precoce de novos desafios operacionais.
A discussão dos resultados reforça que a implementação de soluções de baixo custo, como planilhas automatizadas, é uma estratégia eficaz para laboratórios que buscam excelência sem investimentos massivos em softwares complexos de gestão laboratorial (LIMS). A integração de conceitos de gestão de projetos com a rotina técnica da química analítica preenche uma lacuna importante na formação dos profissionais da área, que muitas vezes focam apenas na execução técnica e negligenciam a gestão dos processos. A rastreabilidade e a integridade dos dados, pilares das Boas Práticas de Laboratório (BPL), são diretamente fortalecidas por essa abordagem, elevando o patamar de conformidade da instituição perante órgãos reguladores nacionais e internacionais.
As limitações deste estudo residem no fato de a implantação prática não ter sido concluída dentro do cronograma da pesquisa, permanecendo no estágio de planejamento detalhado e validação teórica. Contudo, o roteiro estruturado fornece todas as diretrizes necessárias para uma aplicação imediata em ambiente real. Pesquisas futuras poderiam explorar a integração dessa ferramenta com bancos de dados centralizados ou o desenvolvimento de aplicativos móveis para coleta de dados diretamente na bancada, aumentando ainda mais a agilidade e eliminando a necessidade de transcrição de dados manuais para o meio digital. A consolidação de uma cultura de melhoria contínua e excelência operacional é, portanto, o maior benefício a longo prazo para o setor de análises regulatórias de pesticidas.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a ferramenta proposta demonstrou ser uma solução viável, de baixo custo e alta aplicabilidade para o gerenciamento da qualidade no desenvolvimento de métodos analíticos. A estruturação baseada no ciclo PDCA permitiu identificar as principais fragilidades dos processos manuais, como a falta de padronização e o alto risco de erros de cálculo, propondo uma alternativa que fortalece a rastreabilidade e a conformidade regulatória. A planilha eletrônica desenvolvida integra variáveis críticas e automatiza operações complexas, reduzindo significativamente o potencial de retrabalho e aumentando a eficiência operacional. O plano de monitoramento e os indicadores estabelecidos fornecem um roteiro consistente para a implementação em ambiente real, promovendo a consolidação de uma cultura de melhoria contínua e garantindo a integridade dos dados essenciais para o registro de pesticidas em matrizes vegetais.
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De Carvalho, M. M.; Jr., R. R. 2018. Fundamentos em gestão de projetos. 5ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Inmetro, 2018 [Referência completa não encontrada no documento original]
Moraes, M. H. B. M.; Júnior, F. R. L. 2016. Proposição e aplicação de uma metodologia baseada no AHP e na ISO/IEC 25000 para apoiar a avaliação da qualidade de softwares de gestão de projetos. Revista GEPRO 12(2): 239-260.
Prodanov, C. C.; De Freitas, E. C. 2013. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2ed. © Editora Feevale, Novo Hamburgo, RS, Brasil
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Skoog, D. A.; West, D. M.; Holler, F. J.; Crouch, S. R. 2015. Fundamentos de Química Analítica. 9ª ed. Cengage Learning, São Paulo, Brasil.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de MBA em Gestão de Projetos
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