Resumo Executivo

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23 de março de 2026

Viabilidade econômica de vinhos de inverno no Oeste baiano

Allan Bruno Almeida de Figueiredo; Aparecida Leonir Da Silva

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

As primeiras Vitis viníferas chegaram ao Brasil com os colonizadores portugueses em 1532, sendo inicialmente introduzidas na região onde atualmente se localiza o estado de São Paulo (Leão, 2010). Historicamente, o cultivo dessas variedades concentrou-se na região Sul do país, devido às condições climáticas mais amenas e à tradição dos imigrantes europeus. Com o passar das décadas, a viticultura expandiu-se para outras latitudes, mas foi somente no século XX que as uvas finas destinadas à produção de vinhos de alta gama ganharam representatividade em termos de produção nacional, impulsionadas pela viabilização do cultivo em áreas tropicais (Camargo, 2010). Esse movimento de interiorização e adaptação tecnológica foi fundamental para que, em 2023, a região Nordeste do Brasil acumulasse 43% da área plantada de uvas no país (IBGE, 2024), participando com expressivos 67% de toda a produtividade nacional (Lima, 2024).

Um avanço tecnológico disruptivo para o setor ocorreu no início dos anos 2000 com o advento da viticultura de inverno, fundamentada na técnica da dupla poda ou poda invertida. Este método consiste em realizar duas podas anuais para orientar o ciclo fenológico da planta de modo que a maturação e a colheita ocorram entre os meses de junho e agosto. O objetivo central é deslocar a produção para um período de baixa precipitação pluviométrica, o que garante bagas mais sadias e concentradas. Além disso, a exposição dos cachos a altas variações diárias de temperatura durante o inverno tropical favorece uma maturação mais lenta, permitindo o acúmulo de polifenóis e compostos voláteis essenciais para a complexidade aromática dos vinhos (Pereira et al, 2020). Essa inovação, aliada a avanços nas técnicas enológicas, elevou a qualidade dos vinhos finos brasileiros, permitindo a exploração de novos terroirs fora do eixo tradicional.

A busca pela identificação regional e pela expressão máxima de cada localidade tornou-se a nova fronteira da vitivinicultura nacional (Tonietto, 2002). Produtores em diversas regiões buscam identificar aptidões vitícolas específicas para elaborar produtos com alto valor agregado (Guerra, 2002). Exemplos de sucesso já consolidaram a técnica da dupla poda no sul de Minas Gerais (Amorim et al, 2005) e na Chapada Diamantina, na Bahia (Pereira et al, 2020). O cenário de mercado também se mostrou favorável, especialmente após o período pandêmico, que registrou um aumento de 26% no consumo per capita de vinho entre os brasileiros (Exame, 2024). O volume comercializado cresceu 37% no mesmo período, representando um marco histórico para a economia de vinhos finos no Brasil, desafiando o setor a manter o abastecimento com produtos de qualidade superior (Wine South American, 2020).

Nesse contexto de expansão e valorização do produto nacional, a Fazenda Trijunção, situada no Oeste da Bahia, iniciou um projeto experimental para avaliar se a região possuía as condições edafoclimáticas necessárias para a produção de vinhos finos de excelência. A iniciativa visava não apenas diversificar as atividades da propriedade, tradicionalmente voltada à pecuária, mas também suprir a demanda crescente por vinhos de inverno com identidade regional própria. O foco central da análise reside na avaliação da viabilidade econômica desse parreiral experimental, gerando indicadores financeiros que sustentem a tomada de decisão para futuras expansões em escala comercial.

A coleta de dados para a estruturação desta análise foi realizada em uma propriedade rural localizada no município de Cocos, na região do Oeste baiano. A fazenda em questão atravessa um processo de transição produtiva, diversificando suas operações de pecuária bovina para novos modelos de negócio, incluindo a criação de ovinos para leite, o cultivo de baunilha e a viticultura fina. A área total da propriedade compreende 33 mil hectares, dos quais 1800 ha são destinados a atividades agropecuárias, predominantemente compostas por pastagens de origem africana. O parreiral experimental, objeto deste estudo minucioso, foi implantado em setembro de 2018, ocupando uma área inicial de 0,12 ha.

O delineamento experimental do vinhedo consistiu no plantio de 400 plantas distribuídas em oito variedades distintas, permitindo a avaliação comparativa de desempenho entre diferentes castas. As plantas foram organizadas em oito linhas, com 50 plantas por linha, utilizando um espaçamento de 1 metro entre plantas e 3 metros entre linhas. As variedades selecionadas e seus respectivos porta-enxertos foram: Cabernet Sauvignon sobre IAC-313, Sauvignon Blanc sobre IAC-572, Chardonnay sobre Gravesac, Pinot Noir sobre Paulsen 1103, Mourvèdre sobre Paulsen 1103, Syrah sobre Paulsen 1103, Malbec sobre Paulsen 1103 e Cabernet Franc sobre Paulsen 1103. A escolha desses porta-enxertos visou garantir a adaptação ao solo local e a resistência a patógenos, enquanto as variedades de copa foram selecionadas pelo seu potencial enológico já reconhecido em outros projetos de vinhos de inverno.

O sistema de condução adotado foi a espaldeira vertical no sistema de lira, com manejo adaptado para a técnica de dupla poda e sistema de irrigação por gotejamento para controle preciso do estresse hídrico. O cronograma operacional iniciou-se com a poda de formação em agosto de 2019. Posteriormente, a primeira poda de produção foi realizada em fevereiro de 2020, visando uma colheita em setembro do mesmo ano. Entretanto, desafios climáticos e fitossanitários marcaram o início do projeto. Uma seca tardia e o excesso de chuvas em momentos críticos favoreceram a entrada de míldio (Plasmopara viticola), o que, somado à inexperiência da equipe local com a cultura, comprometeu a produtividade da primeira safra experimental. Além disso, observou-se um crescimento vegetativo inicial abaixo do esperado, possivelmente devido a ajustes necessários na nutrição mineral das plantas em um ambiente de Cerrado ainda pouco explorado para a viticultura.

Diante dos resultados iniciais, os manejos foram recalibrados. Em agosto de 2020, realizou-se uma nova poda de formação, seguida de ajustes no suprimento de fertilidade e na intensificação das proteções preventivas via pulverizações. Em fevereiro de 2021, procedeu-se à nova poda de produção, orientando o ciclo para uma produtividade mínima, com o intuito de priorizar a qualidade enológica e a expressão do terroir. A colheita bem-sucedida ocorreu em agosto de 2021. O protocolo de colheita estabelecido determinava que os cachos fossem colhidos exclusivamente no período da manhã para preservação do frescor, acondicionados em caixas de isopor com gel em gel e transportados via aérea no mesmo dia para o laboratório de Microvinificação da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul.

A metodologia de análise econômica baseou-se no levantamento rigoroso dos registros financeiros e produtivos da fazenda entre 2018 e 2023. Foram contabilizadas todas as despesas de capital (Capex), incluindo investimentos em mudas clonadas, insumos para preparo do solo, sistemas de irrigação, estruturas de condução e ferramentas. Simultaneamente, registraram-se as despesas operacionais (Opex), abrangendo mão de obra especializada, adubação, defensivos, energia elétrica e transporte. Para o cálculo da viabilidade, as receitas foram estimadas com base no valor de mercado dos vinhos produzidos, uma vez que as safras experimentais foram destinadas à análise técnica. Os indicadores calculados incluíram o custo total de produção, receita bruta, margem de contribuição, lucro operacional, ponto de equilíbrio, Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR) e o payback simples e descontado. Todos os dados foram processados em planilhas eletrônicas, permitindo a comparação com referências da vitivinicultura nacional para aferir a eficiência e atratividade do investimento no Cerrado baiano.

A análise detalhada do sistema produtivo revelou que o vinhedo experimental exigiu um acompanhamento técnico constante. Durante a safra de 2020, a produção mínima obtida foi descartada devido à baixa adaptação nutricional e ao ataque de míldio, favorecido por um regime de chuvas prolongado. Esse período inicial serviu como aprendizado operacional para a equipe da fazenda, que operou sob regime de custos sem geração de receita. A virada de chave ocorreu no ciclo de 2021, quando a condução técnica mais assertiva e o ajuste nutricional permitiram a colheita de cachos sadios. Embora a escala tenha sido limitada propositalmente para favorecer a concentração de açúcares e precursores aromáticos, os resultados enológicos foram promissores, validando o potencial do terroir para vinhos de guarda.

Os custos de implantação, realizados no ano 0 (2018), totalizaram R$ 20.652,73 para a área experimental. O preparo do solo demandou operações de subsolagem, gradagem e nivelamento, além da distribuição de calcário, totalizando R$ 137,36 em horas-máquina. O investimento em adubos e corretivos foi mais expressivo, somando R$ 1.245,90, com destaque para o uso de Yoorin (R$ 720,00) e superfosfato simples (R$ 196,00). O sistema de condução representou uma parcela significativa do capital imobilizado, custando R$ 2.164,61, onde o arame galvanizado e os mourões de centro e de extremidade foram os itens principais. A infraestrutura de irrigação por gotejamento, essencial para a sobrevivência das plantas no Cerrado, custou R$ 578,30. O maior desembolso individual na implantação foi a aquisição de 416 mudas clonadas diversas, totalizando R$ 3.744,00. A fertirrigação inicial e o uso de defensivos somaram R$ 424,44 e R$ 144,47, respectivamente. A mão de obra para instalação e o custo fixo de funcionários no período inicial foram calculados em R$ 10.783,65, enquanto ferramentas e implementos básicos completaram o investimento inicial.

Nos anos subsequentes, os custos operacionais refletiram as atividades de manutenção. No ano 1, o desembolso total foi de R$ 12.494,69. Desse montante, a mão de obra representou R$ 11.688,00, evidenciando o caráter intensivo da viticultura fina. Os insumos para fertirrigação e defensivos somaram R$ 806,69. Observou-se que, durante o período da pandemia de COVID-19, houve uma elevação gradual nos preços dos insumos químicos e fertilizantes, impactando o fluxo de caixa do projeto. No ano 2, os custos mantiveram-se estáveis em R$ 12.478,23, com a manutenção da estrutura de custos operacionais, apesar da colheita ainda não ter atingido volumes comerciais. O ano 3 apresentou um aumento nos custos para R$ 15.027,15, impulsionado pela necessidade de intensificar o controle fitossanitário devido à pressão do míldio, elevando os gastos com defensivos para R$ 1.355,15.

A primeira safra com volume expressivo ocorreu no ano 4 (2022), com custos totais de R$ 15.303,74. Nesse ciclo, a colheita de 1.183 kg de uvas demonstrou a viabilidade produtiva do sistema. A variedade Sauvignon Blanc destacou-se com uma produtividade de 347,8 kg na área experimental, o que equivale a 23.184 kg/ha se extrapolado. Outras variedades como Syrah (153 kg) e Malbec (128,7 kg) também apresentaram desempenho satisfatório. No ano 5 (2023), os custos operacionais subiram para R$ 16.880,16, refletindo o aumento nos preços de fertilizantes como o NPK 20-05-20 e o SuperSimples, além do custo de colheita e transporte. A produtividade total nesse ano foi de 847 kg, com uma média de 2,12 kg por planta.

Para a análise de rentabilidade, considerou-se um cenário onde as uvas seriam vinificadas em uma vinícola terceirizada. O custo de vinificação foi estimado em R$ 5,50 por unidade, com custos adicionais de garrafas (R$ 5,65), rolhas (R$ 2,20), rótulos (R$ 0,65) e cápsulas (R$ 0,22). O valor de venda projetado para a garrafa de 750 ml foi de R$ 170,00, valor condizente com vinhos de inverno de alta qualidade no mercado brasileiro. Com base nesses parâmetros, a receita bruta anual estimada para o projeto estabilizado foi de R$ 136.000,00, considerando a venda de 800 garrafas anuais. Após a dedução de impostos (46% sobre a venda), comissões e fretes, a receita líquida anual projetada fixou-se em R$ 73.440,00.

O fluxo de caixa consolidado mostrou que o investimento acumulado ao final de cinco anos atingiu R$ 92.836,69. O lucro operacional anual, após a estabilização da produção, foi calculado em R$ 29.625,77. Ao aplicar uma Taxa Mínima de Atratividade (TMA) de 12,65%, baseada no Certificado de Depósito Interbancário (CDI) de 2023, o projeto apresentou indicadores financeiros robustos. O Valor Presente Líquido (VPL) foi de R$ 117.248,35, indicando que o projeto gera valor acima do custo de capital. A Taxa Interna de Retorno (TIR) alcançou 24%, superando significativamente a TMA e confirmando a atratividade econômica do empreendimento. O payback simples foi atingido em 5 anos, coincidindo com o período de maturação plena do vinhedo e estabilização dos processos operacionais.

A discussão dos resultados aponta que, apesar dos custos elevados por hectare devido à escala experimental, a viticultura de inverno no Oeste da Bahia é tecnicamente possível e economicamente rentável. A produtividade média de 7,5 toneladas por hectare é competitiva com outras regiões produtoras de vinhos finos no Brasil. A análise de sensibilidade indicou que, mesmo se o preço de venda da garrafa fosse reduzido para R$ 110,00, o investimento ainda permaneceria lucrativo, embora com um prazo de retorno mais extenso. As limitações observadas, como a sensibilidade ao míldio em anos mais chuvosos, sugerem que futuras expansões devem investir pesadamente em sistemas de previsão climática e monitoramento fitossanitário rigoroso. Além disso, a qualificação da mão de obra local é um fator crítico para reduzir perdas operacionais e otimizar o manejo da dupla poda.

A comparação com dados da literatura reforça que o Cerrado baiano oferece uma janela de oportunidade única. Enquanto o Sul do Brasil enfrenta desafios com o excesso de chuva durante a colheita de verão, o Oeste da Bahia utiliza a irrigação e o clima seco do inverno para garantir a sanidade das uvas. A amplitude térmica registrada na Fazenda Trijunção foi determinante para a qualidade dos compostos fenólicos encontrados nas microvinificações realizadas pela Embrapa. Sugere-se que pesquisas futuras foquem na adaptação de outras variedades e no ajuste fino da fertirrigação para os solos arenosos da região, visando aumentar a longevidade das videiras e a constância produtiva.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que o cultivo de uvas finas para vinhos de inverno no Oeste da Bahia é uma atividade economicamente viável e altamente rentável. O projeto apresentou um VPL positivo de R$ 117.248,35 e uma TIR de 24%, superando a taxa mínima de atratividade de 12,65%. O retorno do investimento ocorre em 5 anos, um prazo adequado para empreendimentos perenes de alto valor agregado. A transição da pecuária para a vitivinicultura de precisão na Fazenda Trijunção mostra-se como um modelo estratégico de diversificação, capaz de posicionar a região como um novo polo de excelência na produção de vinhos finos brasileiros.

Referências Bibliográficas:

AMORIM, D.A. Produção extemporânea da videira, cultivar Syrah, nas condições do sul de minas gerais. In: Rev. Bras. Frutic., Jaboticabal – SP, v. 27, n. 2, p. 327-331, 2005.

CAMARGO, U.A et al. Embrapa Uva e Vinho -novas cultivares brasileiras de uva, 2010.

EXAME. Taça meio cheia: consumo de vinho no Brasil salta para 2,7 litros por pessoa por ano. https://exame.com/casual/taca-meio-cheia-consumo-de-vinho-no-brasil-salta-para 27-litros-por-pessoa-por-ano/, consultado em 02/04/2025.

GUERRA, C.C. Maturação da uva e condução da vinificação para a elaboração de vinhos finos. In: REGINA, M. de A. (Ed.). Viticultura e enologia: atualizando conceitos. Caldas: EPAMIG-FECD, 2002. 179-192p., 2002.

IBGE, 2024 [Referência completa não encontrada no documento original]

LEÃO, P.C.S. Breve histórico da vitivinicultura e a sua evolução na região semiárida brasileira In: Anais da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, Recife, vol. 7, p.81-85, 2010.

LIMA, J.R.F. atualizações dos dados sobre a cultura da uva com dados da pam/ibge até 2023, 2024.

PEREIRA, G.E. et al. Panorama da produção e mercado nacional de vinhos espumantes In: Informe Agropecuário. Produção de Vinhos Espumantes na Serra da Mantiqueira, Belo Horizonte, v.41, n. 310, p.7-00, 2020.

TONIETTO, J. O conceito de denominação de origem como agente promotor da qualidade dos vinhos In: REGINA, M. de. A. (Ed.). Viticultura e enologia: atualizando conceitos. Caldas: EPAMIG-FECD, 2002. 151-163 p., 2002.

WINE SOUTH AMERICA. Setor comemora recorde no consumo de vinho no Brasil em 2020. Organizações em contexto, São Bernardo do Campo, ISSNe 1982-8756 • Vol. 20, n. 40, jun.-dez. 20242682020. Wine South America, Rio Grande do Sul, 22 de out. de 2020. Disponível em: https://www.winesa.com.br/setor-comemora-recorde-no-consumo-de-vinho-no-brasil-em-2020/.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de MBA em Agronegócios

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